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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O Fantasma Assange

O caso do australiano Julian Assange tem muita similitude com o caso do Lula brasileiro. 

Trata-se da perseguição do poder quando se encontra encurralado e ameaçado de reduzir, repartir ou perder seus privilégios, usando de toda sua trama e máquina de associados para destruir o atrevido que ousou expor seus segredos ao público para alertar e conscientizar as pessoas comuns.

A destruição é principalmente levada a cabo através de mentiras (fake news) espalhadas pela poderosa mídia bilionária associada à trama, que manipula e sugestiona a mente da grande parte do público ingênuo de todas as classes sociais que é basicamente ignorante e mal informada, assim influenciando e corrompendo suas decisões ao minarem o instrumento da Democracia, invento que tem sido a defesa legal deste mesmo público na era moderna, outrossim indefeso e despido de seus direitos humanos. Enganei o bobo na casca do ovo...

Como veremos, isso não acontece só no Brasil dos vira-latas...

Esta tem sido uma estratégia de guerra muito bem montada ao longo dos anos pós-guerra a fim de extender a dominação do planeta, investindo-se os bilhões de dólares concentrados para a continação da preservação e maximização dos lucros através da extrema concentração de renda que já testemunhamos hoje em dia, onde pequeno percentual de bilionários detém a riqueza de mais de 90% da população do mundo que mal consegue sobreviver, parte desta população ela própria empregada para aumentar ainda mais esta concentração de riqueza no mundo diariamente. É a trama do capeta...

Se quiser ficar rico, não estude, dê um jeito de entrar pra gangue exploradora do planeta...


Nils Melzer

Só agora o Relator Especial da ONU sobre Tortura desde 2016, Nils Melzer, acadêmico, autor e profissional na área de direito internacional, deu depoimento sobre o estado de Julian Assange, publicista, editor e ativista australiano que fundou o WikiLeaks em 2006, causador de um escândalo internacional ao revelar segredos e crimes da política norte-americana que atingem o mundo inteiro. Julian Assange asilou-se na embaixada do Equador que lhe deu proteção contra os ataques das elites mundiais, mas a eleição de um novo presidente de direita naquele país desfez toda a proteção do Equador durante os 7 anos em que ele esteve confinado na sua embaixada em Londres, e o entregou aos britânicos que hoje o mantém preso em segurança máxima, sofrendo tortura psicológica, e por isso agora é caso para o Relator da ONU.

O envolvimento de 4 países nesta trama, Estados Unidos, Inglaterra, Suécia e Equador, como se fossem um mesmo país através de suas associações no caso Assange, representa bem o envolvimento dos Estados Unidos com o Brasil no caso Lula, ou seja, a concentração de poder decorrente da extrema concentração de renda que é atualmente o maior problema do capitalismo, pode inventar qualquer coisa para enquadrar quem quer que seja, e tudo sob uma aparência de legalidade, para calar os ameaçadores e enganar e manipular a opinião dos incautos e ignorantes que votam nas democracias e assim se mantém a aparência de legalidade, reduzindo os conflitos contra uma oposição esclarecida, que tem resultado na divisão da sociedade, das famílias e dos amigos no mundo ocidental, divisão entre os conscientes e os inconscientes que se acham certos.

Linha do Tempo

  • 2010 - WikLeaks vaza segredos
  • 2012 - Equador, presidente Rafael Correa asila Assange
  • 2018 - Cidadania equatoriana para Assange
  • 2019 - Cidadania revogada pelo novo presidente equatoriano, o cadeirante Lenín Moreno (2017), ex-vice de Rafael Correa, centro-esquerda, que subtamente mudou para a extrema-direita neoliberal atrelada a Trump após eleito (enganei o bobo na casca do ovo!)
  • 11 de abril de 2019 - Assange é capturado e preso na Inglaterra pela polícia convidada por Lenín de supetão (venha, tira isso daqui!)

Relator da ONU: “O caso de Julian Assange é um enorme escândalo. Se ele for condenado, será uma sentença de morte para a liberdade de imprensa”. Em entrevista, Nils Melzer detalha como Assange foi perseguido politicamente por quatro países – EUA, Reino Unido, Equador e Suécia – que queriam acabar com o Wikileaks.

Fontes

Entrevista com Nils Melzer, Relator da ONU, por Daniel Ryser, traduzida do Alemão para o Inglês por Charles Hawley e publicada em 31 de janeiro de 2020 pelo Republik Suiço. Yves Bachmann fez as fotos. A entrevista foi traduzida para o Português por Ethel Rudnitzki e publicada no Brasil por Pedro Pligher para a Pública - Agência de Jornalismo Investigativo, liderada por mulheres e republicada pelo DCM - Diário do Centro do Mundo, em 4 de fevereiro de 2020. E foi assim, uma luz brilhou no céu de noite, e eu fiquei louco a olhar...

«Um sistema assassino está sendo criado diante de nossos olhos» 

Uma alegação de estupro inventada e provas fabricadas na Suécia, pressão do Reino Unido para não se desistir do caso, um juiz tendencioso, detenção em uma prisão de segurança máxima, tortura psicológica - e logo extradição para os EUA, onde pode enfrentar até 175 anos de prisão por expor crimes de guerra. Pela primeira vez, o relator especial da ONU sobre tortura, Nils Melzer, fala em detalhes sobre as descobertas explosivas de sua investigação sobre o caso do fundador do Wikileaks, Julian Assange.

Esclarecimento do DCM - Diário do Centro do Mundo

Uma acusação de estupro que as mulheres não fizeram, testemunhos adulterados, pressão do Reino Unido para não largar o caso, um juiz parcial, uma prisão em uma penitenciária de segurança máxima, tortura psicológica – Julian Assange enfrentou tudo isso e agora corre risco de uma extradição para os EUA, onde ele pode enfrentar até 175 anos de prisão por expor crimes de guerra.

Os Estados Unidos pedem a extradição do fundador do Wikileaks com base na Lei de Espionagem por ter publicado documentos secretos do governo americano. Enquanto aguarda o julgamento do pedido, Assange está em um presídio de segurança máxima na Inglaterra.

Pela primeira vez, o Relator Especial sobre tortura da ONU, Nils Melzer, fala em detalhes sobre as descobertas explosivas de sua investigação no caso do fundador do Wikileaks. Melzer é taxativo ao explicar por que o caso de Assange interessa a ele – e por que deveria interessar a todos que se importam com a democracia. “Julian Assange foi intencionalmente torturado psicologicamente pela Suécia, Inglaterra, Equador e pelos EUA”, diz.

“A coisa realmente horripilante nesse caso é a ilegalidade que se desenvolveu: os poderosos podem matar sem medo de punição e o jornalismo se transforma em espionagem. Está se tornando um crime dizer a verdade”.

Entrevista

1. A polícia sueca construiu uma história de estupro

Daniel Ryser: Nils Melzer, por que a Relatoria Especial de Tortura da ONU está interessada em Julian Assange?

Isso é uma coisa que o ministro de Relações Exteriores da Alemanha também me perguntou recentemente. Isso está dentro do seu mandato, como relator para tortura? O Assange é vítima de tortura?

Daniel Ryser: Qual foi sua resposta?

O caso está sob meu mandato por de três maneiras diferentes: primeiro, Assange publicou provas de tortura sistemática, mas ao invés dos responsáveis pela tortura, é o Assange que está sendo perseguido. Segundo, ele mesmo foi tão maltratado que agora está exibindo sintomas de tortura psicológica. E terceiro, ele está prestes a ser extraditado para um país que detém pessoas como ele em condições de detenção que a Anistia Internacional descreveu como tortura. Em suma: Julian Assange denunciou práticas de tortura, foi ele mesmo torturado e poderia ser torturado até a morte nos Estados Unidos. E um caso desses não deveria ser de minha responsabilidade? Além disso, esse caso tem grande importância simbólica e afeta todos os cidadãos de países democráticos.

Daniel Ryser: Por que você não assumiu o caso antes, então?

Imagine um quarto escuro. De repente, uma pessoa coloca luz sobre um elefante no quarto – e revela criminosos de guerra, ou corrupção. Assange é o homem com a lanterna. Os governos ficam primeiro em estado de choque, mas depois desviam a luz da lanterna com acusações de estupro. É uma manobra clássica para manipular a opinião pública. O elefante desaparece mais uma vez na escuridão. E Assange vira o foco da atenção, no seu lugar. E nós começamos a discutir se ele está andando de skate na embaixada ou se está alimentando seu gato corretamente. De repente, todos nós sabemos que ele é um estuprador, um hacker, um espião e um narcisista. Mas os abusos e crimes de guerra que ele denunciou desaparecem na escuridão. Eu também perdi o foco, apesar da minha experiência profissional, que deveria ter me deixado mais atento.

Daniel Ryser: Vamos começar pelo começo. O que te levou a assumir esse caso?

Em dezembro de 2018, os advogados dele me pediram para intervir. Inicialmente eu recusei. Eu estava sobrecarregado com trabalho e não estava familiarizado com o caso. Minha impressão, altamente influenciada pela mídia, também foi direcionada pelo preconceito, de que o Assange era de certa maneira culpado e queria me manipular. Em março de 2019, seus advogados me abordaram uma segunda vez, porque uma série de fatores indicavam que logo ele seria expulso da embaixada do Equador em Londres. Eles me enviaram alguns documentos importantes e um resumo do caso e eu percebi que minha integridade profissional exigia que eu pelo menos olhasse para o material.

Daniel Ryser: E então?

Rapidamente eu percebi que algo estava errado. Era uma contradição que não fazia sentido para mim, com minha extensiva experiência legal: por que uma pessoa seria submetida a nove anos de uma investigação preliminar por estupro, sem ser indiciado?

Daniel Ryser: Isso é incomum?

Eu nunca vi um caso parecido. Qualquer um pode iniciar uma investigação preliminar contra qualquer pessoa simplesmente indo à polícia e acusando outra pessoa de um crime. As autoridades suecas , no entanto, nunca se interessaram em tomar o depoimento de Assange. Eles o deixaram num limbo intencionalmente. Imagine ser acusado de estupro por nove anos e meio por todo um aparato de Estado e pela mídia, sem nunca ter tido a chance de se defender porque nenhuma acusação formal foi feita.

Daniel Ryser: Você diz que as autoridades suíças nunca se interessaram em tomar o depoimento de Assange, mas a mídia e o agências governamentais pintaram uma imagem completamente diferente durante esses anos: de que Julian Assange teria fugido da Justiça sueca para evitar a condenação.

Foi isso o que eu sempre achei, até que comecei a investigar. O oposto é a verdade. Assange se apresentou às autoridades suecas em muitas ocasiões, porque ele queria responder às acusações. Mas as autoridades o bloquearam.

Daniel Ryser: O que você quer dizer com “as autoridades o bloquearam”?

Permita-me começar do começo. Eu falo sueco fluentemente e assim fui capaz de ler todos os documentos originais. Eu mal pude acreditar no que li: de acordo com o testemunho da mulher em questão, o estupro nunca aconteceu. E não apenas isso: o testemunho da mulher foi alterado pela polícia de Estocolmo sem o seu envolvimento, para que de alguma forma parecesse que houve um estupro. Eu tenho todos os documentos comigo, os e-mails, as mensagens.

Daniel Ryser: “O testemunho da mulher foi alterado pela polícia”, como exatamente?

