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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Espiritismo e Reformas Sociais

Desde criança aprendi com meus pais Espíritas que devia respeitar as pessoas, e assim cresci, respeitando também os animais e a natureza, tudo o que era vivo. E ainda as propriedades privadas, os trabalhos artísticos, e a sociedade como um todo, por extensão. Era como se tudo fosse perfeito, mas não era. A parte da sociedade não era.

Nada mais natural para mim do que fazer o bem para todos, e incorporar na minha vida e no meu comportamento tudo o que aprendera com meus pais. Só teve um problema. Meus pais não eram politizados, então eu cresci coxinha. Assimilei todos os valores coxinhas, exceto os valores maus. Amar os Estados Unidos, por exemplo, não parecia mal porque eu não sabia o mal que aquele país havia feito ao Brasil. Passaria muitos anos para descobrir isso, e meus pais jamais descobririam, apesar de toda a inteligência deles. Não posso culpá-los, cada um vive na bolha que criou ou foi criada em volta. Cabe a nós, cada um, procurar aprender mais e descobrir que vivemos numa bolha, a fim de expandirmos nossos horizontes intelectuais.

E foi assim que passei de coxinha a militante de esquerda. Sempre recusei esta palavra, "esquerda", porque ela compartimentaliza, mas sou obrigado a admitir este lado por pressão das outras pessoas, principalmente dos militantes mais antigos. Pois se querem, sou de esquerda, não tem problema. Na realidade prefiro ser de centro que é para abranger os dois lados e suas nuances, mas infelizmente ser de centro no Brasil não ajuda, é o mesmo que ser de direita ou pior, extrema-direita. O centro não existe, ele ora pende para um lado, ora para outro, confome os interesses.

Porém, nunca me afastei dos princípios do Espiritismo que aprendi, embora eu tenha me afastado das instituiçõe espíritas por muitos anos, porque sempre alguma coisa não batia bem. Demorei para descobrir que todos os Espíritas que eu conhecia eram de direita, o que não podia ser. Alguma coisa estava errada. Descobri o que era, e comigo, uma pá de outros dissidentes mais sensatos e coerentes. E estas pessoas se juntaram e começaram a atuar para realmente fazer valer os princípios do Espiritismo, de acordo com os ensinamentos, e principalmente em coerência com tudo o que é ensinado.

Este texto a seguir é mais um dos argumentos que estes novos Espíritas estão tentando divulgar a fim de fazer as pessoas pensarem, principalmente na reconstrução do mundo depois da pandemia do novo virus COVID-19.

Carta de Allan Kardec a Louis Jourdan

Enviado em 22/07/2019

As cartas manuscritas inéditas de Allan Kardec são os rascunhos, escritos de próprio punho, para que, depois de copiadas, fossem enviadas aos destinatários. Recebia a ajuda de secretários e da sua esposa, Amélie Boudet. Ele registrava as cartas recebidas e arquivava com os rascunhos, formando os arquivos do Espiritismo.

Projeto Allan Kardec

Os arquivos foram queimados pelos inimigos, que queriam desviar o Espiritismo de sua proposta original. Todavia, a seleção feita por Kardec para contar a história por fatos escapou dos ataques, e chegou ao Brasil, graças aos esforços do pesquisador Canuto Abreu. Atualmente os manuscritos estão sendo preservados, digitalizados e serão disponibilizados ao público num portal da internet, pela equipe do CDOR (Centro de Documentação e Obras Raras da FEAL – Fundação Espírita André Luiz). O trabalho de tradução está sendo feito por uma equipe internacional de acadêmicos e tradutores profissionais. As cartas disponibilizadas em virtude do livro Autonomia, A História Jamais Contada do Espiritismo, são acompanhadas de transcrição, tradução e comentários originais elaborados por Canuto Abreu, com a finalidade de documentar a obra. Todos esses documentos receberão uma revisão da equipe acadêmica, para que, catalogadas, sejam oportunamente disponibilizadas em definitivo no Projeto Allan Kardec. 

Numa das cartas, Kardec informou que recebia de sete a oito mil cartas por ano. Uma imensa quantidade de correspondência! Ele não conseguia responder a todas, mas, como podemos conhecer na obra Autonomia, A História Jamais Contada do Espiritismo, ele respondia regularmente as pessoas em dificuldade, que pediam o auxílio da Doutrina Espírita, na pessoa de Allan Kardec. Ele respondia especialmente a cada um, levando à reflexão para compreender o verdadeiro sentido da vida segundo o ensinamento dos espíritos superiores.

Como foi apresentado na obra Autonomia, A História Jamais Contada do Espiritismo, Allan Kardec estava atento a todo esforço social em torno das ideias progressistas, promotoras da solidariedade para o surgimento de um mundo novo. Havia uma imprensa francesa francamente dedicada a esse propósito. Um dos expoentes mais aclamados em Paris, nos tempos de Kardec, era o jornalista Louis Jourdan.

Todos os ingredientes do Espiritualismo Racional e ação social defendidos por Jourdan e seus pares estão presentes nessa síntese excelente de Allan Kardec.

Allan Kardec vai receber uma carta de Louis Jourdan em resposta aos seus apelos. Dias depois, outra carta inédita de Kardec dará continuidade à correspondência entre os dois: “Venho um pouco tardiamente, mas sem que houvesse negligência voluntária de minha parte, agradecer-lhe sua gentil e bondosa carta. Eu já conhecia suas simpatias pelos nossos princípios espíritas”. Jourdan expressa algumas dúvidas quanto às comunicações espíritas, e Kardec continua: “o senhor diz que me ficaria grato se lhe desse uma explicação sobre tal assunto. Como isso seria muito extenso para uma carta e, ao demais, serviria apenas para um leitor, preferi dá-la no número da Revista Espírita que o senhor vai receber”. Então completa: “Quanto ao pedido que o senhor me faz de expor na Revista Espírita algumas de suas opiniões pessoais sobre a Doutrina, acedo com boa vontade, porque sei de antemão que suas críticas não serão o fruto de uma hostilidade sistemática, preconcebida e maldosa”.

Confira o restante da análise da carta no livro Autonomia, a história jamais contada do Espiritismo.

https://espirito.org.br/autonomia/carta-kardec-a-jourdan/

Artigo de Vinícius Costa

Allan Kardec acreditava que o Espiritismo auxiliaria na luta por Reformas Sociais efetivas contra os males do liberalismo (o que ele pensaria dos "espíritas brasileiros" conservadores e neoliberais?), por Vinícius Costa, cientista social.

Do site do Repórter Nordeste, na coluna de Cláudia Laurindo

Carta original do Codificador do Espiritismo, divulgada em 01 de setembro de 2020 pela UFJF, revela crítica ao liberalismo material e conexão do Espiritismo com às lutas progressistas do século XIX.

Cartas de Kardec revelam perspectiva de apoio às Reformas Sociais se sustentadas pela revolução moral proposta pelo Espiritismo para além do materialismo.

“Quem quer que a estude no seu princípio e nas suas consequências, nela verá toda uma revolução moral; em vez de tomar o edifício apenas pelo topo, ela o toma pela base e lhe dá sólidos alicerces no coração dos homens, inspirando-lhes a fraternidade efetiva e destruindo-lhes o egoísmo, verme roedor de todas as instituições liberais que repousam apenas na materialidade”(1).

As cartas de Allan Kardec, Codificador do Espiritismo, começaram a ser divulgadas na íntegra em 01 de Setembro de 2020, a partir de um convênio entre a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Fundação Espírita André Luiz (FEAL) – que armazena as cartas encontradas, no século XX, pelo pesquisador espírita Canuto Abreu

As cartas, agora disponíveis na íntegra para o público em geral depois de uma longa batalha para preservação delas, que inclui desde o roubo de documentos por parte dos nazistas durante a ocupação na França até a tentativa de não divulgação das mesmas por parte da Federação Espírita Brasileira (FEB) – por acreditar que os espíritas não estariam prontos para o conteúdos das revelações (2), são um bálsamo para a História da Filosofia e para os estudos da Ciência da Religião, além de ajuda a (re)contar a História do Espiritismo, bem como adentrar na mentalidade do Codificador lionês e suas visões de mundo.

Dentre as cinquenta primeiras cartas divulgadas, destaca-se o “Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863”. Nela, o Codificador Espírita dirige-se ao companheiro de missiva:

“Se suas ocupações lhe permitirem dar uma olhada nela, reconhecerá, sem dificuldade, penso, que esta doutrina conduz inevitavelmente, e por uma via segura, a todas as reformas sociais perseguidas pelos homens de progresso e que ela acarretará forçosamente a ruína dos abusos contra os quais o senhor se insurge com tão notável talento. Sua rápida propagação e o pavor que ela causa no partido clerical são uma prova de que nela se vê algo além de uma efêmera utopia”.(3)

Para se compreender inteiramente o teor dessa carta é preciso conhecer o interlocutor de Kardec, o Monseur Louis Jordan. O Jornalista e Editor francês foi um dos maiores seguidores de Saint Simon na França, além de ter atuado diretamente na luta francesa do século XIX pelo direitos femininos. Não existe, ainda, tradução para português dos livros de Louis Jourdan ou biografia traduzida em nossa língua, mas em língua francesa o trabalho de Jourdan é mais conhecido. Todavia, o público espírita não desconhece a figura de Monseur Jourdan ao todo, já que Kardec cita Louis Jourdan em sua Revista Espírita na edição de Abril de 1861 como alguém por quem ele tinha respeito e com quem se comunicava frequentemente por estar avaliando o Espiritismo insurgente na França. (4).