Em 20 de agosto de 2010, uma mulher chamada S. W. entrou em uma delegacia de Estocolmo, junto com uma outra mulher chamada A. A.
A primeira mulher, S. W., disse que ela teve relação sexual consensual com Julian Assange, mas ele não usou um preservativo. Ela disse que estava preocupada sobre ele ter possivelmente a infectado com HIV e queria saber se podia forçar Assange a fazer um teste. Ela disse que estava muito preocupada. A polícia anotou seu depoimento e imediatamente informou promotores. Antes mesmo do interrogatório acabar, S. W. foi informada que Assange seria preso sob suspeitas de estupro.

S. W. ficou chocada e se recusou a continuar o interrogatório. Ainda na delegacia, ela escreveu uma mensagem a uma amiga dizendo que não queria incriminar o Assange, que ela só queria que ele fizesse um teste de HIV, mas a polícia aparentemente estava interessada em “colocar suas mãos nele”.

Daniel Ryser: O que isso quer dizer?

S.W. nunca acusou Julian Assange de estupro. Ela se negou a participar de outros interrogatórios e foi para casa. Apesar disso, duas horas depois, uma manchete apareceu na primeira página da Expressen, um tabloide sueco, dizendo que Julian Assange era suspeito de ter cometido dois estupros.

Daniel Ryser: Dois estupros?

Sim, porque havia uma segunda mulher, A. A. Ela não queria prestar queixas também, ela apenas estava acompanhando S. W. à delegacia. Ela nem foi interrogada naquele dia. Depois ela disse que Assange a assediou sexualmente. Eu não posso afirmar, claro, se isso é verdade ou não. Só posso apontar para a ordem dos acontecimentos: uma mulher vai até a delegacia de polícia. Ela não quer prestar uma queixa, mas quer pedir um teste de HIV. A polícia então decide que isso pode ser um caso de estupro e um assunto para promotores públicos. A mulher se recusa a colaborar com essa versão dos acontecimentos, vai para casa e escreve para uma amiga que não era sua intenção, mas a polícia queria “colocar suas mãos” em Assange. Duas horas depois, o caso está nos jornais.

Hoje sabemos que os promotores vazaram o caso para a imprensa – e eles o fizeram sem nem ao menos chamar Assange para depor. E a segunda mulher, que supostamente foi estuprada de acordo com a manchete do dia 20 de agosto, só foi interrogada no dia 21 de agosto de 2010.

Daniel Ryser: O que a segunda mulher disse quando foi interrogada?

Ela disse que havia disponibilizado seu apartamento para Assange, que estava na Suécia para uma conferência. Um pequeno apartamento de um quarto. Enquanto Assange estava no apartamento, ela voltou mais cedo em casa do que o planejado e disse a ele que não tinha problema, e que eles dois poderiam dormir na mesma cama.

Naquela noite eles tiveram sexo consensual, com preservativo. Mas ela disse que durante o sexo, Assange intencionalmente furou a camisinha. Se isso for verdade, então foi, claro, um crime sexual, chamado stealthing. Mas a mulher também disse que ela só percebeu depois que o preservativo estava furado. Isso é uma contradição que deveria ser esclarecida. Se eu não percebi, então não posso saber se o outro o fez intencionalmente. Nenhum traço de DNA de Assange ou de A. A. foi detectado na camisinha que foi apresentada como prova.

Daniel Ryser: Como as duas mulheres se conheciam?

Na verdade elas não se conheciam. A. A., que estava hospedando Assange e que estava trabalhando como sua assessora de imprensa, conheceu S. W. em um evento no qual S. W. estava usando um casaco de cashmere rosa. Ela aparentemente sabia, de Assange, que ele estava interessado em dormir com S. W., porque em uma noite ela recebeu uma mensagem de um conhecido dizendo que ele sabia que Assange estava se hospedando com ela e que ele, o conhecido, gostaria de contatar Assange. A. A. respondeu: Assange aparentemente está dormindo agora com a “cashmere girl”. Na manhã seguinte, S. W. falou com A. A. pelo telefone e ela disse que também havia dormido com Assange e estava preocupada sobre ter possivelmente se infectado com HIV.

Essa preocupação, aparentemente, era real, porque S. W. foi a uma clínica se consultar. A. A. então sugeriu: vamos à polícia – eles podem obrigar Assange a fazer um teste de HIV. As duas mulheres, porém, não foram à delegacia mais próxima, mas a uma afastada, onde uma amiga de A. A. trabalhava como policial – foi ela quem posteriormente interrogou S. W., inicialmente na presença de A. A., o que não é a prática apropriada.

Até aí, porém, o único problema era a falta de profissionalismo. A malevolência intencional das autoridades só se tornou aparente quando elas imediatamente disseminaram a suspeita de estupro através da imprensa tabloide, e o fizeram sem interrogar A. A. e em contradição com o depoimento de S. W.

Isso também violou uma clara proibição da lei sueca sobre vazar nomes de supostas vítimas ou acusados de ofensas sexuais. O caso então chamou a atenção da promotora-chefe da capital sueca e ela encerrou as investigações de estupro dias depois, com a justificativa de que, apesar dos depoimentos de S. W. serem críveis, não havia evidências de que o crime fora cometido.

Daniel Ryser: Mas o caso realmente decolou. Por quê?

O supervisor da policial que conduziu o interrogatório escreveu um e-mail a ela pedindo para reescrever o depoimento de S. W.

Daniel Ryser: O que a policial mudou?

Não sabemos, porque o primeiro depoimento foi alterado diretamente no computador e não existe mais. Nós só sabemos que o original, de acordo com a promotora-chefe, aparentemente não continha nenhuma indicação de que um crime havia sido cometido. Na forma editada, o depoimento diz que os dois tiveram relações sexuais muitas vezes – consensuais e sem camisinha. Mas de manhã, de acordo com o depoimento editado, a mulher acordou com ele tentando penetrá-la sem camisinha. Ela perguntou: “Você está de camisinha?” E ele disse: “Não.” Então ela disse: “É bom você não ter HIV”. E permitiu que ele continuasse. O depoimento foi editado sem o envolvimento da mulher em questão e não foi assinado por ela. É uma prova manipulada sobre a qual a polícia sueca construiu a história de um estupro.

Por que as autoridades suecas fariam isso?

O timing foi decisivo: No final de julho, o Wikileaks – em cooperação com o New York Times, o The Guardian e a revista Der Spiegel – publicaram os Diários da Guerra no Afeganistão. Foi um dos maiores vazamentos na história do exército americano. Os EUA imediatamente exigiram que todos os seus aliados enchessem Assange de processos criminais. Não sabemos de todas as conexões, mas a empresa Stratfor, uma consultoria de segurança que trabalha para o governo dos EUA, aconselhou oficiais americanos a afogar Assange com todos os tipos de processos criminais pelos próximos 25 anos.



2. Assange entra em contato com o judiciário sueco várias vezes para dar declaração - mas é recusada

Daniel Ryser: Por que Assange não se entregou à polícia na ocasião?

Ele se entregou. Eu disse isso anteriormente.

Daniel Ryser: Então elabore, por favor.

Assange descobriu sobre as acusações de estupro através da imprensa. Ele entrou em contato com a polícia para prestar depoimento. Apesar do escândalo ter sido publicado, ele só pode fazer isso depois de nove dias, depois que a acusação de que ele estuprou S. W. não estava mais sendo investigada. Mas os procedimentos relacionados ao assédio sexual de A. A. continuavam. No dia 30 de agosto de 2010, Assange foi à delegacia prestar depoimento. Ele foi interrogado pela mesma policial que recebeu o pedido para revisar o depoimento de S. W. No início da conversa, Assange diz que está pronto para prestar o depoimento, mas acrescenta que não quer ler sobre seu depoimento na imprensa. Isso é seu direito, e ele recebe garantias de que isso seria feito. Mas naquela mesma noite, tudo estava nos jornais de novo. E só poderia ter vindo das autoridades, porque ninguém mais estava presente durante o interrogatório. A intenção foi muito clara de manchar seu nome.

Daniel Ryser: De onde veio a história de que Assange estava tentando evitar a Justiça sueca?

Essa versão foi fabricada, mas não condiz com os fatos. Se ele estivesse tentando se esconder, ele não teria ido à delegacia por vontade própria. Com base no depoimento editado de S. W., uma apelação foi feita contra a decisão da promotoria de suspender as investigações e, no dia 2 de setembro de 2010, o processo de estupro foi retomado. Um representante legal chamado Claes Borgström foi indicado para as duas mulheres, pago pelo governo. O homem era sócio do escritório de advocacia do antigo ministro da justiça, Thomas Bodström, sob cuja supervisão funcionários de segurança prenderam dois homens considerados suspeitos pelo governo dos EUA no centro de Estocolmo. Os homens foram presos sem nenhum procedimento legal e entregues à CIA, que os torturou.

Isso mostra o pano de fundo transnacional desse caso. Após o reinício da investigação de estupro, Assange repetidamente indicou por meio de seu advogado que desejava responder às acusações. O promotor responsável continuava protelando. Em uma ocasião não tinha agenda, em outra o policial responsável estava doente. Três semanas depois, seu advogado finalmente escreveu que Assange precisava ir a Berlim para uma conferência e perguntou se ele podia sair do país. O escritório do promotor deu autorização escrita de que ele poderia sair do país por curtos períodos de tempo.

Daniel Ryser: E então?

No dia que em Julian Assange saiu da Suécia, em um momento em que não estava claro se ele estava saindo por um curto período ou por um longo tempo, foi emitido um mandado de prisão. Ele voou com a Scandinavian Airlines (SAS) de Estocolmo para Berlim. Durante o voo, seus laptops desapareceram do compartimento de bagagem. Quando ele chegou em Berlim, a Lufthansa solicitou uma investigação à SAS, mas a companhia aérea aparentemente se recusou a fornecer qualquer informação.

Daniel Ryser: Por quê?

É exatamente esse o problema. Nesse caso, acontecem o tempo todo coisas que não deveria ser possíveis, a não ser que você olhe para elas de um ângulo diferente. Assange, ainda assim, continuou a viagem rumo a Londres, mas não tentou se esconder do judiciário. Através do seu advogado sueco, ele ofereceu uma série de possíveis datas para o interrogatório na Suécia – essas correspondências existem. Então aconteceu o seguinte: Assange percebeu o fato de que um caso criminal secreto havia sido aberto contra ele nos EUA. Na época, isso não foi confirmado pelos EUA, mas hoje sabemos que era verdade. A partir daí, o advogado de Assange começou a dizer que seu cliente estava pronto para testemunhar na Suécia, mas ele exigia a garantia diplomática de que a Suécia não iria extraditá-lo para os EUA.

Daniel Ryser: E essa era uma possibilidade real?

Com certeza. Alguns anos antes, como mencionei, agentes de segurança suecos entregaram dois homens que pediam asilo, ambos registrados na Suécia, para a CIA, sem nenhum processo legal. Os abusos já começaram no aeroporto de Estocolmo, onde foram maltratados, drogados e levados de avião para o Egito, onde foram torturados.

Nós não sabemos se eles foram os únicos casos, mas sabemos desse caso porque os homens sobreviveram. Ambos registraram queixas junto a agências de direitos humanos da ONU e venceram seus processos. A Suécia foi obrigada a pagar para cada um deles meio milhão de dólares pelos danos.

Daniel Ryser: E a Suécia concordou com as exigências de Assange?

Os advogados dizem que durante os quase sete anos nos quais Assange viveu na embaixada do Equador, eles fizeram mais de 30 ofertas para que Assange fosse à Suécia – em troca da garantia de que ele não seria extraditado para os EUA. Os suecos recusaram a dar essas garantias argumentando que os EUA não haviam feito um pedido formal de extradição.

Daniel Ryser: Qual é sua visão sobre essa exigência feita pelos advogados de Assange?

Garantias diplomáticas como essa são parte da prática internacional rotineira. Pessoas pedem garantias de que não serão extraditadas para lugares onde há perigo de sérias violações de direitos humanos, completamente independentemente de um pedido de extradição ter sido apresentado pelo país em questão ou não. É um procedimento político, não legal. Aqui está um exemplo: imagine que a França exija que a Suíça extradite um empresário cazaque que mora na Suíça, mas que é procurado pela França e pelo Cazaquistão por alegações de fraude fiscal. A Suíça não vê perigo de tortura na França, mas acredita que esse perigo existe no Cazaquistão. Então a Suíça diz para a França: “vamos extraditar o homem para você, mas queremos uma garantia diplomática de que ele não será extraditado para o Cazaquistão posteriormente”. A resposta francesa não é: “Cazaquistão nem registrou um pedido”. Em vez disso, eles obviamente concederiam tal garantia.

Os argumentos provenientes da Suécia foram fracos, na melhor das hipóteses. Isso é uma parte disso. A outra parte, e digo isso com base em toda a minha experiência nos bastidores da prática internacional: se um país se recusa a fornecer tal garantia diplomática, todas as dúvidas sobre as boas intenções do país em questão são justificadas. Por que a Suécia não deveria fornecer tais garantias? Do ponto de vista jurídico, afinal, os EUA não têm absolutamente nada a ver com os processos de crimes sexuais suecos.

Daniel Ryser: Então por que a Suécia não ofereceu tal garantia?

Apenas veja como o caso foi conduzido: para a Suécia nunca foi sobre os interesses das duas mulheres. Mesmo após seu pedido de garantias de que não seria extraditado, Assange ainda queria testemunhar. Ele disse: se você não pode garantir que eu não serei extraditado, estou disposto a ser interrogado em Londres ou por vídeo.

Daniel Ryser: Mas é normal, ou legalmente aceitável, que as autoridades suecas viagem para um país diferente para um interrogatório como esse?

Essa é mais uma indicação de que a Suécia nunca esteve interessada em encontrar a verdade. Para exatamente esses tipos de questões judiciais, existe um tratado de cooperação entre o Reino Unido e a Suécia, que prevê que as autoridades suecas possam viajar para o Reino Unido, ou vice-versa, para conduzir interrogatórios ou que esse questionamento possa ocorrer via vídeo. Durante o período em questão, esse questionamento entre a Suécia e a Inglaterra ocorreu em outros 44 casos. Foi apenas no caso de Julian Assange que a Suécia insistiu que era essencial que ele aparecesse pessoalmente.



3. Quando o mais alto tribunal sueco finalmente forçou os promotores públicos em Estocolmo a arquivar acusações ou suspender o caso, as autoridades britânicas exigiram: "Não se exasperem!"

Daniel Ryser: Por que isso?

Existe apenas uma explicação para tudo – a recusa em conceder garantias diplomáticas, a recusa em interrogá-lo em Londres: eles queriam prendê-lo para que ele fosse extraditado para os EUA. O número de violações da lei que se acumulou na Suécia apenas algumas semanas durante a investigação criminal preliminar é simplesmente grotesca. O Estado designou um consultor jurídico para as mulheres, que lhes disse que a interpretação criminal sobre o que elas vivenciaram estava a cargo do Estado, e não mais delas. Quando o consultor jurídico foi questionado sobre as contradições entre o testemunho das mulheres e a narrativa adotada pelos funcionários públicos, ele disse, em referência às mulheres: “ah, mas elas não são advogadas”.

Mas por cinco longos anos, a promotoria sueca evitou interrogar Assange sobre o suposto estupro, até que seus advogados finalmente peticionaram a Suprema Corte Sueca a forçar a promotoria a oferecer denúncia ou encerrar o caso. Quando os suecos disseram ao Reino Unido que eles poderiam ser obrigados a abandonar o processo, os britânicos responderam preocupados: “Não ousem ficar com medo!”.

Daniel Ryser: É sério?

Sim, os ingleses, ou mais especificamente o serviço de promotoria da Coroa, queriam evitar que a Suécia abandonasse o caso a qualquer custo. Quando na verdade os ingleses deveriam estar felizes que eles não teriam que gastar mais milhões de dólares de impostos para manter a embaixada equatoriana sob constante vigilância para prevenir uma fuga de Assange.

Daniel Ryser: Por que os ingleses estavam tão determinados em evitar que os suecos encerrassem o processo?

Temos que parar de acreditar que havia um real interesse de conduzir uma investigação sobre crime sexual. O que o WikiLeaks fez foi uma ameaça à elite política dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França e da Rússia em igual medida. O WikiLeaks publica segredos de estado, documentos confidenciais – eles são contra qualquer sigilo.

E em um mundo, mesmo nas chamadas democracias maduras, onde o sigilo se tornaram desenfreado, isso é visto como uma ameaça fundamental. Assange deixou claro que hoje os países não estão mais interessados ​​em confidencialidade legítima, mas na supressão de informações importantes sobre corrupção e crimes. Veja o famoso caso do WikiLeaks dos vazamentos fornecidos por Chelsea Manning: o chamado vídeo “Collateral Murder”. [Em 5 de abril de 2010, o Wikileaks publicou um vídeo secreto das forças armadas dos EUA que mostrava o assassinato de várias pessoas em Bagdá por soldados dos EUA, incluindo dois funcionários da agência de notícias Reuters]

Como um conselheiro de longa data para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha em zonas de guerra, eu posso te dizer: O vídeo sem sombra de dúvidas documenta um crime de guerra. A tripulação de um helicóptero simplesmente matou um monte de gente. Pode até ser que uma ou duas dessas pessoas estivessem carregando uma arma, mas as pessoas feridas foram alvos intencionais. Isso é um crime de guerra. “Ele está ferido”, você pode ouvir um americano dizendo. “Estou atirando.” E então eles dão risada. Então uma van chega para ajudar os feridos. O motorista está com duas crianças. Dá pra ouvir os soldados dizerem: “Bom, é culpa deles terem levado as crianças para uma guerra”. E abrem fogo. O pai e os feridos são imediatamente mortos, mas as crianças sobrevivem com sérios ferimentos. Através da publicação do vídeo, nós nos tornamos testemunhas de um massacre injusto e criminoso.

Daniel Ryser: O que uma democracia constitucional deve fazer em uma situação dessas?

Uma democracia constitucional provavelmente investigaria Chelsea Manning por violar o sigilo oficial, porque ela passou o vídeo para Assange. Mas certamente não iria atrás de Assange, porque ele publicou um vídeo de interesse público, o que faz parte das práticas do jornalismo investigativo clássico.

Mais do que isso, uma democracia constitucional investigaria e puniria os crimes de guerra. Esses soldados deveriam estar presos. Mas nenhuma investigação criminal foi aberta contra nenhum deles. Em vez disso, o homem que informou o público está preso em uma penitenciária pré-extradição em Londres e pode enfrentar uma condenação nos EUA de até 175 anos de prisão. É uma sentença completamente absurda. Para comparar, os principais criminosos de guerra do tribunal da Iugoslávia receberam sentenças de 45 anos. Cento e setenta e cinco anos de prisão em condições que foram consideradas desumanas pelo Relator Especial da ONU e pela Anistia Internacional.

Mas a coisa realmente horrível nesse caso é a ilegalidade que se desenvolveu: os poderosos podem matar sem medo de punição e o jornalismo se transforma em espionagem. Está se tornando um crime dizer a verdade.

Daniel Ryser: O que aguarda Assange se ele for extraditado?

Ele não vai receber um julgamento consistente com a lei. Esse é outro motivo pelo qual sua extradição não deveria ser permitida. Assange receberá um julgamento por júri em Alexandria, na Virgínia – a famosa “Corte da Espionagem”, onde os EUA julgam todas os casos de segurança nacional. A escolha da localidade não é uma coincidência, porque os membros do júri devem ser escolhidos proporcionalmente à população local e 85% dos residentes em Alexandria trabalham nos serviços de segurança nacional – na CIA, na NSA, no Departamento de Defesa e no Departamento de Estado. Quando as pessoas são julgadas por ameaçarem a segurança nacional em frente a um júri desses, o veredicto é claro desde o início. Os casos são sempre julgados em frente ao mesmo juiz, atrás de portas fechadas e com as provas sob sigilo. Ninguém nunca foi inocentado em um caso como esse. O resultado é que a maioria dos réus chega a um acordo, no qual eles admitem culpa parcial para receber uma sentença mais branda.

Daniel Ryser: Você está dizendo que Julian Assange não receberá um julgamento justo nos Estados Unidos?

Sem dúvidas. Enquanto os empregados do governo americano obedecerem os seus superiores, eles podem participar em crimes de guerra e tortura com total certeza de que nunca terão que responder por suas ações.

O que aconteceu com as lições aprendidas nos Julgamentos de Nuremberg? Já trabalhei o suficiente em zonas de conflito para saber que erros acontecem na guerra. Nem sempre são atos criminosos sem escrúpulos. Muito disso é resultado de estresse, exaustão e pânico. É por isso que eu posso entender completamente quando um governo diz: “vamos trazer luz à verdade e nós, como Estado, nos responsabilizamos completamente pelos males causados, mas se a culpa não pode ser direcionada para indivíduos, nós não vamos impor punições draconianas.”

Mas é extremamente perigoso quando a verdade é suprimida e os criminosos não são julgados. Nos anos 30, a Alemanha e o Japão deixaram a Liga das Nações. Quinze anos depois, o mundo estava em ruínas. Hoje, os EUA deixou o conselho de Direitos Humanos da ONU e nem o massacre “Collateral Murder” nem a tortura da CIA depois de 9 de setembro, nem a guerra de agressões contra o Iraque levaram a investigações criminais. Agora, o Reino Unido está seguindo esse exemplo. O Comitê de Segurança e Inteligência do parlamento do país publicou dois extensivos relatórios em 2018 mostrando que a o Reino Unido estava muito mais envolvido com o programa secreto de tortura da CIA do que se acreditava. O comitê recomendou uma investigação formal. A primeira coisa que Boris Johnson fez depois que se tornou primeiro ministro foi anular essa investigação.



4. No Reino Unido, as violações das condições da fiança geralmente são punidas apenas com multas monetárias ou, no máximo, alguns dias atrás das grades. Mas Assange recebeu 50 semanas em uma prisão de segurança máxima sem a capacidade de preparar sua própria defesa

Daniel Ryser: Em abril de 2019, Julian Assange foi retirado da embaixada equatoriana pela polícia britânica. Qual é a sua visão sobre esses eventos?

Em 2017, um novo governo foi eleito no Equador. E os EUA escreveram uma carta indicando que eles tinham o desejo de cooperar com o Equador. Havia, é claro, muito dinheiro em jogo, mas havia também um empecilho no caminho: Julian Assange. A mensagem era que os EUA estavam preparados para cooperar se o Equador entregasse Assange aos EUA. A essa altura, a embaixada equatoriana começou a aumentar as pressões sobre Assange. Tornaram sua vida mais difícil. Mas ele permaneceu. Então o Equador retirou sua anistia e deu à Inglaterra sinal verde para prendê-lo. Já que o governo anterior havia garantido a ele cidadania equatoriana, o passaporte de Assange também teve que ser revogado, porque a Constituição do Equador proíbe a extradição de seus próprios cidadãos. Tudo isso aconteceu em uma madrugada, sem nenhum procedimento legal. Assange não teve a oportunidade de se pronunciar ou recorrer a recursos legais. Ele foi preso pela polícia britânica e levado a um juiz naquele mesmo dia, que o condenou por violar a condicional.