Aprofundando na figura desse jornalista, percebe-se que Louis Jourdan teve uma vida dedicada às causas sociais. Discípulo das teorias de justiça social de Saint Simon, o jornalista nasceu em Toulon em 7 de janeiro de 1810 e foi editor pela primeira vez de um jornal nesta cidade, chamado o “Eleitor Popular”, dirigido à politização das classes trabalhadoras. Em 1848, fundou o jornal “Espectador Republicano” também dedicado às causas progressistas. Depois de ir para um exílio na Tunísia, ele voltou à Paris em 1852. Em 1856, Louis Jourdan foi o primeiro editor-chefe do Jornal de cunho econômico “Diário dos Acionistas”. Em 1863, ano em que trocou as cartas, reveladas, com Kardec, escreveu sua obra mais importante: “Mulheres em frente ao andaime”. Devido ao viés emancipador de sua obra, em 1870, foi membro do Comitê Executivo Central da Associação para os Direitos da Mulher, algo extremamente inovador para época.

Minimamente apresentado, bem como sua luta em prol das reformas sociais, voltemos mais uma vez à carta de Kardec e como ele interage com o Senhor Jourdan:

“Se suas ocupações lhe permitirem dar uma olhada nela, reconhecerá, sem dificuldade, penso, que esta doutrina conduz inevitavelmente, e por uma via segura, a todas as reformas sociais perseguidas pelos homens de progresso e que ela acarretará forçosamente a ruína dos abusos contra os quais o senhor se insurge com tão notável talento.”(6)

O texto é claro e fala por si só. Na visão de Kardec, o Espiritismo colaboraria para as reformas sociais defendidas pelo Monseur Jourdan e auxiliaria no fim dos abusos do liberalismo materialista e do machismo – objetos de estudo crítico do jornalista, contra qual ele lutava com “notável talento”.

A carta de Kardec para Louis Jourdan deixa claro e evidente o viés progressista para sustentação das “reformas sociais” que o Codificador do Espiritismo enxergava na Doutrina Espírita no século XIX. Transformar o Espiritismo em instrumento de manutenção dos interesses egóicos conservadores do poder estabelecido vai contra a visão de Kardec ao codificar sua própria doutrina e acaba por alinhar-se ao clericalismo combatido por Kardec como destacado nos trechos supracitados.

Kardec ainda alerta ao Monseur Jordan que o “homem de progresso” que não percebe o aspecto revolucionário moral do espiritismo, em sua essência do “fora da caridade não há salvação”, ainda não percebe que a justiça social sonhada necessita de uma revolução moral que estimule à autonomia dos seres. Dessa maneira, se as lutas progressistas caminharem para o escárnio do Espiritismo, essas seriam mais “cegas que o clero (8)” e perder-se-ia, inclusive, as oportunidades de progresso social.

Esse é o “bom combate” que Kardec deixa evidente ao Monseur Jordan ao convidá-lo à se juntar ao Espiritismo e que se estende a todos nós que lemos esta carta no século XXI (o texto completo pode ser lido, na íntegra, aqui).

As reformas sociais necessárias à evolução das sociedades se consolidarão a partir de doutrinas moralmente estimuladoras da autonomia dos sujeitos como o Espiritismo de Kardec. Essa é a defesa, por excelência, do Codificador ao pensar o Espiritismo. E esta deve ser a defesa daquele que professa a Doutrina dos Espíritos.

Texto publicado originalmente na página: https://www.vinnycosta.org/post/ah-religi%C3%A3o-3-kardec-acreditava-que-o-espiritismo-auxiliaria-luta-progressista?fbclid=IwAR1RC7BrJ0FOWKKhfGbwYGdc0p3Z8f0ng9mSGjE18eaoNd6wiR2XfWPWvcs

Bibliografia

(1) KARDEC, Allan. [Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863]. Disponível em: http://projetokardec.ufjf.br/items/show/45. Acesso em: 2 Set 2020. Projeto Allan Kardec.

(2) FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Autonomia: A História Jamais Contada do Espíritismo. Feal. São Paulo. 2019.

(3) KARDEC, Allan. [Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863]. Disponível em: http://projetokardec.ufjf.br/items/show/45. Acesso em: 2 Set 2020. Projeto Allan Kardec.

(4) Revista Espírita – Jornal de estudos psicológicos – 1861 > Abril > O Sr. Louis Jourdan e o Livro dos Espíritos. Disponível em: https://www.febnet.org.br/ba/file/Downlivros/revistaespirita/Revista1861.pdf

(5) Em linhas gerais pode ser saber quem foi Louis Jordam aqui em francês: https://fr.m.wikipedia.org/wiki/Louis_Jourdan_(%C3%A9diteur)

(6)KARDEC, Allan. [Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863]. Disponível em: http://projetokardec.ufjf.br/items/show/45. Acesso em: 2 Set 2020. Projeto Allan Kardec.

(7) KARDEC, Allan. [Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863]. Disponível em: http://projetokardec.ufjf.br/items/show/45. Acesso em: 2 Set 2020. Projeto Allan Kardec.

https://oespiritualismoocidental.blogspot.com/2020/11/kardec-acreditava-que-o-espiritismo.html

sábado, 21 de novembro de 2020

Por um Novo Movimento Espírita

Eu tinha certeza que algo estava errado quando retornei à Federação Espírita no ano passado. Não podia ser, era inacreditável que todos alí fossem a favor de um supremacista branco, fascista, antidemocrático, machista, racista, misógino, antiambientalista e negacionista, defensor da ditadura, da tortura e contra a ciência, a educação, a saúde pública, e contra o que tirou 40 milhões de pessoas da miséria e projetou o Brasil como a maior potência emergente mundial, e isso incluia minha família e quase todas as famílias brasileiras que conheço. O que aconteceu no Brasil nestas duas décadas em que passei fora? Meu Deus, uma hecatombe! Um novo tipo de guerra que enganou a todos sem eles sequer desconfiarem.

Depois de muito procurar acabei encontrando espíritas como eu, graças a Deus, não é? Mas deu trabalho. Tais espíritas dissidentes representam seus pensametos do seguinte modo.

Espíritas Progressistas

"Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil."

(Mateus, 5, 25 e 26.)

Uma grande instituição do movimento espírita brasileiro anunciou mais uma de suas palestras sobre temas comportamentais, temas que ocupam a maior parte do seu calendário proposto para as atividades chamadas "doutrinárias". O tema em questão era uma abordagem sobre o distanciamento geracional e recomendações genéricas sobre o comportamento esperado de pais e filhos espíritas.

Primeiramente, apenas para contextualização, o distanciamento geracional é imanente aos grupos sociais desde que o homem se entendeu como tal. E isso é um dos motores que fazem as comunidades transformarem-se. É óbvio que esse aspecto social e evolutivo não foi tratado na palestra citada, porque o objetivo das exposições nas grandes instituições do movimento espírita não é levar seus assistentes à reflexão de seu papel social, mas à pura emoção temporária e à comoção evangélica de pouco resultado transformador.

Palestras, congressos e eventos que abordam apenas o aspecto comportamental do indivíduo são de pouca efetividade, porque não são capazes de mexer com o cerne do problema das relações sociais, que se traduz no imenso abismo existente entre os dramas e necessidades daqueles que são capazes de pagar por um caro evento federativo e aqueles que representam a maioria absoluta do povo que é pauperizada e incapaz sequer de alcançar as propostas daquelas falas impolutas, arrogantes e alienadas da realidade social brasileira.

Ao se falar do perdão, por exemplo, a essa minoria social que frequenta as grandes casas espíritas, em vez de se falar da briga miúda com o vizinho ou da última confusão com o familiar próximo, deve-se ressaltar que o maior problema para se solicitar o perdão por essa parcela diferenciada da sociedade é o privilégio econômico e social. Enquanto essa gente come e dorme nas melhores condições, muita gente passa fome e não tem um abrigo minimamente decente para repousar seu corpo cansado, e a culpa é justamente do sistema econômico perverso que explora o trabalhador e impede seu acesso a melhores condições de vida, mantido a partir dos privilégios da classe economicamente mais abastada. E é importante destacar essa relação para que não se argumente a falta de vínculos entre essas situações.

Isso quer dizer que a culpa pela indignidade nas condições da vida do outro é exatamente o privilégio da minoria. Ao se contratar, por exemplo, um trabalhador doméstico e recusar-lhe direitos e dignidade, está-se cometendo não apenas uma infração legal, mas uma injustiça social e moral que exige não apenas o perdão, mas a reparação. Ao se lutar por uma reforma trabalhista, em nome do lucro e do aumento do faturamento, que expõe o trabalhador a toda sorte de inseguranças, incertezas e problemas sociais, assume-se o lado perverso do indivíduo que precisa ser mais bem trabalhado nos espaços do movimento espírita. Ao se apoiar uma reforma previdenciária, vendo-se nela um mero balanço atuarial e econômico, que joga o velho e o incapaz na miséria social, mostra-se toda a crueldade de pessoas que não trazem em si nenhuma humanidade ou empatia com o outro.

E esses problemas, muito maiores, infinitamente maiores em escala e em conteúdo, merecem um foco comparativamente muito maior nas discussões tratadas nas casas espíritas, porque enquanto essa classe distinta que frequenta as instituições espíritas achar que o perdão, por exemplo, refere-se apenas à última discussão na reunião do condomínio, o espiritismo não estará cumprindo seu papel transformador e revolucionário.

Também é por conta desse tipo de discurso anódino e insosso, sem alcance transformador e que encolhe o tamanho das propostas espíritas, que o movimento espírita não consegue expandir-se e adentrar as classes economicamente mais vulneráveis; e qualquer análise estatística dos dados demográficos nacionais mostra essa triste realidade: os espíritas são privilegiados econômica e socialmente.

O movimento espírita precisa levar o discurso potente e transformador do espiritismo aos mais necessitados. Seu foco precisa ser mudado urgentemente dos problemas superficiais e quase pueris dos abastados para a indigência material e social dos desvalidos. O movimento espírita precisa conversar com os pobres, dialogar com os deserdados, ouvir e falar com os abandonados pela sociedade, e não apenas dar-lhes um pão eventual que apenas sacia a fome de sentido de vida dos exploradores. O espiritismo precisa tornar-se popular, falar a linguagem do povo, para que não continue a ser essa tolice diletante que hoje cheira a naftalina nas casas e instituições espíritas sem um real objetivo transformador.

Um novo movimento espírita, reinventado, repensado a partir daquilo que hoje é apenas latente dentro das obras espíritas, precisa ser libertado das amarras que intentam conservá-lo impotente dentro duma ortodoxia sem frutos, seca, para que alcance seu propósito precípuo: a transformação do homem e da sociedade em que se vive, porque, afinal, o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização.

Afinal, "os sãos não precisam de médicos"...

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1058329021228088

O Que Fazer?

Ou uma proposta inicial para encaminhamentos dos “problemas candentes do nosso movimento”[1].

“Ninguém coloca remendo novo em roupa velha; porque o remendo força o tecido da roupa e o rasgo aumenta. Nem se põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, os odres rebentarão, o vinho derramará e os odres se estragarão. Mas, põe-se vinho novo em odres novos, e assim ambos ficam conservados.”

Jesus, em Mateus, 9, 16-17.

Em editorial recente da página “Espíritas à esquerda”, publicado no último dia 4 de julho, foi lançada a provocação da necessidade de se constituir um novo movimento espírita. E seu título traduz bem a ideia central proposta: “Por um novo movimento espírita”.

Abaixo, o endereço do texto:

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1058329021228088

No texto citado, foi dito que o “espiritismo precisa tornar-se popular, falar a linguagem do povo, para que não continue a ser essa tolice diletante que hoje cheira a naftalina nas casas e instituições espíritas sem um real objetivo transformador.” Concluindo-se, então, da seguinte forma:

“Um novo movimento espírita, reinventado, repensado a partir daquilo que hoje é apenas latente dentro das obras espíritas, precisa ser libertado das amarras que intentam conservá-lo impotente dentro duma ortodoxia sem frutos, seca, para que alcance seu propósito precípuo: a transformação do homem e da sociedade em que se vive, porque, afinal, o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização.”

Dando continuidade ao tema, e agora focando no aspecto pragmático da práxis espírita progressista, pretende-se, a partir desse novo editorial, propor alguns caminhos à ação.

Primeiramente, deixar claro que essa proposição de novos caminhos ao movimento espírita tem como orientação precípua, como dito acima, o entendimento que “o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização”. Não se pretende propor apenas reformar o movimento espírita, arejando-o com ideias sociais e interpretações políticas, mantendo sua estrutura burguesa e suas instituições carunchosas, pois isso seria apenas remendar a roupa velha. Mas, a partir da compreensão espiritual e material das relações humanas contida nas obras espíritas, transformar a sociedade, as relações de classes e a exploração do trabalho e do homem.

É preciso um novo movimento espírita que se apresente firme e claramente à luta contra todo tipo de exploração, contra todo tipo de discriminação e contra a precarização das condições materiais de vida. Isso significa que novas instituições, com novas práticas, precisam assumir esse papel essencial para a consecução daquilo que foi proposto como transformação da realidade por Jesus e pelos espíritos que auxiliaram Kardec, porque não será possível fazer isso a partir das instituições que hoje, infelizmente, representam esse movimento espírita inócuo e sem serventia.

Portanto, a primeira proposta colocada a partir dessas reflexões é a organização de novos grupos e instituições que se pautem por uma visão transformadora. Mas não aquela transformação puramente individual, que ignora as relações humanas dialéticas, e sim a visão que compreenda que toda transformação humana passa necessariamente pela mudança radical nas relações sociais, porque, afinal, ninguém é capaz de se autotransformar ignorando as condições do contexto em que se insere.

Esses novos grupos e instituições devem ter como objetivo primacial a construção da estratégia de sua inserção na luta pela superação da cruel realidade social existente. Suas reuniões, estudos, conferências e ação social devem ter esse maior propósito colocado como horizonte, como meta à sua atuação, exemplificando o poder revolucionário da filosofia espírita. Afinal, de que adianta decorar perguntas e respostas de livros e não ser capaz de usar esse tipo de conhecimento para transformar a realidade ao seu redor? E transformar não é apenas dar o pão no momento de fome extrema, que também é importante, mas construir uma sociedade em que mulheres e homens não tenham mais que sentir fome.

Muito se ouve e se lê de espíritas progressistas sobre a necessidade de se ocupar espaços espíritas existentes, numa luta inglória e ineficaz para levar seu discurso aos ouvintes de determinada instituição. Entende-se que essa estratégia não traz os resultados necessários por dois motivos principais: a) o público dessas casas espíritas não interessa ao movimento espírita progressista, pois seu foco deve ser o povo, a classe trabalhadora que precisa, além de justas condições materiais de vida, de consciência social e política e de educação; b) as instituições espíritas conservadoras —pois intentam conservar o status quo da realidade— são como roupas velhas, carcomidas, nas quais um remendo qualquer só será capaz de fazê-las rasgar, sem entretanto se as fazer transformar. Seus odres estão velhos e o vinho novo ofertado não terá o condão de os melhorar.

E, indo um pouco além, deve-se abandonar definitivamente tolos escrúpulos e cuidados com as propostas de união ou unificação do movimento espírita. Não interessa a nenhum espírita progressista unificar-se ou unir-se a ninguém para uma luta inconsequente e que não tenha como objetivo claro a transformação da realidade social. Pois se não houver explícito interesse nessa transformação, a omissão pusilânime atuará como resistência a essa proposição, ou seja, “aquele que não está comigo está contra mim; e aquele que comigo não ajunta, espalha”[2].

Afinal, não interessa e não basta aos espíritas progressistas apenas compreender a realidade, incluindo-se a condição da imortalidade, mas ser capaz de agir coletivamente para a transformação dessa mesma realidade[3].

Notas:

[1] O título e o subtítulo trazem a clara referência à brochura leninista publicada em 1902 intitulada “Que fazer?: problemas candentes do nosso movimento”, cuja leitura é fortemente recomendada.

[2] Jesus, em Mateus, 12, 30.

[3] Paráfrase da décima-primeira tese sobre Feuerbach, de Karl Marx.

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1073049716422685

E o Espiritismo Se Faz Povo

"E percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo."

Mateus, 4, 23.

Em sequência aos textos propositivos duma nova realidade de ação-reflexão do movimento espírita, discutem-se algumas formas para sua atuação.

Destaca-se que esse é o terceiro texto com reflexões e aprofundamentos sobre essa proposta. Os outros dois podem ser lidos nos endereços abaixo:

"Por um Novo Movimento Espírita"

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1058329021228088

"O Que Fazer? Ou uma proposta inicial para encaminhamentos dos 'problemas candentes do nosso movimento'"

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1073049716422685

Pretende-se aqui esmiuçar um pouco as propostas rascunhadas no segundo texto, em que se afirma:

"Esses novos grupos e instituições devem ter como objetivo primacial a construção da estratégia de sua inserção na luta pela superação da cruel realidade social existente. Suas reuniões, estudos, conferências e ação social devem ter esse maior propósito colocado como horizonte, como meta à sua atuação, exemplificando o poder revolucionário da filosofia espírita. Afinal, de que adianta decorar perguntas e respostas de livros e não ser capaz de usar esse tipo de conhecimento para transformar a realidade ao seu redor? E transformar não é apenas dar o pão no momento de fome extrema, que também é importante, mas construir uma sociedade em que mulheres e homens não tenham mais que sentir fome."

A partir do claro entendimento do objetivo transformador das propostas espíritas, não no sentido individual, mas coletivo, porque não é possível transformar-se sem a transformação de toda a sociedade, o que se propõe é a mudança da atuação do movimento espírita no sentido de se tornar instrumento na busca das mudanças da sociedade desigual e injusta em que se vive.

E isso é radical e revolucionário, pois não se parte da proposta de evangelização, no sentido clássico, apartada do contexto vivido por todos, que pretende apenas formar prosélitos de classe média e experienciar a prática da caridade como simples entrega de fardos e itens aos pobres, como se esses fizessem parte duma outra realidade, dum outro mundo.

Os ensinos de Jesus e dos espíritos que auxiliaram Kardec são recursos valiosos que podem, e devem, compor um mosaico de ações que promovam a construção da autoconsciência transformadora do povo, pois um povo alheio à sua realidade social, econômica e ambiental e à sua identidade jamais conseguirá dar passos no sentido da superação de suas mazelas e dificuldades. Portanto, se se pretende verdadeiramente promover a transformação proposta nos ensinos evangélicos e espíritas, é preciso antes de tudo atuar no sentido de possibilitar ao povo a elaboração de sua autoconsciência, ou seja, o foco do novo movimento espírita dever ser o trabalho de conscientização.

E aqui não há nenhuma pretensão de protagonismo nessa tarefa, pois a conscientização é uma conquista de determinado grupo ou de toda a sociedade. Ela não é algo dado por um terceiro, mas construída a partir da própria realidade em que se vive, pois só quem a vive é capaz de dela tomar consciência. Caberá, portanto, ao novo movimento espírita entender seu papel de ferramenta, de meio, de instrumento, de mero auxiliar que facilita a conquista dessa consciência social.