Daniel Ryser: O que você conclui sobre esse veredito acelerado?

Assange só teve 15 minutos para se preparar com seu advogado. O julgamento em si só levou 15 minutos. O advogado do Assange colocou um enorme dossiê na mesa e fez uma objeção formal a uma das juízas por conflito de interesses, porque seu marido havia sido objeto de exposições do Wikileaks em 35 documentos. Mas o juiz principal colocou de lado as objeções sem nem examiná-las a fundo. Ele disse que acusar sua colega de conflito de interesses era uma afronta. O próprio Assange falou apenas uma frase durante todo o processo: “Não me declaro culpado”. O juiz voltou-se para ele e disse: “Você é um narcisista que não consegue ir além do seu próprio interesse. Eu o condeno por violação da condicional.”

Daniel Ryser: Se eu entendi direito, Julian Assange nunca teve uma chance desde o princípio?

É exatamente isso. Não estou dizendo que Julian Assange é um anjo ou um herói, mas ele não precisa ser. Estamos falando sobre direitos humanos e não sobre heróis e anjos. Assange é uma pessoa, e ele tem o direito de se defender e de ser tratado de maneira humana. Não importa do que ele é acusado, Assange tem o direito a um julgamento justo. Mas ele teve esses direitos negados deliberadamente – na Suécia, nos EUA, no Reino Unido e no Equador. Em vez disso, deixaram-no apodrecer por quase sete anos no limbo de um quarto.

Depois, ele foi subitamente retirado e condenado em questão de horas, e sem nenhuma preparação, por uma violação de condicional que consistia no fato de ele ter recebido asilo diplomático de outro Estado membro da ONU com base em perseguição política, exatamente como a lei internacional prevê e assim como inúmeros dissidentes chineses, russos e outros fizeram nas embaixadas ocidentais.

É óbvio que o que estamos lidando aqui é uma perseguição política. Na Inglaterra, violações de condicional raramente levam à prisão – elas geralmente são sujeitas a multas. Assange, por outro lado, foi condenado em um processo sumário a 50 semanas em uma prisão de segurança máxima – claramente uma penalidade desproporcional que tinha apenas um único objetivo: deter Assange por tempo suficiente para que os EUA preparem seu caso de espionagem contra ele.

Daniel Ryser: Como o Relator Especial sobre Tortura na ONU, o que você tem a dizer sobre suas condições atuais de prisão?

A Inglaterra negou contato de Assange com seus advogados nos EUA, onde ele é alvo de processos sigilosos. Sua advogada inglesa também reclamou que ela não tem tido acesso suficiente ao seu cliente para mostrá-lo os documentos da corte e as provas. Até outubro [de 2019], ele não podia ter nenhum documento sobre seu processo com ele na cela. Ele teve o direito fundamental de preparar sua defesa, como garantido pela Convenção Europeia de Direitos Humanos, negado. Além disso, a quase completa solitária à qual ele está submetido é completamente desproporcional com a sua violação de condicional. Assim que ele deixa a cela, os corredores são esvaziados para evitar que ele tenha contato com outros presos. E tudo isso por causa de uma violação de condicional? Quando é que a prisão vira tortura?

Julian Assange foi intencionalmente torturado psicologicamente pela Suécia, Inglaterra, Equador, e pelos EUA. Primeiro através do processo altamente arbitrário contra ele. A maneira que a Suécia direcionou o caso, com assistência ativa da Inglaterra, teve como objetivo colocá-lo sob pressão e prendê-lo na embaixada. A Suécia nunca esteve interessada em encontrar a verdade e ajudar aquelas mulheres, mas em cercar Assange. Foi um abuso do processo judicial conduzido para colocar uma pessoa em uma posição na qual ele não consegue se defender.

Além disso, há as medidas de vigilância, os insultos, a degradação e os ataques feitos pelos políticos desses países, inclusive ameaças de morte. Esse constante abuso do poder do Estado levou a um sério estado de estresse e ansiedade em Assange que resultou em um considerável dano cognitivo e neurológico. Eu visitei Assange na sua cela em Londres em maio de 2019 junto com dois médicos experientes e respeitados, especializados em avaliação forense e psicológica de vítimas de tortura. O diagnóstico foi claro: Julian Assange demonstra os típicos sintomas de tortura psicológica. Se ele não receber proteção logo, uma rápida deterioração de sua saúde é provável e a morte pode ser uma das consequências.

Daniel Ryser: Seis meses depois de Assange ter sido colocado em uma prisão pré-extradição na Inglaterra, a Suécia silenciosamente abandonou o caso contra ele em novembro de 2019, depois de nove longos anos. Por que agora?

O governo sueco gastou quase uma década intencionalmente apresentando Julian Assange ao público como um estuprador. Depois, eles subitamente abandonaram o caso contra ele sob o mesmo argumento que a primeira promotora sueca usou em 2010, quando ela suspendeu inicialmente as investigações depois de 5 dias: Apesar do testemunho da mulher ser crível, não havia provas de que um crime tinha sido cometido. É um escândalo inacreditável. Mas o timing não foi acidental.

No dia 11 de novembro, um documento oficial que eu enviei ao governo sueco dois meses antes veio a público. No documento, eu pedi ao governo sueco explicações sobre 50 pontos referentes às implicações de direitos humanos na maneira como lidaram com o caso. Como é possível que a imprensa tenha sido imediatamente informada, apesar da proibição de fazê-lo? Como é possível que uma suspeita seja publicada mesmo antes do interrogatório? Como é possível que se diga que houve um estupro apesar da vítima contestar essa versão dos acontecimentos? No dia que o documento foi publicado, eu recebi uma simples resposta da Suécia: O governo não tem mais comentários sobre este caso.

Daniel Ryser: O que essa resposta significa?

É uma admissão de culpa.

Daniel Ryser: Por quê?

Como Relator Especial da ONU, eu fui incumbido pela comunidade internacional das nações de investigar as denúncias apresentadas pelas vítimas de tortura e, se necessário, solicitar explicações ou investigações dos governos. É esse o trabalho diário que eu faço com todos os Estados da ONU.

Pela minha experiência, posso dizer que países que agem de boa-fé estão quase sempre interessados em me ajudar com as respostas que eu preciso para esclarecer a legalidade de suas ações. Quando um país como a Suécia se nega a responder perguntas enviadas pelo Relator Especial sobre Tortura da ONU, isso mostra que o governo sabe da ilegalidade de suas ações e não quer se responsabilizar pelo seu comportamento. Eles puxaram a tomada e abandonaram o caso uma semana depois porque sabiam que eu não ia desistir. Quando países como a Suécia se permitem a ser manipulados dessa maneira, então nossas democracias e nossos direitos humanos enfrentam uma grande risco.

Daniel Ryser: Você acha que a Suécia estava completamente consciente do que estava fazendo?

Sim. Do meu ponto de vista, a Suécia claramente agiu de má-fé. Se eles tivessem agido de boa-fé, não haveria razão para não responderem às minhas perguntas. A mesma coisa para os ingleses: depois da minha visita ao Assange em maio de 2019, eles demoraram seis meses para me responder – em uma única página de texto, que se limitou principalmente a rejeitar todas as acusações de tortura e todas as inconsistências nos procedimentos legais.

Se você vai jogar dessa maneira, então qual é o sentido do meu trabalho? Eu sou o Relator Especial sobre Tortura da ONU. Eu tenho o mandato de fazer questionamentos claros e exigir respostas. Qual é a base legal para negar o direito fundamental à própria defesa? Por que um homem que não é nem perigoso ou violento está sendo mantido em regime de solitária por meses quando os estatutos da ONU proíbem o confinamento solitário por períodos maiores que 15 dias? Nenhum desses Estados-membro da ONU começaram uma investigação ou responderam às minhas perguntas ou mesmo demonstraram qualquer interesse em dialogar.



5. Uma sentença de prisão de 175 anos por jornalismo investigativo: o precedente que o caso EUA versus Julian Assange pode estabelecer

Daniel Ryser: O que significa quando um Estado membro da ONU se recusa a fornecer informações para seu próprio relator especial sobre Tortura?

Que é um assunto previamente combinado. Um julgamento espetacularizado deve ser usado para fazer de Julian Assange um exemplo. O objetivo é intimidar outros jornalistas. A intimidação, aliás, é uma das principais motivações de tortura ao redor do mundo.

A mensagem para todos nós é: isso é o que vai acontecer com você se você imitar o modelo do Wikileaks. É um modelo tão perigoso porque é muito simples: pessoas que têm acesso a informações sensíveis de governos ou empresas transferem essas informações ao Wikileaks, mas os delatores continuam anônimos.

A reação mostra o quão grande pode ser a ameaça: quatro países democráticos se juntaram – os EUA, o Equador, a Suécia e o Reino Unido – para usar seu poder de retratar um homem como um monstro, para que mais tarde pudesse ser queimado na fogueira sem protestos.

O caso é um enorme escândalo e representa o fracasso do Estado de Direito ocidental. Se Julian Assange for condenado, será uma sentença de morte para a liberdade de imprensa.

Daniel Ryser: O que esse possível precedente significa para o futuro do jornalismo?

De maneira prática, significa que você, como jornalista, agora precisa se defender. Porque se o jornalismo investigativo for considerado espionagem e puder ser incriminado ao redor do mundo, então a censura e a tirania virão em seguida. Um sistema assassino está sendo criado bem na nossa frente. Crimes de guerra e tortura não estão sendo combatidos. Vídeos de YouTube nos quais soldados americanos se gabam por levar mulheres iraquianas ao suicídio através de estupros frequentes. Ninguém está investigando isso. Ao mesmo tempo, uma pessoa que expõe essas coisas é condenada a 175 anos de prisão.

Por uma década inteira, ele foi inundado com acusações que não podem ser provadas e que estão acabando com ele. E ninguém está sendo responsabilizado. Ninguém está sendo condenado. Isso marca uma erosão do contrato social.

Nós damos poder aos países e delegamos isso aos governos – mas em resposta, eles devem ser responsabilizados pela maneira que exercem esse poder. Se nós não exigirmos isso, nós perderemos nossos direitos mais cedo ou mais tarde. Seres humanos não são democráticos por natureza. O poder corrompe, se não é monitorado. A corrupção é o resultado se nós não insistirmos que esse poder seja fiscalizado.

Daniel Ryser: Você está dizendo que a perseguição de Assange ameaça o cerne da liberdade de imprensa.

Vamos ver onde estaremos daqui a 20 anos se o Assange for condenado – o que você continuará a poder publicar como jornalista. Eu estou convencido de que estamos em sério risco de perder liberdades de imprensa. Já está acontecendo: De repente, a sede da ABC News na Australia foi invadida em conexão com os Diários da Guerra no Afeganistão. O motivo? Mais uma vez a imprensa revelou má conduta de representantes do Estado. Para que as divisões de poder funcionem, o Estado deve ser fiscalizado pela imprensa como um quarto poder. O WikiLeaks é a consequência lógica de um processo contínuo de sigilo expandido: se a verdade não puder mais ser examinada porque tudo é mantido em segredo, se os relatórios de investigação sobre a política de tortura do governo dos EUA forem mantidos em sigilo e quando mesmo grandes partes do que resumo publicado são censuradas, vazamentos serão a consequência.

O WikiLeaks é a consequência do sigilo crescente e reflete a falta de transparência no nosso sistema político moderno. Existem, é claro, áreas nas quais o sigilo pode ser vital. Mas se nós não pudermos mais saber o que os governos estão fazendo e quais critérios estão seguindo, se os crimes não forem mais investigados, então isso representa um grave perigo para a integridade social.

Daniel Ryser: Quais são as consequências?

Como Relator Especial sobre Tortura da ONU e, antes disso, como membro da Cruz Vermelha, eu já vi horrores e violências e já vi o quão rápido países pacíficos como a Iugoslávia ou a Ruanda podem se transformar em infernos. Nas raízes desses acontecimentos estão sempre a falta de transparência e poder político ou econômico desenfreado, combinados com a ingenuidade, indiferença e maleabilidade da população.

De repente, o que sempre aconteceu com o outro – a tortura impune, estupro, expulsão e assassinato – pode facilmente acontecer conosco ou com nossos filhos. E ninguém vai se importar. Eu posso te garantir isso.


https://www.republik.ch/2020/01/31/nils-melzer-about-wikileaks-founder-julian-assange
https://apublica.org/2020/02/relator-da-onu-o-caso-de-julian-assange-e-um-enorme-escandalo-se-ele-for-condenado-sera-uma-sentenca-de-morte-para-a-liberdade-de-imprensa/
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/se-ele-for-condenado-sera-uma-sentenca-de-morte-para-a-liberdade-de-imprensa-diz-relator-da-onu-sobre-assange/

https://en.wikipedia.org/wiki/Julian_Assange

sábado, 16 de março de 2019

Lula to Militants (Lula aos Militantes)

Message has been read this Saturday during the Free Lula meeting in São Paulo

Brasil de Fato | São Paulo (SP), March 16, 2019 3:37 PM


"I am certain when I say: we will meet again. And Brazil will be able
to dream again of a better future for all of us" / Ricardo Stuckert
Luiz Inácio Lula da Silva, former Presidente of Brasil, sent a letter to militants involved in the "Free Lula" campaign. The message has been read this Saturday during the national meeting of activists that support the political efforts for his freedom. 

The whole letter can be read below. 

Dear friends,

First of all, I would like to thank you for your solidarity and for the affection I have been receiving from the Brazilian people as well as from leaderships of other countries during this nearly 1-year period I have been unfairly imprisoned. I’d like to express my special thanks to the comrades of the vigil in Curitiba, who give me comfort every day; to the comrades who are part of the Free Lula committees in Brazil and abroad; to lawyers; jurists; intellectuals; and democrat citizens who have expressed themselves in favor of my release. 

The strength that makes me resist this crucible comes from you and from knowing that I am innocent; however, I resist mainly because I know I still have an important mission to accomplish at this moment in which democracy, national sovereignty, and the rights of the Brazilian people are threatened by powerful economic and political interests, including the interests of powerful countries.

As I have always done in my life and my over 45 years of trade union and political activity, I see said mission as a collective challenge. My fight to have a fair trial in which my innocence is acknowledged in view of the irrefutable pieces of evidence produced by the defense only makes sense if understood as part of the defense of democracy, of resumption of the state ruled by law, and of the project of development with social inclusion that country wants to rebuild.

As each day passes, it becomes more evident to the population and to the international public opinion that I was convicted and arrested only because, as a free man and a candidate, the majority of the population would choose me as their president. My candidacy was the people’s response to submissiveness to foreign interests, to the abandonment of social programs, to unemployment, to the return of hunger, to all the evil installed in the country through the coup disguised as impeachment. It is a fight we must be in together, in the name of everyone.

To prevent me from running in the elections, a judicial farce was set up with coverage from the mainstream media, especially Rede Globo. They poisoned the population with hours and hours of false news in which Lava Jato accused me whereas my defense was belittled, if not censored. The Constitution and the laws were disrespected, as if there were a criminal code of exception, exclusively to be applied to Lula, in which my rights were systematically denied to me. 

As if were not enough to arrest me for crimes I have not committed, I was forbidden to participate in debates and interviews that are part of the electoral process; my candidacy was rejected in clear disregard for the law and the UN; I was forbidden to give interviews, I was even forbidden to attend my older brother’s funeral. They want me to disappear, but it is not me they are afraid of: they are afraid of the people who identify themselves with our project and who saw in my candidacy hope to recover the path to a better life.

Days ago, when I said goodbye to my dear grandson Arthur, I felt the weight of the injustice that struck my family. Little Arthur was discriminated against at school for being my grandson and suffered a lot because of that. So, I promised him I will not rest until my innocence is acknowledged in a fair trial.

In the emotion of that moment, I remember saying: “I will show to you that the true thieves are those who convicted me.” Shortly after, journalist Luís Nassif revealed to the public the secret illegal agreement between the Lava Jato prosecutors, the 13th Federal Court of Curitiba, the United States government, and Petrobras – said agreement involved the amount of 2,5 billion of reais.

Said amount was taken from Brazilian people’s largest company by a New York court based on plea bargain deals presented by Brazilian prosecutors.

And they went to the United States, with the help of the former head of the Brazilian Federal Prosecution Office, to weaken even more a company in which international powers have always been interested.

In exchange for said fortune, Lava Jato promised to disclose the secrets and strategic information of our Petrobras. 

It is not about certainties, but about concrete evidence: signed documents, official acts performed by authorities. These moralists without moral are currently high-rank officials in a government that was only elected because they prevented me from running in the elections. But the one in prison is Lula, who’s never been the owner of an apartment or of countryside property, who’s never signed Petrobras’s contracts, who’s never had secret bank accounts such as the one that has been discovered just now.

In addition to expressing my outrage in view of these facts, I’d like to say to you that time is revealing the truth; tell you that we cannot lose hope that the truth is on our side and will prevail. So, I ask each one of you to strengthen even more our fight for democracy and for justice. And we will only attain these goals by defending the rights of the people and national sovereignty because they promoted the coup and interfered in the elections precisely to act against these values. Their aim is to give away our assets and undo social accomplishments. It is important that Free Lula committees have this very clear and conduct more and more actions in society, on social networks, in schools, and on the streets. 

I have faith in God and I trust in our organization, and I am certain when I say: we will meet again. And Brazil will be able to dream again of a better future for all of us.

Thank you very much, and let’s fight, dear comrades.

A warm hug from 

Luiz Inácio Lula da Silva

Curitiba, March 16, 2019
Edition: Rafael Tatemoto

https://www.brasildefato.com.br//2019/03/16/read-the-new-letter-from-lula-to-militants/

De Lula aos Militantes

Ativistas acompanham a leitura da carta de Lula aos presentes ao
encontro / Pedro Ribeiro Nogueira | Brasil de Fato
Encontro em SP traça estratégias para comitês Lula Livre; leia carta do ex-presidente

Mais de mil pessoas de todo país estão reunidas neste sábado (16) na capital paulista

Pedro Ribeiro Nogueira e Juliano Vieira

Brasil de Fato | São Paulo (SP), 16 de Março de 2019 às 11:52

"Meus amigos e minhas amigas,

Quero, em primeiro lugar, agradecer a solidariedade e o carinho que tenho recebido do povo brasileiro e de lideranças de outros países, neste quase um ano em que me encontro preso injustamente. Agradeço especialmente aos companheiros da vigília em Curitiba, que me confortam todos os dias, aos companheiros que constituem os comitês Lula Livre dentro e fora do Brasil, aos advogados, juristas, intelectuais e cidadãos democratas que se manifestam pela minha libertação.

A força que me faz resistir a essa provação vem de vocês e da convicção de que sou inocente. Mas resisto principalmente porque sei que ainda tenho uma missão importante a cumprir neste momento em que a democracia, a soberania nacional e os direitos do povo brasileiro são ameaçados por interesses econômicos e políticos poderosos, inclusive de potências estrangeiras.

Como sempre fiz em minha vida, e lá se vão mais de 45 anos de atividade sindical e política, encaro essa missão como um desafio coletivo. A luta que faço para ter um julgamento justo, em que minha inocência seja reconhecida diante das provas irrefutáveis da defesa, só faz sentido se for compreendida como parte da defesa da democracia, da retomada do estado de direito e do projeto de desenvolvimento com inclusão social que o país quer reconstruir.

A cada dia que passa fica mais claro para a população e para a opinião pública internacional que fui condenado e preso pelo único motivo de que, livre e candidato, seria eleito presidente pela grande maioria da população. Minha candidatura era a resposta do povo ao entreguismo, ao abandono dos programas sociais, ao desemprego, à volta da fome, a todo o mal implantado pelo golpe do impeachment. É uma luta que temos de levar juntos, em nome de todos.

Para me tirar das eleições, montaram uma farsa judicial com a cobertura dos grandes meios de comunicação, tendo a Rede Globo à frente. Envenenaram a população com horas e horas de noticiário mentiroso, em que a Lava Jato acusava e minha defesa era menosprezada, quando não era simplesmente censurada. A Constituição e as leis foram desrespeitadas, como se houvesse um código penal de exceção, só para o Lula, no qual meus direitos foram sistematicamente negados.

Como se não bastasse me prender, por crimes que jamais cometi, proibiram que eu participasse dos debates e das sabatinas no processo eleitoral; proibiram minha candidatura, contrariando a lei e a ONU; proibiram que eu desse entrevistas, proibiram até que eu comparecesse ao velório de meu irmão mais velho. Querem que eu desapareça, mas não é de mim que têm medo: é do povo que se identifica com nosso projeto e viu em minha candidatura a esperança de recuperar o caminho de uma vida melhor.

Dias atrás, ao me despedir do meu querido neto Arthur, senti todo o peso da injustiça que atingiu minha família. O pequeno Arthur foi discriminado na escola por ser meu neto e sofreu muito com isso. Então, prometi a ele que não vou descansar até que minha inocência seja reconhecida num julgamento justo.

Na emoção daquele momento, recordo-me de ter dito: “Vou te mostrar que os verdadeiros ladrões são os que me condenaram”. Pouco depois, o jornalista Luís Nassif revelou ao público o acordo ilegal e secreto entre os procuradores da Lava Jato, a 13a. Vara Federal de Curitiba, o governo dos Estados Unidos e a Petrobras, envolvendo uma quantia de 2,5 bilhões de reais.

Essa quantia foi tomada à maior empresa do povo brasileiro por uma corte de Nova Iorque, com base em delações levadas a eles pelos procuradores do Brasil.

E eles foram lá aos Estados Unidos, com a cobertura do então procurador-geral da República, para fragilizar ainda mais uma empresa que é alvo de cobiça internacional.

Em troca dessa fortuna, a Lava Jato se comprometeu a entregar ao estrangeiro os segredos e informações estratégicas da nossa Petrobras.

Não se trata de convicções, mas de provas concretas: documentos assinados, atos de ofício de autoridades públicas. Estes moralistas sem moral ocupam hoje altos cargos no governo que só foi eleito porque eles impediram minha candidatura. Mas quem está preso é o Lula, que nunca foi dono de apartamento nem de sítio, que nunca assinou contratos da Petrobras, que nunca teve contas secretas como essa fundação que foi descoberta agora.

Mais do que manifestar indignação com esses fatos, quero dizer a vocês que o tempo está revelando a verdade. Que não podemos perder a esperança de que a verdade vencerá, e ela está do nosso lado. Por isso, peço a cada um e a cada uma que fortaleçam cada vez mais a nossa luta pela democracia e pela justiça. E só vamos alcançar esses objetivos defendendo os direitos do povo e a soberania nacional, porque foi contra estes valores que fizeram o golpe e interferiram na eleição. Foi para entregar nossas riquezas e reverter as conquistas sociais. Que os comitês Lula Livre tenham isso bem claro e atuem cada vez mais na sociedade, nas redes, nas escolas e nas ruas.