Os núcleos espíritas desse novo movimento devem, preferencialmente, estar vinculados a comunidades populares, de trabalhadores, para, junto com eles --e jamais para eles--, promover atividades e reflexões, com o apoio indispensável dos ensinos evangélicos e espíritas, que contribuam para a construção da consciência crítica de todos os envolvidos.

Portanto, não haveria espaço nessa nova proposta de ação-reflexão para palestras evangélicas alienantes ou reuniões de estudos de caráter dogmático e ortodoxo. Isso porque não há uma doutrina a ser ensinada, não há um fiel a ser conquistado, mas uma tarefa de construção de consciência coletiva a ser feita por meio das transformadoras propostas espíritas, já que o que se objetiva não é um profitente espírita, mas um homem liberto e consciente.

Reuniões, estudos, eventos devem então se pautar pelo diálogo e pela participação intensiva de todos. E qualquer reflexão de caráter espiritual e evangélico deve partir da realidade concreta em que vive a comunidade que se insere o núcleo espírita. Muitas reflexões, diálogos e estudos espíritas podem ser feitos a partir das condições concretas da vida do povo, como as dificuldades das relações de trabalho, as condições objetivas do bairro em que se vive, a moradia, as dificuldades enfrentadas pelas famílias trabalhadoras no acesso à educação e à saúde, os problemas enfrentados por negros, mulheres e LGBTs da comunidade, a violência urbana, as drogas etc. E, a partir da análise desse contexto socioeconômico e da reflexão dos textos espíritas, será possível encontrar não só o consolo proposto por esses textos, mas a força para transformar a situação concreta, que é o valor maior dos ensinos evangélicos.

Esses novos núcleos espíritas devem também promover incansavelmente a auto-organização em todos os sentidos. Primeiro, a auto-organização do trabalho, motivando o trabalhador a participar de cooperativas, movimentos sociais, organizações de bairro e sindicatos profissionais, mostrando que é por meio da luta coletiva que se conseguirá transformar a realidade, jogando por terra o discurso hegemônico e falacioso da meritocracia individual. Segundo, é preciso também fazer com que o próprio núcleo espírita seja auto-organizado, que a própria comunidade dirija e decida os rumos desse novo movimento espírita. A classe média, maioria dentro do carunchoso movimento espírita retrógrado e conservador, precisa abdicar de seu protagonismo e ser mero instrumento da promoção da participação popular na organização desses novos núcleos.

Por fim, as atividades de caridade material, necessárias dentro das comunidades pobres onde vive o povo trabalhador, devem-se nortear pela reflexão e decisão conjuntas e pelo auxílio mútuo. Ou seja, é a leitura da realidade concreta, feita com a participação de todos, que deverá pautar as ações a serem tomadas por todos, incluindo obrigatoriamente a própria comunidade. Não há simplesmente doação de cestas básicas, roupas ou que tais sem que toda a comunidade participe da definição de suas necessidades e também da própria atividade de auxílio mútuo. Portanto, não é apenas um doar alienante, mas uma ação que constrói relações coletivas e promove a consciência libertadora.

As propostas espíritas trazem consigo esse poder transformador revolucionário. O que se precisa é colocá-lo em ação. Essas propostas foram trazidas há mais de cento e sessenta anos por uma miríade de espíritos como ferramenta de auxílio nesse processo que, como se sabe pela lei de evolução, ocorrerá de qualquer forma, "conosco, sem nós ou contra nós"[1]. E o que aqui, pois, propõe-se é que se coloque o movimento espírita a favor desse processo, mudando o triste rumo em que hoje se encontra.

Nota:

[1] Frei Inocêncio Engelke, em carta pastoral à pequenina cidade mineira de Campanha, em 1950, mostrando sua preocupação sobre a ausência da Igreja Católica no processo de libertação do povo camponês.

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1107200249674298

Os Espíritas e o "Reino"

"A filosofia espírita só estará definitivamente arraigada no mundo no dia em que se dedicar à consideração filosófica, social e religiosa da chamada luta de classes. O problema desta luta absorve quase toda a atenção do homem contemporâneo. Seria um erro não reconhecer que todo pensamento espiritualista dos novos tempos só avançará se souber enfrentar esse tremendo conflito, que se desenvolve entre as classes sociais. Não olvidemos que todo progresso da cultura só é possível no plano da consideração histórico-social. A filosofia espírita, se não tomar uma orientação desse caráter, realmente definida, tal como se deduz do kardecismo, ver-se-á diminuída e reduzida em sua ação, frente ao problema transcendental das questões sociais."

Assim, o argentino Humberto Mariotti, em sua conhecida obra "Parapsicología y materialismo histórico", de 1963, indica o caminho necessário à condução das propostas espíritas pelo movimento espírita.

A ideia de levar as propostas espíritas de transformação social e individual, num enlace dialético contínuo, que se tem defendido nesse espaço, não é original, pois já foi levantada, e convenientemente esquecida e relegada à mera curiosidade histórica, por grandes nomes do movimento espírita nacional e internacional.

Como explicita Mariotti no fragmento acima, não orientar as discussões espíritas ao necessário debate sobre as desigualdades econômicas, a injustiça social, as discriminações humanas, enfim, a luta de classes, é diminuir o alcance revolucionário das propostas espíritas, pois não é possível pensar em espiritismo sem suas óbvias consequências sociais e seu chamamento à ação transformadora.

O que faz o espiritismo, nos textos trazidos pelos espíritos que auxiliaram Kardec, e que apenas ecoam as propostas de Jesus, é delinear os fundamentos do "Reino" anunciado por Jesus, descrito nos textos neotestamentários. Esse "Reino", que traz como fundamentos a justiça, o amor, a fraternidade e a igualdade, só será alcançado quando os homens estiverem conscientes de sua condição de explorados e expropriados em seus direitos e dignidade.

A opção de Jesus pelos pobres, deserdados, explorados, humilhados, oprimidos e desgraçados nessa transformação é muito clara e não permite compreensão distinta. Aos exploradores e detentores de privilégios sociais e econômicos, Jesus apenas os convida a participar, propondo o abandono de sua situação moral aviltante de opressor como "conditio sine qua non". Como não lembrar das passagens em que o jovem rico é instado a doar seus bens para segui-lo, ou quando diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha do que um rico alcançar o "Reino"?

A proposta de Jesus, portanto, é clara: só será possível um "Reino" quando não existirem diferenças sociais que permita haver alguns privilegiados e muitos miseráveis.

Cabe aos espíritas, que se dizem seguidores de Jesus, levar adiante tal proposta de viabilização e fundação do "Reino". E o "Reino" nada mais seria do que essa sociedade de homens, nas condições material e espiritual, em que a justiça social seja o norte e orientada por propostas de libertação e conscientização do povo. Porque só um povo livre e consciente será capaz de manter uma sociedade fundada nos valores do amor e da fraternidade propostos há mais de dois mil anos.

Um espiritismo insosso e inócuo, que se propõe apenas a discutir temas fúteis e comportamentais, não tem valor para a transformação em direção ao "Reino", como indicado por Jesus. A construção desse "Reino" demanda verdadeiros espíritas que se proponham à ação-reflexão no sentido de promover a autolibertação e a autoconscientização do povo oprimido, conforme a clara escolha de Jesus. E isso só será possível com um novo movimento espírita transformado e construído a partir das reflexões já trazidas por muitos, como indicado no texto citado de Mariotti.

Há muito a fazer. Há um novo movimento espírita justo e fraterno a ser construído. À ação, espíritas!

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1125002864560703

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Um Novo Movimento Espírita

"Aqueles que abraçam realmente o Espiritismo tornam-se menos espirituais e mais humanos..."

Para quem não entendeu, é preciso voar menos sendo-se "espirituais" dentro de casa ou nos centros e cair na real sendo mais "humanos" lá fora, no sentido de ter humanidade para ajudar aos outros na sociedade como um todo, e para isso é que existe a política. Ser Espírita não é fazer só caridade dando um prato de sopa, mas fazer uma caridade maior eliminando as razões porque alguém precisa de um prato de sopa, e para isso é preciso atuar-se politicamente. Desnecessário dizer-se que, sem eliminar a causa, a pessoa continuará precisando de prato de sopa todos os dias e a caridade menor não resolverá seu problema de uma vez. Ser Espírita não é coletar doações nas campanhas do quilo, mas ser ativista político para eliminar a necessidade de campanhas do quilo.

Texto curto e cirúrgico! Como diz o Krenak, “você economizar água quando toma banho não resolverá o problema de falta de água no mundo, se faz necessário uma ação, uma política, que ajude a resolver o problema de forma mais ampla.” 

Ser espírita é buscar o progresso com a reforma íntima, mas sem se desconectar com o todo. Não ser egoísta achando que a "salvação" é individual.

Espíritas à Esquerda, Novo Movimento

O que fazer?

“O espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização”.

Ou uma proposta inicial para encaminhamentos dos “problemas candentes do nosso movimento”[1].

“Ninguém coloca remendo novo em roupa velha; porque o remendo força o tecido da roupa e o rasgo aumenta. Nem se põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, os odres rebentarão, o vinho derramará e os odres se estragarão. Mas, põe-se vinho novo em odres novos, e assim ambos ficam conservados.”
Jesus, em Mateus, 9, 16-17.

Em editorial recente da página “Espíritas à Esquerda”, publicado no último dia 4 de julho, foi lançada a provocação da necessidade de se constituir um novo movimento espírita. E seu título traduz bem a ideia central proposta: “Por um novo movimento espírita”.