Tenho fé em Deus e confiança em nossa organização para afirmar com muita certeza: nosso reencontro virá. E o Brasil poderá sonhar novamente com futuro melhor para todos.

Muito obrigado, e vamos à luta, companheiros e companheiras.

Um grande abraço do

Luiz Inácio Lula da Silva"

Curitiba, 16 de março de 2019
Edição: Beatriz Pasqualino

https://www.brasildefato.com.br/2019/03/16/encontro-em-sp-traca-estrategias-para-comites-lula-livre-leia-carta-do-ex-presidente/

domingo, 29 de março de 2015

Rolinha Fogo-Apagou

Aqui na minha vizinhança em Sydney tem uma rolinha fogo-apagou que canta durante as tardes dos fins de semana e o som me leva às paragens da fazenda do meu avô, lá nos cafundés do estado de Alagoas, Brasil, o qual ainda está para ser rendido uma homenagem, mesmo eu tendo o conhecido pouco. Ela arrulha como uma pomba, sua parente.

Rolinha fogo-apagou
Meu avô, padrasto por parte de mãe, já que o avô biológico caboclo eu não conheci pois falecera muito antes de eu nascer, era aquela figura patriarcal fazendeira que se postava no alto de sua varanda da casa de engenho, com sua grande barriga e sua altura de figura branca de origem européia, parecendo um monumento ao oligarquismo dos latifundiários do interior de todo o nordeste brasileiro.

Misturem Rock Hudson com o personagem Coronel Pantaleão de Chico Anysio e vocês têm a pintura.

Para se ter uma idéia melhor, pense nos 1,93 metros de ator irlandês Liam Neeson.

Ele não era mal, mas era o estereótipo do seu tipo, o que lhe empregava um ar de poder, de senhorio de escravos, de magnata da cidadezinha do interior, de figura importante de grande possuidor de terras, cheio de orgulho para oferecer do bom e do melhor aos seus visitantes familiares.

Liam Neeson, personagem machão do filme Busca Implacável 
(Taken) sobre o sequestro de sua filha mentirosa na França ou
de A Lista de Schindler (Schindler's List)
Na realidade sua fazenda não era tão grande assim, mas era muito bem localizada sobre a cidadezinha, para além da estação do trem e da maior praça da cidade por acompanhar toda a estação por mais de 1 km de comprimento. Praticamente de toda a cidade poder-se-ia ver a casa lá no alto, enquanto lá do alto se avistava toda a cidade.

Meu avô colecionava passarinhos, e no meio deles haviam estas rolinhas fogo-apagou cujo som sempre me leva de volta na história da minha infância quando íamos de férias gastá-las na fazenda onde ele nos fartava de frutas colhidas em suas florestas tropicais no fundo do casarão pelos escravos e funcionários da fazenda.

Só hoje eu sei que aquelas casas dos trabalhadores eram uma
senzala como esta, porém ficava muito mais ladeira abaixo, com este
gramado na frente mesmo.
Não eram escravos, mas eram negros e ainda moravam em senzalas, lá embaixo na ladeira de onde podia-se vê-los lá do alto da casa grande. Na fazenda também havia um capataz. Provavelmente meu avô era bom com seus escravos pois estes permaneceram e viviam como sempre viveram, como se não tivesse havido a libertação da escravatura no Brasil em 1888, mas eu era muito pequeno para entrevistá-los.

Este forró fala em candeeiro, outro símbolo daquela casa e daquela época, e escutá-lo é como se me transportasse para aquela época também.


Coronel Pantaleão, personagem do 
comediante Chico Anysio em seu programa
de TV Chico City, contador de estórias
nem sempre verdadeiras
Forró no Escuro


Luiz Gonzaga / Miguel Lima

O candeeiro se apagou
O sanfoneiro cochilou
A sanfona não parou
E o forró continuou

Meu amor não vá simbora
Não vá simbora
Fique mais um bucadinho
Um bucadinho
Se você for seu nego chora
Seu nego chora
Vamos dançar mais um tiquinho
Mais um tiquinho
Quando eu entro numa farra
Num quero sair mais não
Vou inté quebrar a barra
E pegar o sol com a mão


No casarão não havia luz elétrica, e era tudo na base do candeeiro. Não fazia muita falta, exceto que ao redor da casa tudo tornava-se tão escuro durante a noite que restavam as estrelas do céu para contarmos antes de dormir e as luzes da cidade lá embaixo. Ficava-se um pouco na varanda, no escuro, sentados em grandes espreguiçadeiras de lona listrada dobráveis, observando as luzes da cidade, e depois ia-se dormir cedo, pra se acordar cedo também.

Eu era feliz e não sabia, exceto que podia acordar no meio da noite com uma enorme aranha caranguejeira sobre os cobertores, caídas do telhado sem estuque, o que causava um grande reboliço durante a noite e tornava-se difícil se dormir de novo, a não ser cobertos dos pés a cabeça pelos enorme e pesados lençóis de flanela naquelas noites frias da serra.

Candeeiro ou lampião a querosene que já 
usava camisinha (à pressão) naquela
época. Sua luz branca era bem forte
e iluminava toda a sala de jantar.
Meu avô diariamente fazia sua rotina noturna e matinal, de coletar as dezenas de gaiolas de passarinhos para dentro de casa para depois fechar todas as portas, e depois todas elas para fora antes do sol raiar depois de haver aberto todas as portas enormes e pesadas, divididas ao meio, as quais eventualmente tornavam-se janelas por isso. 

Uma por uma, ele saia arrastando os chinelos calmamente, pendurava-as em seus ganchos nas paredes, e à noite cobria cada uma com um pano para os passarinhos dormirem dentro de casa, conosco, caladinhos, ao longo do longo corredor no meio da casa que separava os quartos, e também a grande sala de visitas numa extremidade e a grande sala de jantar e cozinha na outra.

Naturalmente que nós, crianças, achávamos cada gaiola uma prisão, mas havia muita gente naquela época que criava passarinhos desse jeito, e ainda há. Eles não acham que os passarinhos estão presos e cantam porque estão tristes, como dizia meu pai. Ora, se cantam, é porque estão alegres. Sempre preferi ouví-los cantarem quando querem, quando aparecem na minha janela, livres, conforme a natureza os faz, mas isso não acontece todo dia e o dia todo como tendo-os em gaiolas.

O casarão lembrava esse azul aqui, com a enorme escadaria, mas a
varanda não tinha balaustrada, as colunas eram mais fortes e largas
e o terreno em frente era uma imensa pradaria em declive com cerca 

de 800 metros até a estação de trem, na planície. Na frente da casa 
do lado esquerdo até a escadaria havia mais mata como se 
fosse um enorme jardim cercado e coberto por plantas trepadeiras.
Havia um rádio a baterias que minha avó ligava todas as noites para ouvir novela falada num tempo em que já havia-se inventado a televisão. 

A sala de visitas da casa parecia tudo menos sala de visitas. Para nós, crianças, ela parecia mal-assombrada, uma relíquia só para ver, tal era o desconforto daqueles móveis toscos estilo Luiz XV, de encostos ovais bordejados de flores de madeira com pernas torneadas e estofamento parco e duro. Eram móveis tombados pelo patrimônio histórico, provavelmente. Aquela sala era mais para enfeite mesmo, raramente usada, mas aberta à ventilação natural todos os dias. Era mais uma sala de chá para as raras visitas requififadas que tivessem a coragem de subir aquela ladeira.

Com muita boa vontade, a sala de visitas num extremo da casa se
parecia com este estilo barroco, porém bem menos luxuosa do que
esta foto, além das cores serem bordô e negro, o que lhe emprestava
um ar fúnebre, com as fatais fotos de molduras ovais da família nas
paredes. Que fim levaram aquelas fotos?
As janelas da casa eram todas enormes, e não tinham vidro, eram feitas de madeira tosca pintada, rústicas, que se fechavam com travessões de ferro negro, bem como as portas também, com um barulho característico. Uma vez fechadas, era escuridão total.

Durante o dia eu costumava admirar a praça lá embaixo, bem longe, curtindo os trens quando paravam na estação, com seus apitos e locomotivas ainda a vapor, negras, piuíiiiii, ou a óleo diesel, poooommm, vermelhas, e também o ônibus interestadual quando chegava e saia em suas horas marcadas. 

Pareciam-se com meus brinquedos e por isso hoje em dia ainda me encanto com cidadezinhas em miniatura como as de Lego nos parques temáticos ou a do parque Cockinton Green, em Canberra, Austrália, além de adorar vistas de prédios altos onde posso dispender horas examinando cada detalhe da vida lá embaixo.

Parque de miniaturas Cockington Green em Canberra, Austrália
Jamais esqueço daqueles ônibus pois já era fissurado em qualquer tipo de veículo motor, e a linha daqueles ônibus, na minha concepção, eram moderníssimas. Eles eram de marca Ciferal, e suas janelas pareciam voar em velocidade por serem todas com formato losangular, inclinadas para frente, como se tivessem passado a jato por um transeunte a admirá-las. 

Os vidros traseiros tinham forma de olhos de gato. Nenhuma outra marca de ônibus parecia-se com aquela. Os ônibus eram amarelos e ocre, cores inesquecíveis também, com cortinas e assentos vermelhos. A grade do radiador inspirava-se nos Cadillacs norte-americanos do final dos anos 50. 

Eu adorava viajar neles com o vento batendo no meu rosto de criança em pé ou de joelhos na cadeira, que não dormia de jeito nenhum, observando tudo o que acontecia e tudo o que se passava do lado de fora.

Ônibus Ciferal 1966
Minhas brincadeiras na fazenda eram correr atrás dos patos e galinhas. Eles faziam uma baderna danada, e minha avó, que mais se parecia com uma matrona polaca com seus cabelos negros colados à cabeça e seus quilinhos a mais, não gostava, mas parece que não tinha quem me segurasse, a não ser se me oferecessem alguma guloseima, que é o que geralmente acontecia para me distrair. 

Naquela casa havia uma fartura enorme de comidas regionais na mesa do café da manhã, no almoço e no jantar. Além das frutas sempre haviam bolos de vários tipos, pães, raízes como inhame (cará), macaxeira (mandioca) e fruta-pão, munguzá e broas de milho, bolachas, biscoitos, cuzcuz com leite, sopas, sucos e pratos principais com muita farinha de mandioca. Mas a criança idiota que eu era preferia balas de confeitos e cachorros-quentes, porém como estes não havia, eu era obrigado a me alimentar bem.

Os personalísticos olhos de gato traseiros
Tinha pavor do banho porque a água era gelada e descia numa bica que só faltava furar o meu quengo (minha cabeça) por ser pesada demais. Aquela áqua cristalina e totalmente transparente surgia numa nascente natural lá no alto da colina, no meio da mata atlântica que cobria toda a extensão atrás do casarão e do lado dele, até perder-se de vista. Enquanto caia sobre as nossas cabeças, a água cintilava à luz do sol por entre as folhas das árvores, de tão cristalina.

Na mata nordestina havia todo tipo de fruta que meu avô fazia os caseiros colherem lá no alto e trazerem em balaios enormes que colocavam lá num quarto atrás da casa para nos refestelarmos durante dias e dias. Dali elas iam para as fruteiras na mesa de jantar. Quando estávamos fartos, o resto das frutas dos balaios eram despejados na manjedoura das vacas que se refestelavam, e novos balaios fartos substituiam os velhos.