Abaixo, o endereço do texto:

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1058329021228088

Capa meramente ilustrativa
Por um Novo Movimento Espírita

No texto citado, foi dito que o “espiritismo precisa tornar-se popular, falar a linguagem do povo, para que não continue a ser essa tolice diletante que hoje cheira a naftalina nas casas e instituições espíritas sem um real objetivo transformador.” Concluindo-se, então, da seguinte forma:

“Um novo movimento espírita, reinventado, repensado a partir daquilo que hoje é apenas latente dentro das obras espíritas, precisa ser libertado das amarras que intentam conservá-lo impotente dentro duma ortodoxia sem frutos, seca, para que alcance seu propósito precípuo: a transformação do homem e da sociedade em que se vive, porque, afinal, o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização.”

Dando continuidade ao tema, e agora focando no aspecto pragmático da práxis espírita progressista, pretende-se, a partir desse novo editorial, propor alguns caminhos à ação.

Primeiramente, deixar claro que essa proposição de novos caminhos ao movimento espírita tem como orientação precípua, como dito acima, o entendimento que “o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização”. Não se pretende propor apenas reformar o movimento espírita, arejando-o com ideias sociais e interpretações políticas, mantendo sua estrutura burguesa e suas instituições carcomidas, pois isso seria apenas remendar a roupa velha. Mas, a partir da compreensão espiritual e material das relações humanas contida nas obras espíritas, transformar a sociedade, as relações de classes e a exploração do trabalho e do homem.

É preciso um novo movimento espírita que se apresente firme e claramente à luta contra todo tipo de exploração, contra todo tipo de discriminação e contra a precarização das condições materiais de vida. Isso significa que novas instituições, com novas práticas, precisam assumir esse papel essencial para a consecução daquilo que foi proposto como transformação da realidade por Jesus e pelos espíritos que auxiliaram Kardec, porque não será possível fazer isso a partir das instituições que hoje, infelizmente, representam esse movimento espírita inócuo e sem serventia.

A espiritualidade nos torna mais humanos?
Portanto, a primeira proposta colocada a partir dessas reflexões é a organização de novos grupos e instituições que se pautem por uma visão transformadora. Mas não aquela transformação puramente individual, que ignora as relações humanas dialéticas, e sim a visão que compreenda que toda transformação humana passa necessariamente pela mudança radical nas relações sociais, porque, afinal, ninguém é capaz de se autotransformar ignorando as condições do contexto em que se insere.

Esses novos grupos e instituições devem ter como objetivo primacial a construção da estratégia de sua inserção na luta pela superação da cruel realidade social existente. Suas reuniões, estudos, conferências e ação social devem ter esse maior propósito colocado como horizonte, como meta à sua atuação, exemplificando o poder revolucionário da filosofia espírita. Afinal, de que adianta decorar perguntas e respostas de livros e não ser capaz de usar esse tipo de conhecimento para transformar a realidade ao seu redor? E transformar não é apenas dar o pão no momento de fome extrema, que também é importante, mas construir uma sociedade em que mulheres e homens não tenham mais que sentir fome.

Muito se ouve e se lê de espíritas progressistas sobre a necessidade de se ocupar espaços espíritas existentes, numa luta inglória e ineficaz para levar seu discurso aos ouvintes de determinada instituição. Entende-se que essa estratégia não traz os resultados necessários por dois motivos principais: 

Capa meramente ilustrativa
a) o público dessas casas espíritas não interessa ao movimento espírita progressista, pois seu foco deve ser o povo, a classe trabalhadora que precisa, além de justas condições materiais de vida, de consciência social e política e de educação; 

b) as instituições espíritas conservadoras — pois intentam conservar o status quo da realidade — são como roupas velhas, carcomidas, nas quais um remendo qualquer só será capaz de fazê-las rasgar, sem entretanto se as fazer transformar. Seus odres estão velhos e o vinho novo ofertado não terá o condão de os melhorar.

E, indo um pouco além, deve-se abandonar definitivamente tolos escrúpulos e cuidados com as propostas de união ou unificação do movimento espírita. Não interessa a nenhum espírita progressista unificar-se ou unir-se a ninguém para uma luta inconsequente e que não tenha como objetivo claro a transformação da realidade social. Pois se não houver explícito interesse nessa transformação, a omissão pusilânime atuará como resistência a essa proposição, ou seja, “aquele que não está comigo está contra mim; e aquele que comigo não ajunta espalha”[2].

Afinal, não interessa e não basta aos espíritas progressistas apenas compreender a realidade, incluindo-se a condição da imortalidade, mas ser capaz de agir coletivamente para a transformação dessa mesma realidade[3].

Notas:
[1] O título e o subtítulo trazem a clara referência à brochura leninista publicada em 1902 intitulada “Que fazer?: problemas candentes do nosso movimento”, cuja leitura é fortemente recomendada.
[2] Jesus, em Mateus, 12, 30.
[3] Paráfrase da décima-primeira tese sobre Feuerbach, de Karl Marx.

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1073049716422685 

Entreato

Não é possível pensar nas lutas das esquerdas sem a incorporação das lutas identitárias. Querer diminuir a importância desses movimentos dentro do quadro de disputas políticas associadas à esquerda é um grave erro de leitura da realidade, de interpretação da conjuntura social e política do séc. XXI.

Autointitular-se marxista ou socialista com análises da sociedade europeia do séc. XIX é um atestado de incompreensão da base das propostas marxistas e leninistas.

Espíritas à Esquerda, Sabe Com Quem Está Falando?

Os que hoje se recusam a usar máscaras em espaços públicos e a seguir as recomendações de proteção da saúde coletiva sempre estiveram presentes nos diversos grupos sociais: aquele tiozão que jogava a bituca de cigarro pela janela do apartamento e emporcalhava o espaço coletivo do condomínio, a amiga inconsequente que se livrava do papel de bala no piso do transporte público e depois reclamava das baratinhas onipresentes ou o playboyzinho do bairro nobre que estacionava seu carrão nas vagas reservadas e impedia o uso por quem dela necessitava.

Eles sempre existiram. E todos os demais relevavam suas muitas infrações em prol duma convivência minimamente harmoniosa, tentando evitar embates por vezes desgastantes, porque eram justamente esses indivíduos, marcados pela perversão social e pela incapacidade de viver a cidadania, que reagiam de forma virulenta e desrespeitosa ao menor sinal de repreensão de suas inconsequentes atitudes. Quem nunca foi confrontado agressivamente por esse tipo asqueroso de gente ao apontar um desses... "deslizes"?

O advento do bolsonarismo deu a essa estranha gente a liberdade de enfrentar a sociedade civilizada de peito aberto. O tiozão não se satisfaz mais em apenas jogar a bituca do cigarro pela janela, ele agora insulta e berra contra o morador que reclama e ainda faz ameaças físicas e verbais; o jovenzinho de classe média não apenas ocupa a vaga reservada, faz questão de fazê-lo e de menosprezar o fiscal de trânsito que o adverte; e aquela moça que antes apenas emporcalhava as ruas sem nenhum receio agora xinga e arrota sua pretensa superioridade social àqueles que a admoestam.

A famosa "carteirada", sempre tão presente no cotidiano das relações sociais brasileiras, agora se tornou uma instituição: não é apenas o "sabe com quem está falando?", a nova arrogância vem na forma de "Sou engenheiro civil, melhor que você!", de "Fale baixo você, me respeite, rapaz, eu sou vereador!" ou de "Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um bosta. Aqui é Alphaville, mano!".

Sabe com quem está falando?
Sou um Brucutu
Esse comportamento, cacifado pela impostura moral e intelectual do governo federal e de vários governos subnacionais, passou a ser o "novo normal" - usando o clichê pandêmico - nas relações sociais brasileiras. A lógica para tal conduta é alicerçada, na mente deturpada e pouco elaborada dessa gente, no pleno direito à liberdade. A liberdade que é, evidentemente, um valor coletivo e que deve ser compartilhada por todos na sociedade. E seus limites estão postos pelas microrrelações sociais e ambientais em que se insere o cidadão. Isso significa que não se tem a liberdade de matar o outro ou de infectá-lo por meio duma atitude inconsequente. Mas é óbvio que essa gente não é capaz de entender o alcance de tal elucubração.

Esses tipos de postura e justificativa são inaceitáveis quando oriundos de pessoas que se dizem espíritas. Respeitar a coletividade e conviver de forma cidadã é o mínimo que se espera de alguém que leu e bem compreendeu as propostas de amor e fraternidade contidas nos ensinos de Jesus e dos espíritos que auxiliaram Kardec. Ao ver algumas "celebridades" espíritas divulgando mentiras sobre a pandemia e promovendo o desrespeito à saúde alheia, compreende-se com clareza que se autoproclamar espírita, frequentar reuniões mediúnicas ou fazer lastimosas palestras evangélicas não é sinônimo de introjeção dos princípios exarados nas fontes citadas.

Amorosidade e respeito amparados pela reflexão madura e responsável são fundamentos da ação espírita ensinados na famosa máxima contida em "O evangelho segundo o espiritismo":

"Espíritas, amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo!".

Espíritas à Esquerda, 12/07/2020

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1064138280647162&id=136884033372596

Espíritas à Esquerda, O Novo Ministro da Educação e a Face Oculta dos Fundamentalistas

Tudo nesse (des)governo pode piorar. Sempre. E o novo ministro da Educação é a prova inconteste desse descaso absoluto com tudo o que importa nesse país: saúde, educação, infraestrutura, moradia, saneamento etc.

Um fundamentalista homofóbico, misógino e que acredita na violência como processo educacional. Pode-se imaginar Paulo Freire, patrono da educação brasileira, deveras decepcionado com os rumos tomados na educação pela sociedade brasileira.

Por José Barbosa Junior, Revista Fórum

Quando se fala em "fundamentalista" no Brasil, é comum a gente logo imaginar um pentecostal ou neopentecostal bradando nas ruas ou nos programas da TV aberta, e geralmente associamos essa imagem à falta de formação e informação. Isso pode não ser tão verdadeiro quanto pensamos.

Ministro da Educação Weintraub e Bolsonaro falaram isso, juro!
O fundamentalismo como movimento surge na mudança entre os séculos XIX e XX como reação do protestantismo mais conservador (não pentecostal) ao chamado liberalismo teológico, que propunha uma interpretação da Bíblia em diálogo com outras ciências e com base na crítica histórica e literária. Esse movimento de reação lança, então, uma série de documentos chamados "The Fundamentals: a Testimony to the Truth" (daí a alcunha de fundamentalistas), que tem vários alvos dentro do liberalismo teológico e o principal seria a aceitação do darwinismo por parte desses teólogos. Logo, a conclusão que os fundamentalistas chegam é que "ciência boa é a que confirma a Bíblia".

Faz-se necessário e importante entendermos que o negacionismo científico, o racismo "trabalhado hermeneuticamente", a legitimação da escravatura (os primeiros missionários no Brasil eram escravagistas), a homofobia e até, pasme, o sionismo dentro da igreja evangélica (entendem agora as bandeiras de Israel nos protestos?) são construídos ou reforçados por esse movimento fundamentalista. Sem contar o capitalismo, filho direto do calvinismo protestante, logicamente reforçado nesse momento.

É bom lembrar também que uma das principais formas de disseminação desse protestantismo se dá através da… educação! É a época da explosão de escolas e universidades protestantes no Brasil como, por exemplo, os colégios batistas, institutos metodistas e presbiterianos (como a Mackenzie).

Mas, como são mais "discretos" e polidos, como têm um discurso aparentemente dialogal, belo, recatado e do lar, não são tão atacados quanto os neopentecostais, que são apenas a face extremada e midiática daquilo que sempre circulou nos bastidores do conservadorismo evangélico brasileiro.

Portanto, não me espanta que, para agradar a bancada evangélica e a ala conservadora (há muitos não neopentecostais nas bases de apoio ao governo Bolosonaro) o novo Ministro da Educação venha de um dos polos mais fundamentalistas e retrógrados no Brasil, onde, por exemplo, ainda se discute se a mulher pode ou não exercer o pastorado.

E tudo isso com a face polida, branca, aprovada e comprovada no Lattes. É o fundamentalismo em sua mais alta elaboração: a acadêmica.

É o MEC ajoelhado diante da cruz vazia do protestantismo. Neste caso, totalmente vazia. Sem nenhuma alusão ao pobre de Nazaré, assassinado por um sistema religioso fundamentalista aliado ao poder opressor do Estado.

A história, mais uma vez, se repete.

*José Barbosa Junior é teólogo, pastor da Comunidade Cristã da Lapa, escritor, membro do Comitê Estadual de Defesa da diversidade religiosa de MG.

Postagem original:

https://revistaforum.com.br/debates/o-novo-ministro-da-educacao-e-a-face-oculta-dos-fundamentalistas-por-jose-barbosa-junior/

Espíritas à Esquerda, Por um Novo Movimento Espírita

"Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil."
(Mateus, 5, 25 e 26.)

Foto ilustrativa
Uma grande instituição do movimento espírita brasileiro anunciou mais uma de suas palestras sobre temas comportamentais, temas que ocupam a maior parte do seu calendário proposto para as atividades chamadas "doutrinárias". O tema em questão era uma abordagem sobre o distanciamento geracional e recomendações genéricas sobre o comportamento esperado de pais e filhos espíritas.

Primeiramente, apenas para contextualização, o distanciamento geracional é imanente aos grupos sociais desde que o homem se entendeu como tal. E isso é um dos motores que fazem as comunidades transformarem-se. É óbvio que esse aspecto social e evolutivo não foi tratado na palestra citada, porque o objetivo das exposições nas grandes instituições do movimento espírita não é levar seus assistentes à reflexão de seu papel social, mas à pura emoção temporária e à comoção evangélica de pouco resultado transformador.

Palestras, congressos e eventos que abordam apenas o aspecto comportamental do indivíduo são de pouca efetividade, porque não são capazes de mexer com o cerne do problema das relações sociais, que se traduz no imenso abismo existente entre os dramas e necessidades daqueles que são capazes de pagar por um caro evento federativo e aqueles que representam a maioria absoluta do povo que é pauperizada e incapaz sequer de alcançar as propostas daquelas falas impolutas, arrogantes e alienadas da realidade social brasileira.

Ao se falar do perdão, por exemplo, a essa minoria social que frequenta as grandes casas espíritas, em vez de se falar da briga miúda com o vizinho ou da última confusão com o familiar próximo, deve-se ressaltar que o maior problema para se solicitar o perdão por essa parcela diferenciada da sociedade é o privilégio econômico e social. Enquanto essa gente come e dorme nas melhores condições, muita gente passa fome e não tem um abrigo minimamente decente para repousar seu corpo cansado, e a culpa é justamente do sistema econômico perverso que explora o trabalhador e impede seu acesso a melhores condições de vida, mantido a partir dos privilégios da classe economicamente mais abastada. E é importante destacar essa relação para que não se argumente a falta de vínculos entre essas situações.

Isso quer dizer que a culpa pela indignidade nas condições da vida do outro é exatamente o privilégio da minoria. Ao se contratar, por exemplo, um trabalhador doméstico e recusar-lhe direitos e dignidade, está-se cometendo não apenas uma infração legal, mas uma injustiça social e moral que exige não apenas o perdão, mas a reparação. Ao se lutar por uma reforma trabalhista, em nome do lucro e do aumento do faturamento, que expõe o trabalhador a toda sorte de inseguranças, incertezas e problemas sociais, assume-se o lado perverso do indivíduo que precisa ser mais bem trabalhado nos espaços do movimento espírita. Ao se apoiar uma reforma previdenciária, vendo-se nela um mero balanço atuarial e econômico, que joga o velho e o incapaz na miséria social, mostra-se toda a crueldade de pessoas que não trazem em si nenhuma humanidade ou empatia com o outro.

E esses problemas, muito maiores, infinitamente maiores em escala e em conteúdo, merecem um foco comparativamente muito maior nas discussões tratadas nas casas espíritas, porque enquanto essa classe distinta que frequenta as instituições espíritas achar que o perdão, por exemplo, refere-se apenas à última discussão na reunião do condomínio, o espiritismo não estará cumprindo seu papel transformador e revolucionário.

Também é por conta desse tipo de discurso anódino e insosso, sem alcance transformador e que encolhe o tamanho das propostas espíritas, que o movimento espírita não consegue expandir-se e adentrar as classes economicamente mais vulneráveis; e qualquer análise estatística dos dados demográficos nacionais mostra essa triste realidade: os espíritas são privilegiados econômica e socialmente.

O movimento espírita precisa levar o discurso potente e transformador do espiritismo aos mais necessitados. Seu foco precisa ser mudado urgentemente dos problemas superficiais e quase pueris dos abastados para a indigência material e social dos desvalidos. O movimento espírita precisa conversar com os pobres, dialogar com os deserdados, ouvir e falar com os abandonados pela sociedade, e não apenas dar-lhes um pão eventual que apenas sacia a fome de sentido de vida dos exploradores. O espiritismo precisa tornar-se popular, falar a linguagem do povo, para que não continue a ser essa tolice diletante que hoje cheira a naftalina nas casas e instituições espíritas sem um real objetivo transformador.

Um novo movimento espírita, reinventado, repensado a partir daquilo que hoje é apenas latente dentro das obras espíritas, precisa ser libertado das amarras que intentam conservá-lo impotente dentro duma ortodoxia sem frutos, seca, para que alcance seu propósito precípuo: a transformação do homem e da sociedade em que se vive, porque, afinal, o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização.

Afinal, "os sãos não precisam de médicos"...

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1058329021228088

Espíritas à Esquerda, Marxismo

Texto de Mônica Lanes sobre marxismo e espiritismo publicado originalmente na página "Puebla - Espiritismo para o povo".

Marxismo, Espiritismo e o Tempo Presente: Porque "Amar e Mudar as Coisas Me Interessam Mais"

Por Mônica Lanes, Puebla

"Entre eles não havia ninguém necessitado pois todos os que possuíam terras ou vacas vendiam-nas,
traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos apóstolos. E a cada um era distribuído
de acordo com a sua necessidade."
(Atos dos Apóstolos, 34:35)

"[...] o comunismo é simultaneamente a realização do humanismo – apropriação da
essência humana pelo homem."
(Netto, 2015, p. 90)

A conjuntura atual, que conjuga crise do capital e crise sanitária (o coronavírus é, além de um produto do capitalismo, um amplificador de sua crise mais recente), contribuiu para explicitar a dinâmica de funcionamento de nossa sociedade de modo bem didático. Um exemplo claro é que até pouco tempo atrás era muito comum os meios de comunicação e os ideólogos das classes dominantes afirmarem que grande parte dos trabalhadores é desnecessária para o processo produtivo, podendo ser substituídos por maquinários e novas tecnologias. Logo, os lucros que os capitalistas se apropriam, supostamente, não teriam origem no trabalho humano, mas da maquinaria e tecnologia.