O rádio à bateria da vovó
Na tamanha fartura, havia goiaba, tamarindo, graviola, abacaxi, cajá, umbu, cajarana, mangaba, jambo vermelho e rosado, azeitona roxa que dava nódoa nas roupas, mamão, melão, melancia, manga espada e rosa, pitanga, laranja cravo, lima e baía, limão, pinha, banana, jaca, jabuticaba, caqui, sapoti, abacate, maracujá, fruta-pão, romã, carambola, pitomba, figo, coco e siriguela. Não havia caju, cereja, morango, uva nem kiwi.

Leite e ovos eram fresquinhos e naturais além de galinha e peru criados no quintal que minha avó assassinava ao estilo português, tratava, cozinhava e servia junto com sua criada negra adolescente que apelidáramos de "baitá" porque ela não conseguia falar. O fogão da cozinha era de lenha, um buraco enorme num grande bloco de concreto branco, e do lado de fora da cozinha havia grandes toras de madeira empilhadas. Ele nunca arrefecia e sempre haviam brasas salpicando agulhas de fogo. Quando era preciso atiçar o fogo, havia enormes abanos de palha utilizados pela criada, que lembravam as aias abanando as sinhás do tempo dos escravos.

Chuveiro de bica de bambu no mato... porém, menos!
Não era sofisticado assim e tinha tapumes para as
donzelas, bem ecológico para a época
Meu avô conhecia suas vacas e as chamava pelo nome. Mocinha, Formosa, Pretinha! E as vacas malhada, branquinha e pretinha ouviam, levantavam as orelhas, olhavam para nós, saíam lá do meio da pradaria em trote e vinham dar com ele, provavelmente loucas por uma manga ou jaca de suas próprias mãos, com aquelas línguas enormes e rosadas. 

Andar a cavalo era guiado pelos filhos dos ex-escravos negros que ainda moravam na senzala perto das quais não éramos permitido chegar, não sabíamos porque. Mas não nos importávamos com aquilo, regras de adulto eram regras, tudo era muito natural para quem havia nascido naquelas circunstâncias sociais. Para nós era tudo normal e como devia ser. Os negrinhos, afinal, eram nossos amigos também, embora não pudessem jantar conosco, mas aquelas eram as regras.

A água cristalina que, segundo meu pai, havia sido testada em laboratório que havia comprovado ser da melhor qualidade mineral, descia em forma de um pequeno regato por sobre as pedras, entre as folhas caídas e secas das árvores e arbustos, e ia formar um lago na propriedade do vizinho amigo. Olhando pelo Google maps, aquele lago não existe mais e parte das duas fazendas hoje está urbanizada. Parte daquela água era desviada através de bambus rachados ao meio até chegar à casa em grandes quantidades. Era muito mais do que qualquer torneira que você conheça na cidade. A pia da cozinha assim tinha água corrente e gelada eternamente, e quando se queria tomar banho, ela era desviada para o chuveiro ou a bica, como conhecíamos, no meio do mato, do lado da casa.

Balaios de frutas tropicais (aqui nem é balaio nem são todas frutas
e nem tropicais)
A bica do chuveiro jorrava água corrente sobre uma área cimentada que era o piso do banheiro, o qual era fechado por uma cerca de palha bem rústica e ecológica, sem cobertura, ou seja, era ao relento, vendo-se a copa das árvores por cima, um lugar paradisíaco se não fosse o temor de haver alguém nos espreitando, em se tratando das mulheres urbanas que se sentiam muito constrangidas com aquilo. 

Nunca havia ninguém, era claro, o jardim ao lado da casa era segregado, cercado, e ninguém era permitido zanzar por alí, exceto as pessoas da casa ou eu atrás das galinhas a mais de 10 metros do chuveiro. Mas era difícil convencer as garotas.

O toalete era do lado de fora da casa, no quintal, mas não chegava a ser um quartinho bem longe, uma casinha pra uma pessoa só com uma portinha, como são os toaletes antigos das fazendas da Austrália conhecidos como "loo" (pronuncia-se "lu"). Ele ficava ligado à casa mesmo, porém do lado de fora. Era sempre um problema temeroso sair à noite em caso de precisão, de candeeiro na mão. Suponho que tinha-se que jogar um balde d'água quando se terminava o serviço, mas eu não fazia esse serviço por ser muito pequeno.

Pavões azuis, aves ornamentais que eram o orgulho do vovô,
zanzando no quintal
No quintal havia patos, perus, gansos brabos e até pavões deslumbrantes com suas longas caudas coloridas em leque todas cheias de arabescos desenhados como pelo melhor pintor clássico do universo, Deus. Uma atração à parte para as crianças era observar os pavões abrirem seus leques e sairem arrastando-os pelo terreiro em passada de ganso, compassadas, bem como os perus também o faziam com outra espécie de leque preto e branco. 

Os pavões eram a classe rica, e os perus as classes médias querendo imitá-los em preto-e-branco. E o que dizer das galinhas, gansos e patos? A classe pobre.

E sobre os cachorros não era nem preciso falar que existiam, só que eles eram criados para serem cães-de-guarda, então nada de crianças brincarem com eles. Havia uns pretos, e outros malhados de branco e marrom, talvez Dobermans, Boxers e Pastores Alemães, e cada um tinha um nome, obviamente, mas não lembro de nenhum, a não ser o cachorro da minha mãe quando era pequena, chamado Chalman. 

Esta cena não houve, o que me fez crescer carente, arisco e 
rebelde...
Os cachorros eram todos amarrados na varanda do lado direito da casa durante o dia, que dava para a manjedoura das vacas e cavalos, onde ficavam o capataz e os serviçais, onde mal podíamos chegar perto por ser perigoso para crianças.

Do outro lado do terreiro no fundo da casa havia outra construção pintada de branco que acho que era para ordenhar as vacas, ferrar os cavalos e consertar as charretes. Estava sempre cheia de homens lá, em suas áreas permitidas.

Minha mãe costumava adorar os cachorros, bem como os cavalos. Ela era uma amazona de nascença que adorava cavalgar, mas eu nunca a vi cavalgando, ela apenas me confidenciara aquilo, um belo dia quando eu já era bem adulto. Cavalgar naquela propriedade também não era muito fácil por causa do declive pronunciado no terreno, mas na época em que ela cavalgava, não era naquela fazenda. O nome de seu cavalo negro era Alazão.

Este cenário de Panelas, Pernambuco, se parece muito com o que
víamos do alto da casa grande do meu avô quando eu era pequeno
Quando subíamos na mata, íamos apreensivos com medo de cobras, mas sempre estávamos protegidos por empregados acostumados a lidarem com todos os tipos de bichos do mato. 

Na mata havia preguiças enormes, pássaros de todos os tipos, sapos de todos os tamanhos, lagartos e lagartichas, e vez por outra subíamos em árvores como nos pés de jabuticaba que dão os frutos nos caules de onde colhíamos e comíamos alí memos até ficarmos empanturrados. Diziam que havia raposas e gatos-do-mato ou jaguatiricas, mas nunca vimos.

Porém nossos avós não foram eficientes em alimentarem o amor dos netos pela natureza em que eles viviam. Para nós era tudo muito árido em termos de paixão pela vida na natureza, coisa do povo do interior do nordeste, sem cultura intelectual, sem orgulho de suas raízes. Naquela época em que eu era criança, não existia este movimento atual de conscientização ecológica e preservação da natureza. Hoje aquela mata foi desmatada e em seu lugar existe agora cultura de cana-de-açúcar igual a todo o resto da região. É triste ver que aquela mata tão rica foi embora e só restara o jardim ao lado da casa que ainda preservou algumas árvores frondosas. Hoje nem mesmo a casa existe mais, quanto mais aquele simples jardim.

Mata atlântica de Arraial d'Ajuda, Bahia, similar à mata de lá
Descer e subir a trilha da casa até a cidade era um grande programa que demorava bastante tempo à pé, por isso, todo passeio na cidade pequenina do interior acabava se tornando uma jornada, pois não havia carros. Muitas casas lá embaixo pertenciam à família, mas como criança, eu não me ligava em quem era quem e quando cresci jamais retornei àquelas paragens. Tudo o que tenho nos ouvidos são nomes de famílias e dos lugares ao redor, falados pelos meus pais e tios, sobre pessoas que nunca conheci, lugares em que nunca estive.

Para chegarmos à cidade, era preciso cruzar a porteira e os trilhos do trem, e depois subirmos no batente da estação para a atravessarmos e sairmos na rua onde nos fins de semana havia a feira popular que incluia vegetais e frutas numa época em que não existiam super-mercados, só vendinhas e botecos. Os trens haviam sido privatizados na década de 60 e a estação fora abandonada e depois transformada em algo diferente.

Meu avô me adotou legalmente para questões de herança, e por isso eu era conhecido como o garoto que tinha dois pais. Hoje eu tenho um terceiro pai que é o meu sogro. A herança seria dividida com minha mãe que deixou sua irmã mais nova e que na época não tinha filhos para sempre magoada, para não mencionar palavra pior. Ele não tinha filhos, e eu era o neto masculino primogênito, mas a personalidade fazendeira não me foi repassada pelo meu avô que não soube me conquistar. Meu avô não tocava em mim, e se tenho uma foto em seus braços, foi apenas isso, uma foto.

Meu avô nunca chegou a me dizer isso assim, claramente, ao 
mesmo tempo em que, para mim, morte não existia, pois eu 
jamais havia visto alguém morrer.
Para mim ele era uma figura distante, um ser superior de outra casta, que não podia ser meu amigo, como se fosse uma estátua de marfim. Para ele eu devia ser um bisqui frágil de prateleira e intocável. Haviam coisas na família que eu não entendia e nunca me foi explicado, das quais só hoje suspeito, depois de ter estudado muito o ser humano e lido sobre muitas estórias australianas macabras. 

Enquanto que para mim, como criança, eu não perdia tempo em tentar entender ou sequer descobrir o que poderia existir, apenas aceitava as coisas como elas eram, depois de velho fui obrigado a enxergar que devia haver muitos problemas inconfessados na família dos dois lados, paterno e materno, principalmente problemas afetivos e longas mágoas nutridas, e talvez muita injustiça política também, mas suponho que agora seja muito tarde para tentar reconstituí-los, e muito menos tentar repará-los com a minha sabedoria atual. Muito tarde, só na próxima vida.

A nascente de água mineral descia ladeira abaixo como esta aqui
Mas as férias naquela cidadezinha jamais saíram das nossas cabeças de crianças, e uma das atmosferas que me acompanham e me dão uma profunda paz é justamente causada quando escuto uma rolinha fogo-apagou arrulhar, mesmo estando do outro lado do mundo e em circunstâncias tão opostas, a lembrança querida jamais nos deixa

Porque havia mais de uma destas rolas naquela casa, e o som de seu canto era sinal de que estávamos lá, onde nos sentíamos como numa fortaleza, num castelo, acima de todo mundo e bem longe da população da cidade, cercado por muita terra que ninguém podia trespassar, que era só nossa, repleta de mantimentos.

E para que, hoje em dia me pergunto eu? É tudo muito interessante, mas cresci essencialmente como uma pessoa urbana, o que significa viver feliz com quase nenhuma posse, apenas curtindo as pessoas que nos cruzam em nossos afazeres diários, na escola, no trabalho, na vizinhança, nos clubes, enquanto não temos tempo para nada a não ser o nosso trabalho diário que nos consome todas as mais preciosas horas de nossas vida, e ainda achamos tempo para ter família e ver os filhos crescerem.