Mas a realidade explicitou o contrário. O combate ao vírus exigiu como estratégia para não propagação o isolamento físico, incluindo, obviamente, os trabalhadores. Entretanto, quando isso foi feito, os donos do processo produtivo, em todo mundo, tensionaram o quanto puderam para flexibilizar as regras de isolamento social dos trabalhadores, em favor das grandes empresas, pois, segundo eles, caso o isolamento se mantivesse as economias iriam quebrar, explicitando, assim, que a origem do lucro do patrão está nos braços e mentes dos trabalhadores.

Esse é apenas um dos elementos. Poderíamos citar ainda que nesse contexto a sociedade, para a continuidade da reprodução de vida, precisa de determinados insumos e produtos (alimentos, remédios, utensílios de segurança de saúde e outros), requisitando uma reorganização da produção (reconversão da produção) para atender à demanda urgente da coletividade para assegurar a sobrevivência do maior número possível de pessoas. Mas, a resposta, de um modo geral, não foi essa, uma vez que o objetivo da produção capitalista é o lucro e não a produção para a satisfação das reais necessidades para a reprodução da vida. Além disso há outras questões igualmente urgentes que foram explicitadas nessa conjuntura, tais como os impactos da privatização da saúde, da educação; bem como os impactos da destruição dos direitos trabalhistas, com a crescente uberização do trabalho. Esses elementos deixaram os trabalhadores ainda mais fragilizados para enfrentar as consequências que a pandemia nos colocou.

Essa breve contextualização tem o objetivo de reforçar que a teoria social marxista já descreveu, e há bastante tempo, as categorias e mediações que nos permitem não só conhecer como nossa sociedade está organizada, bem como pensar estratégias para sua superação[1]. Foi partindo dela que pensamos as questões apresentadas acima.

Entendemos, desse modo, que o pensamento marxista é um importante aporte teórico, filosófico e político para pensar nossa realidade, que no caso brasileiro inclui ainda o aprofundamento dos elementos da contrarrevolução preventiva permanente, nos termos de Fernandes (2005). No entanto, entre nós espíritas, mas não só entre nós, a teoria social crítica ainda hoje encontra dificuldades rudimentares em sua apropriação[2], o que é compreensível, pois, a teoria social marxista exige não só estudo, mas, sobretudo, um engajamento para a transformação social, o que demanda posicionamento crítico e político radical. Esse não é lugar fácil e agradável.

Uma das recusas ao pensamento de Marx, na atualidade, entre nós espíritas, tem se dado ou pela questão do materialismo (aqui a palavra materialismo parece assumir mais importância do que o movimento de tentar apreender o real significado dela na teoria social marxista) ou pela crítica que Marx fez à religião, quando ele a classifica como ópio do povo. Nesse artigo trataremos apenas dessa última questão, a primeira ficará para uma próxima oportunidade. Para entender a crítica marxiana à religião em que essa frase aparece é preciso apanhar não só essa afirmativa, por isso reproduziremos o texto mais amplo:

"[...] A religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica em forma popular, seu 'point d’honneur' espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua base geral de consolação e de justificação. Ela é realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui uma realidade verdadeira. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião. A miséria constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. Ela é o ópio do povo. A supressão ['Aufhebung'] da religião como felicidade ilusória do povo é a exigência da sua felicidade real. A exigência de que abandonem as ilusões acerca de sua condição é a exigência de que abandonem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, pois, em germe, a crítica do vale de lágrimas, cuja auréola é a religião. A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem suporte grilhões desprovidos de fantasia ou consolo, mas para que se desvencilhe deles e a flor viva e desabroche. A crítica da religião desengana o homem a fim de que um homem desenganado, que chegou à razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo, em torno de seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não gira em torno de si mesmo. Portanto, a tarefa da história, depois de desaparecido o além da verdade, é estabelecer a verdade do aquém. A tarefa imediata da filosofia, que está a serviço da história, é, depois de desmascarada a forma sagrada da autoalienação ['Selbstenfremdung'] humana, desmascarar a autoalienação nas suas formas não sagradas. A crítica do céu transforma-se, assim, na crítica da terra, a crítica da religião, na crítica do direito, a crítica da teologia, na crítica política." (MARX, 2013, p. 151-152).

A citação é extensa, mas é necessária para tratarmos de alguns elementos importantes que pretendemos olhar um pouco mais de perto. Não se trata de uma análise ampla de quais são os objetivos de Marx nesse texto, nem tão pouco de sua metodologia. Trabalharemos essa citação apenas para atender aos objetivos desse texto.

O primeiro ponto que destacamos é que apesar de aparecer várias vezes a palavra religião, o autor não está fazendo apenas uma crítica à religião, mas o seu objetivo principal é a crítica às formas de ideologia[3] presentes na sociedade burguesa, e dentre elas a religião, pelo menos às formas de religião que se apresentaram historicamente até aquele momento. Cabe aqui uma primeira questão: O espiritismo é uma religião (no sentido tradicional e da forma como historicamente foram construídas as religiões)? Ou o espiritismo seria um meio de conexão, ou de reconexão, com o divino, o sagrado, o espiritual? Não aprofundaremos o tema aqui, para tal feito sugerimos a leitura do artigo "Política e espiritismo: perspectivas da regeneração e o difícil parto civilizatório" de Raphael Faé. Acreditamos que esse é um debate que cedo ou tarde precisaremos enfrentar, isso se quisermos superar alguns limites que nos impedem de avançar enquanto filosofia e ciência.

Relembramos, ainda, que Kardec também se posicionou contrário à alguns posicionamentos da religião de sua época, inclusive vivenciou alguns enfrentamentos diretos com a Igreja Católica. Um desses posicionamentos resultou na negação da máxima católica que afirmava que fora da Igreja não há salvação, para afirmar que fora da caridade não há salvação. Hoje, entre os espíritas progressistas, já existe um movimento de superação dessa afirmativa por outra que melhor atende ao nosso tempo: fora da justiça social não há salvação, e quem sabe em futuro breve não cunhemos outra.

O segundo aspecto que destacaremos na citação é o duplo caráter, ou o caráter dialético, com que Marx trata da religião. Ao contrário do que o senso comum afirma, o autor não está dizendo que religião é apenas o ópio do povo, mas, sim, que ela é também o ópio do povo. Ela é e não é ao mesmo tempo[4], e essa interpretação faz toda diferença. Quando ele afirma, em uma linguagem extremamente poética, que a religião é simultaneamente expressão da miséria real e o protesto contra essa miséria, o suspiro da criatura oprimida, ele está demonstrando que a religião pode assumir uma forma ideológica, logo de opressão, como historicamente foi e é, mas também pode assumir, contraditoriamente, a forma de protesto e lutas em favor e ao lado dos oprimidos e explorados, como a história também demonstra[5]. Importante lembrar aqui que apesar de Marx e outros pensadores e militantes da tradição marxista serem ateus eles, em sua maioria, não se recusaram a lutar lado a lado dos religiosos[6], o que nos leva a pensar que talvez alguns espíritas sejam mais dogmáticos do eles supõem.

Ser opressora ou libertadora não é algo já dado de imediato ou predeterminadamente, é parte do processo de luta de classes, ou seja, é preciso disputar a religião também como um campo progressista, como campo que faz a opção e defesa da classe trabalhadora e de seus interesses. Não a disputar pode significar não só perder espaço para reacionarismo que se espraia e enraíza no campo religioso, mas também, perder a oportunidade de ganhar corações e mentes para a transformação da sociedade, contribuindo para a manutenção das formas de opressão e exploração.

Corpo, alma e espírito
O terceiro elemento se conecta diretamente com o primeiro. Quando Marx afirma que a religião é apenas o sol ilusório que gira em torno do ser social, enquanto o ser social não gira em torno de si mesmo, ele abre o caminho para analisarmos o aspecto que diz respeito à nossa relação com Deus (o divino, o sagrado, a divindade), sobre a possibilidade e a necessidade de realizarmos essa conexão direta com ele.

Esse é um pressuposto que é apresentado por Jesus, quando afirma que "quando orardes, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê um lugar oculto, recompensar-te-á" (Mateus, 6:6). Aqui Jesus está propondo algo inteiramente inovador para sua época, ele está indicando que entre cada um de nós e Deus não é necessário o rabino, o padre, o pastor, o médium ou qualquer outra liderança, ou seja, que não há necessidade de instituições para intermediar nossa relação com o sagrado[7], democratizando ao máximo nossa relação com o divino.

Em nosso entendimento essa interpretação também foi apropriada pelo espiritismo. Esses temas estão presentes em "O livro do espíritos", especialmente quando aborda a questão da adoração, particularmente na questão 656 que trata sobre a adoração individual. Mas, não está, em nosso ponto de vista, restrita a "O livro dos espíritos", mas é parte de uma proposta original cujo objetivo principal é o estudo e a pesquisa.

Podemos dizer assim, que o espiritismo em sua origem, buscou essa aproximação da religião que se aproximava mais dessa relação democratizada com o sagrado, e que se distanciava desse sol ilusório que a religião pode ser, como apontado por Marx. Entretanto, esse processo está no campo de lutas de classes (que é dinâmica e contraditória)[8], logo ainda está em disputa.

Sátira
Após esses breves apontamentos, sem nenhuma pretensão de tratar integralmente da temática, ainda pode ficar a questão: Por que a interlocução científica e filosófica entre marxismo e espiritismo é importante e necessária em nosso tempo? Poderia responder de várias formas. A primeira delas seria apontar que ambos têm o mesmo objetivo final, o mesmo horizonte: transformar a sociedade. E não se trata de uma transformação qualquer, ambos almejam uma transformação substancial e radical, em que a vida (em sua totalidade), a liberdade, a justiça sejam os valores mais importantes. Se temos os mesmos objetivos por que não lutarmos juntos?

Em segundo lugar poderíamos reafirmar que se Marx sozinho não explica a nossa realidade contemporânea[9], tampouco sem ele seremos capazes de entender e transformar o real em nosso tempo. Como apontamos no início desse artigo a teoria social marxista nos ofereceu ao longo da história, e ainda oferece, categorias e mediações para entender e transformar o real. Não sem razão ainda as debatemos, questionamos, verificamos suas validades, e as reafirmamos.

Mas prefiro me valer da resposta dada por Marta Harnecker que quando questionada sobre a relação entre cristianismo e marxismo disse: "Eu sempre disse que existe algo em comum entre o cristianismo e o marxismo; e é que o cristianismo te orienta a amar as pessoas, e o marxismo te dá os instrumentos para que esse amor seja realidade; transforme as circunstâncias, transforme a sociedade, para que o amor possa ser real"[10], o que significaria dizer que o marxismo é o instrumento de luta para construção de uma sociedade em que seja possível amar de fato.

Só um movimento com disposição para amar de fato (um amor que nos conecte ao humano genérico[11]), e, justamente por isso, que tenha os pés fincados em uma ciência e uma filosofia comprometidas com a superação da exploração e opressão será capaz de contribuir para transformar a sociedade. Belchior em sua música "Alucinação" fala que amar e mudar as coisas lhe interessam mais. Nós tomamos emprestado a ideia dele para dizer que é porque amamos que devemos lutar para transformar a sociedade (mudar as coisas), pois só assim poderemos amar por inteiro.

"Mas é nelas (bocas, mãos, sonhos, greves e denúncias) que te vejo pulsando, mundo novo, ainda que em estado de soluços e esperança."
Ferreira Gullar

Referências:

BATISTA, Raphael Faé. Política e espiritismo: perspectivas da regeneração e o difícil parto civilizatório, 2020. [No prelo].

FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de interpretação sociológica. 5 ed. São Paulo: Globo, 2006.

HARNECKER, Marta. Diálogo com Marta Harnecker: 45 anos do golpe no Chile e seus ensinamentos [Entrevista cedida à Vivian Fernandes]. Jornal Brasil de Fato. São Paulo: 13 de setembro de 2018. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2019/06/15/morre-aos-82-anos-a-educadora-marxista-chilena-marta-harnecker. Acesso realizado no dia 01/06/2020.

IASI, Mauro L. Ensaios sobre consciência e emancipação. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Herculano Pires. 66ª ed. São Paulo: Lake, 2006.

LUXEMBURGO, Rosa. O socialismo e as igrejas. [1905]. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/luxemburgo/1905/mes/igrejas.htm

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. ENDERLE, Rubens; DEUS, Leonardo de (Trad.). 3ª Ed. São Paulo: Boitempo, 2013.
_______. Cadernos de Paris e manuscritos econômico-filosóficos de 1844 de Karl Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo. Expressão Popular, 2009.
NETTO, José Paulo. Apresentação: Marx em Paris. In:____ Cadernos de Paris e manuscritos econômico-filosóficos de 1844 de Karl Marx. São Paulo: Expressão Popular, 2015, p. 09-181.

Notas:

[1] Talvez aqui esteja o grande diferencial entre a teoria social marxista e as demais teorias. A proposta do pensamento marxista não é apenas conhecer a gênese, dinâmica e funcionamento da sociedade burguesa, mas, é de conhecer para transformar. Outras teorias podem apresentar elementos importantes para entender a organização de nossa sociedade, mas poucas se propõem a transformá-la.

[2] É preciso registrar, no entanto, que o diálogo entre o pensamento espírita e o pensamento marxista não é recente. No Brasil e na América Latina vários pesquisadores e pensadores buscaram essa interlocução, especialmente nos anos 1960. Como todo processo de construção de pensamento científico, é necessário contextualizar e submeter à crítica também essa produção, com vistas a construir um pensamento que seja capaz de responder ao nosso tempo presente.

[3] Partilhamos do entendimento de que ideologia não é uma interpretação do real, mas é parte do processo em que a classe dominante, em uma sociedade de classes, utiliza de mecanismos para ocultar, naturalizar, inverter, justificar o real a seu favor (lembrando que nas formas ideológicas também podem existir uma dimensão do real) e apresentar como interesse universal os seus interesses particulares. Por isso Marx afirma que as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Importante ressaltar ainda que concordamos com Iasi (2007, p. 20-21), quando ele afirma que a "ideologia não pode ser compreendida apenas como um conjunto de ideias que, pelos mais diferentes meios (meios de comunicação de massas, escolas, igrejas etc.), são introduzidas na cabeça dos indivíduos. Isso levaria ao equívoco de conceber uma ação anti-ideológica como a simples troca de velhas por ‘novas’ ideias. Quando, numa sociedade de classes, uma delas detém os meios de produção, tende a deter também os meios para universalizar sua visão de mundo e suas justificativas ideológicas a respeito das relações sociais de produção que garantem sua dominação econômica [...]". Apreender que ideologia não é apenas um conjunto de ideias nos aproxima do entendimento de que a superação da ordem burguesa requisita disputar não só as esferas da educação ou o campo das ideias, uma vez que ideologia tem base na materialidade da reprodução da vida, logo é preciso destruir as bases materiais que reproduzem a ideologia.

[4] Um dos elementos fundamenteis do pensamento marxiano é a dialética, ou o materialismo dialético, ou ainda o materialismo histórico-dialético. Esse é um tema muito complexo, que certamente não cabe em uma nota de rodapé, mas podemos sinteticamente dizer que a categoria contradição é extremamente importante para compreender a dialética marxiana, que afirma que um fenômeno pode ser e não ser ao mesmo tempo. Pensando no campo religioso, que estamos observando no momento, se olharmos para determinadas organizações religiosas hoje veremos apenas reacionarismos, conservadorismo, e alguns casos roubo, pilhagem e violência. Mas, contraditoriamente, há também em nosso tempo diversas organizações religiosas que se colocam e que fazem o esforço para permanecer no campo progressista, e alguns são declaradamente de esquerda. Isso não quer dizer, contudo, relativismos, mas reconhecer as dimensões contraditórias de um mesmo fenômeno na realidade concreta.

[5] Há vários exemplos das experiências históricas, citamos apenas algumas para ilustrar: Ação Operária Católica; Revolta de Canudos; o movimento da Teologia da Libertação, que inclusive inspirou algumas guerrilhas na América Latina.

[6] Existem diversos documentos, de vários marxistas, em que esse ponto fica evidente. Destacaremos aqui apenas o de Rosa Luxemburgo no texto "O socialismo e as igrejas", de 1905: "Todo homem pode ter aquela fé e aquelas opiniões que lhe pareçam capazes de assegurar a felicidade. Ninguém tem o direito de perseguir ou atacar a opinião religiosa particular dos outros. Isto é o que os socialistas pensam. E é por esta razão, entre outras, que os socialistas animam todo o povo a lutar contra o regime czarista, que está continuamente a violentar a consciência das pessoas, perseguindo católicos, católicos russos, judeus heréticos e livres pensadores [...]".

Isso é inadmissível num mundo afluente como o nosso...
[7] O Pastor Henrique Vieira aprofunda essas e outras questões sobre Jesus no vídeo "Fé, amor e revolução", disponível nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=Kr5ju9XbNps.

[8] Não temos condições de desenvolver a questão aqui, mas é importante ressaltar que os movimentos espiritas, seja como campo religioso, ou como organização social, não pairam acima da sociedade. Eles são parte da sociedade e como tal estão sujeitos às mesmas legalidades tendenciais que a organizam, incluindo a luta de classes. Negá-la não elimina sua existência.

[9] Dentro da própria tradição marxista há diversos pesquisadoras e pesquisadores que se propuseram a pensar categorias que Marx, por questões objetivas, não pôde tratar. Na América Latina, por exemplo, há algumas escolas de pensamento que partindo do pensamento marxista buscam pensar a realidade latino-americana, com intuito de transformação radical da sociedade.

[10] Entrevista reproduzida no Jornal "Brasil de Fato" disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2019/06/15/morre-aos-82-anos-a-educadora-marxista-chilena-marta-harnecker

[11] Entendemos que a generidade, ou a essência, do ser social, ou seja, aquilo que há em comum entre os seres sociais, se dá na reprodução da vida. Logo, ela não existe em abstrato, mas é na objetivação da vida (intelectual e operativamente) que nos reconheceremos como humano genérico. Ver mais em: Marx (2015).

Publicação original:

https://www.puebla.com.br/post/marxismo-espiritismo-e-o-tempo-presente-porque-amar-e-mudar-as-coisas-me-interessam-mais

RESUMO DA ÓPERA

O mundo antes da pandemia...
O Espiritismo tem tudo para amparar e guiar o mundo pos-pandemia.

O Espiritismo visa a transformação do homem e da sociedade em que vive porque trata-se de uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização.

Poderosa porque explica e refaz conceitos como o da morte e do sofrimento aliviando as pessoas de seus traumas e revoltas e conscientizando-as de seus valores ligados aos outros.

Máxima contida em "O evangelho segundo o espiritismo": "Espíritas, amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo!".

O mundo pos-pandemia...
O movimento espírita precisa conversar com os pobres, dialogar com os deserdados, ouvir e falar com os abandonados pela sociedade, e não apenas dar-lhes um pão eventual que apenas sacia a fome de sentido de vida dos exploradores. O espiritismo precisa tornar-se popular, falar a linguagem do povo, para que não continue a ser essa tolice diletante que hoje cheira a naftalina nas casas e instituições espíritas sem um real objetivo transformador.

Espiritismo não é religião, é filosofia e ciência.