Jaboticabal. Pensando bem, como é que subíamos na
tal árvore sem arrancarmos as frutinhas? Acho que não
haviam frutinhas em toda a extensão da árvore...
Minha mãe provavelmente tinha alguma queixa dele por ter tomado o lugar de seu pai biológico que foi embora cedo, quando ela tinha 5 anos. Ambos eram a festa da casa que, como ela dizia, vivia cheia de gente por causa da personalidade festeira do meu avô biológico. Minha avó não deixou o caixão esfriar e foi logo tratando de arrumar outro marido, parecendo uma australiana, o que fez um filho desaparecer e minha mãe ficar magoada. Talvez para resgatar o amor da minha mãe, meu avô postiço me adotou legalmente, mas não me explicaram nada disso a tempo de eu ser agradecido. Ao contrário, rebelde eu era, rebelde continuei, e logo as terras foram embora. Só não é algo de que me arrependo porque, realmente, não tenho alma de fazendeiro. Este foi apenas um dos dramas da família, mas haviam outros, muitos outros. Como dizem aqui na Austrália, que família não tem dramas?

O lago do vizinho, formado pela nascente na propriedade do meu
avô, se parecia com este na região do brejo paraibano, em Pau
Ferro, Areia, serra paraibana, mas o declive era menor
Apesar de não ter tido laços masculinos com meu avô (o tal do "male bond" conhecido pelos anglos), havia no ar uma expectativa de cada um para com o outro. Provavelmente eu não atendi as expectativas dele, e sei que ele não atendeu às minhas, porém através da total falta de diálogo ou tendo um diálogo impossível, não nos foi possível passar a mais do que simples olhares, ele querendo me conquistar calado, e eu o antipatizando por todo aquele poderio. Ele deve ter se sentido muito só depois de seu derrame quando foi obrigado a ser trazido para a cidade, para junto de nós, deixando a sua vida naquele lugar, arrendado a outro fazendeiro, mas eu vivia num mundo muito distante do dele para ser aproximado assim, em poucos dias, as poucas semanas que lhe restaram antes de partir. A presença física não adianta muito quando não há sintonização mental.

Apesar de tudo, hoje sou-lhe grato pela sua ação e sei que ele, onde estiver, há de saber que estou ciente disso finalmente. Afinal, não é à toa que tenho sonhado com ele vez por outra, ele deve estar lá me olhando também, mesmo que não tenhamos sido parentes de sangue.

Rock Hudson tinha a boca e os olhos do meu avô
Na realidade, tal hereditariedade só me causou problemas de ciúmes entre primos e irmãos, e até tios e tias, e o mal estar me acompanhou por muito tempo, daquelas pessoas que se acharam injustiçadas por causa do meu privilégio na partilha. Privilégio este que suponho deva ter sido em agradecimento à minha mãe ter sido como ela foi, alguém iluminada e que irradiava boas intenções de quem se esforçava por suplantar suas limitações de ser humano nascido e criado sob o peso de fatalidades.

Fatalidades estas que ela nos protegeu, a seus filhos, de saber sobre elas a fundo ou a passar por uma sequer.

Mount Marjura Vineyard (Vinhedo do Monte Majura), em Canberra,
Austrália, com muita boa vontade a paisagem chega aos pés da
vista da casa grande do vô no Brasil. O almoço foi bom, só para no
final eu descobrir que era de uma empresa de "catery" e não do
restaurante que deveria existir na vinícula... resultado, não se pode
elogiar e nem poderei levar ninguém para almoçar lá. Isso é a
sempre decepcionante Austrália, mas todo mundo acha isso muito
natural. Sou eu que sou mal acostumado no Brasil, porque se fosse
lá o almoço seria autenticamente regional e o lugar altamente
disputado, sem ser caro. Aquele dia também estava com uma
brisa fresca raríssima em Canberra, onde o vento costuma ser frio

cortante ou um bafo quente.
Outro dia fui convidado para um almoço com degustamento de vinhos de uma vinícula em Canberra, a Mount Majura Vineyard, e para minha surpresa, senti-me como se estivesse na balaustrada do terraço da casa da fazenda do meu avô. O almoço era num longo terraço ao lado da casa restaurante que dava para uma longa pradaria descendo até uma estrada lá embaixo por onde passava o tráfego de carros. 

Aquela pradaria se parecia muito com a visão que tínhamos da cidade a partir da fazenda do meu avô. Aquele almoço me deu muita paz, apesar de eu estar na Austrália onde não existe mata atlântica assim, facilmente, porém o verde daquela época do ano trouxe-me à lembrança aquela região do nordeste do Brasil, além do que, por trás da casa havia uma montanha coberta de árvores e arbustos além do vinhedo, menos espessos do que na fazenda do meu avô, mas mesmo assim a disposição era muito semelhante.

Pesadelos
Algumas coisas perduram em nossas cabeças durante muito tempo, senão durante a eternidade... o que me deixa triste por me lembrar que muita gente, ao invés de guardar boas lembranças do passado muitas vezes tem que conviver com cenas aterrorizantes de tragédias que nunca as deixam em paz, tornando os seus sonhos em pesadelos frequentes. 

Me preocupo muito em fazer estas pessoas melhorarem e deixarem de ser atormentadas, por isso que hoje estou convencido de que escolhi a profissão errada. Devia estar ajudando a essa gente se tivesse me formado em alguma coisa relacionada aos estudos psíquicos ou psicológicos. Minha postura na vida mudou quando me tornei um pai, então pelo menos tive a chance de ajudar alguém, ou seja, meus filhos.

Para estas pessoas existe o consolo de que, nas próximas vidas, elas não mais se lembrarão dos horrores porque passaram, tendo chances de saná-los e removê-los de suas mentes, algo que também pode ser conseguido, com sorte, através de profunda psicanálise.

Seu Ford T de bigode. Se eu achar a foto verdadeira e ela estiver 
em boas condições, substituirei essa daqui por ela.
Certa vez deparei-me com uma foto do meu avô que nunca tinha visto. Ele em seu primeiro carro da cidade, um Ford T de bigode... 

Agora, contando esta história, é que enxergo o quanto privilegiado fui na vida. 

É incompreensível que eu não tenha conscientizado nada disso na minha mente, tido tudo como normal e pior, como insatisfatório, como se tudo estivesse lá o tempo inteiro mas não tivesse nada a ver comigo, com o meu interior. Como é que cresci essa pessoa reclamona e ingrata? Isso foi o que me ensinaram, a nunca estar satisfeito com nada. Esta é a cultura brasileira da qual fui vítima e não foi fácil neutralizá-la.

Se hoje eu mudei esta perspectiva de vida, não foi porque vim viver na Austrália, foi através de um longo processo psicanalítico de auto-entendimento, auto-descoberta, auto-exploração, reconstrução de uma personalidade tacanha a qual eu não estava de acordo, mesmo sendo minha, e sendo quase impossível mudá-la. E com a ajuda de umas pessoas chaves e talvez alguns espíritos protetores. Mas eu mudei, graças a Deus. Hoje enxergo mais o outro. E tinha que ser assim antes de tornar-me pai, senão eu teria sido um pai falho como tantos outros que existem por aí.


Pesquisa no livro Father and Child Reunion (Reencontro Entre Pai e Filho) de Warren Farrell diz que os asiáticos são melhores do que os caucasianos em matemática, e que estes são melhores do que os negros? QI? Preconceito racial? Não. Simplesmente porque a presença do pai na família é muito maior em meio aos asiáticos do que em meio aos caucasianos ou os negros, em declínio nessa ordem.

Aliás, por falar nisso, minha filha esta semana nos contou que uma amiga dela de Facebook, colega da universidade, lhe falou que detestava um outro colega porque ele tinha ideias comunistas, e era partidário de que todo mundo devia ser igual. Ela não gostava desta premissa de sermos todos iguais.

Fiquei imaginando quanta gente deve odiar meus textos então porque, embutidos neles e nas minhas posturas, está este princípio de igualdade.

São passarinhos, são todos iguais, mas todos também são diferentes.
É preciso respeitar-se as diferencas na igualdade, e no fim, todo
mundo tá certo.
O que eu tenho a acrescentar é que, igualdade não quer dizer todo mundo com o mesmo dinheiro, já que pra maioria das pessoas isso é o que interessa e lhes diferencia. 

Para mim igualdade é mais acima do que isso, é estado de espírito e significa respeito e dignidade. Nisso todo mundo devia ser igual. Concedo o direito de cada um poder ser mais rico do que o outro, mas para mim tais pessoas deveriam ter mais respeito aos menos aquinhoados e tentarem ajudá-los a chegarem ao seu patamar, ensinando-lhes os truques de ser rico, o que não é a mesma coisa de distribuir seu dinheiro com os pobres. 

Ensinar a pescar e não fornecer os peixes de graça. Exatamente o que se anda fazendo no Brasil hoje, sob os governos do PT, dando-se condições aos pobres de terem uma chance na vida através do estudo. Estamos vivendo uma era em que muita gente já se conscientizou disso e anda fazendo um excelente trabalho de recuperação da hunanidade como um todo. Apesar dos reclamões.

Amiga da minha mulher ontem falou com ela sem reclamar absolutamente de nada do governo de Dilma, como está na moda estes meses. Ao contrário, disse que o estado de Pernambuco nunca esteve melhor, que tudo lá está dando certo, principalmente os pequenos negócios. Seu cunhado, irmão do seu marido, é um dos reclamões deste governo, mas ela nos confidenciou que ele teve o melhor ano de todos os tempos para sua empresa no ano passado. Se ela não dissesse isso, eu jamais saberia, porque o cunhado dela é meu amigo mas jamais falaria tal coisa para mim, para não dar o braço a torcer.

Quem está mentindo? Uma pessoa sensata que a gente conhece, ou as hordas de reclamadores mal amados e manipulados perdendo seu tempo passeando em passeatas de protesto por um impeachment que eles nem sabem o que significa?

Depois de ter rememorado partes da minha infância aqui, encontro-me totalmente embevecido. Jamais parei para pensar sobre tudo aquilo, e estas lembranças sempre estiveram apenas dentro de mim. Colocá-las para fora agora chega a deixar-me inquieto, parece a história de um aristocrata, e isso é exatamente o que nunca fui nem nunca me senti como, além de negar qualquer parentesco com tal esquema de vida nordestina de patriarcalismo oligárquico, justo na terra dos quilombos.

Austrália e Brazil, quase do mesmo tamanho, 10 vezes menos
população, 70% deserto na Austrália, 61% florestas no Brasil.
Onde é que eu estava todos estes anos? Em outro planeta? Eu estava enfiado até o pescoço naquele esquema e não conseguia enxergar nada. É como se eu estivesse apenas de passagem e nada daquilo me pertencesse. Que criação foi essa que recebi? Comecei a contar algo ingênuo e acabei dando uma de esnobe.

Uma criação dentro da moral e dos valores imateriais do Espiritismo... que meu avô me desculpe. 

Tem sido aqui na Austrália que tenho tido várias oportunidades de revisitar meu passado e ficar de bem com ele, aprendendo a dar valor ao que tenho e a não desprezar nem minhas origens nem meu país de nascença. 

A rolinha e a visita à vinícula foram duas dicas divinas para eu prestar esta homenagem ao meu avô e deixá-lo mais feliz, onde quer que ele esteja. É preciso captar estas dicas no ar com nossa sensibilidade. É preciso desenvolver nossas sensibilidade para podermos captar estas dicas. Tornar-se pai é uma ótima oportunidade para desenvolver nossa sensibilidade.