domingo, 14 de março de 2021

O Encantado

O Brasil não é para amadores. Sua cultura é absolutamente complexa. Começa com este texto que navega pela cultura negra brasileira, que apesar dos esforços dos militantes raciais ao longo de décadas, a começar pelos artistas negros, ainda não consegue dominar o país como cultura principal dado o percentual altíssimo de negros na população do Brasil.

A cultura do Brasil, infelizmente, possui muitos vícios terríveis ao ponto de desgraçarem o país, como está acontecendo agora. Não interessa a classe social do brasileiro, não interessa onde está morando, se dentro do país ou no exterior, não interessa o nível educacional, se superior, PHD ou analfabeto, todos, absolutamente todos, compartilham destes mesmos vícios horripilantes que chocam certos estrangeiros mais eruditos.

Este vídeo do canal Meteoro, com 3:45 minutos, explica mais ou menos o que significa o complexo de vira-latas que todo brasileiro carrega durante sua vida.

Trata-se de um país transbordante de tradições culturais e riquíssimo em todas as áreas que você nomear, tão rico que esta mentalidade de destruição ainda não conseguiu sequer riscá-la, quanto mais ameaçá-la, e por isso os competidores internacionais vivem de olho neste país e se apavoram com sua possível ascensão mundial, como estava acontecendo nos anos em que o partido dos trabalhadores, o PT, esteve no poder por quatro mandatos populares consecutivos, em liderança na América Latina para a qual serviu de exemplo, e agora acontece ao contrário, a América Latina dá lições muito sérias ao Brasil. Não se trata do ciclo político que se reveza entre a esquerda e a direita, trata-se de imbecilidade mesmo, de suas classes dominantes, principalmente.

Eu não recomendo que você venha aqui, querido estrangeiro, a não ser que você esteja odiando seu país de origem e queira ver como seria de outro jeito, pra voltar correndo para lá, porque o Brasil não é para amadores. São muitos os lances, as excessões, as culturas entranhadas, que não dá para dominar com facilidade sem ter-se nascido no seio desta população calejada de tanta indignidade, perseguição e desprezo.

Mas no Brasil tem coisas boas, e pessoas boas, e uma delas é o ex-presidente Lula, hoje praticamente um herói mundial, que recentemente recebeu seus direitos políticos depois de libertado de uma prisão política que durou 580 dias por crimes que não existiram, e provas que não apareceram, por um sistema judiciário dos mais corruptos do mundo, que agora tenta se re-erguer das cinzas e devastação que provocou os vazamentos de conversas por um simples hacker que também foi preso por um período.

Mas vamos ao texto cultural mais leve que dá um panorama do que é parte da cultura brasileira, mas que às vezes parece uma cultura alienígena não-branca e descendente de européia, como tantos se jactam de se orgulhar. Este texto é inspirado no impacto mundial do discurso que o ex-presidente Lula proferiu no dia seguinte em que seus processos foram anulados pelo Ministro Juiz Edson Fachin do STF - Supremo Tribunal Federal - no dia da Mulher, 08/03/2021. Ao invés de exilar-se, Lula permitiu-se ser preso porque queria provar que era inocente e ver toda a artimanha da corrupção exposta, o que incluiu a imprensa livre hegemônica, e para isso nomeou um livro lançado a seu respeito como "Lula: A Verdade Vencerá". No momento Lula está em vias de conseguir esse reconhecimento nacional e internacional.

Lula, o Encantado

O Lula deve ser alguma espécie de entidade, um Exu! 

Um encantado como dizia Jorge Amado. Um Exu daqueles danado e desconcertante de pé, na encruzilhada da história. Carrega com ele a própria dualidade, ou se ama ou se odeia! 

Ao mesmo tempo que consegue sentar ao lado de intelectuais e debater os problemas da sociedade, daqui a pouco está varando os sertões nordestinos feito um Corisco. No palanque transforma-se num Uirapuru, todos fazem silêncio para ouví-lo! Feito as flexas de Oxóssi, suas palavras são certeiras e ferem a hipocrisia, por isso é odiado. 

Mas esse Lula também tem Oxum, consegue embalar os sonhos de muita gente na beira do Rio São Francisco. Sonhos sonhados desde o império! Trás ouro em forma de programas sociais que transformam uma lamparina em algo incandescente que ilumina os quintais, trás luz para todos. Trás de volta um João Cândido altivo, que reivindica mais uma vez as águas de Iemanjá. 

Esse Exu Lula é danado de mais! Ao invés de whisky prefere marafo! Ao invés de valsa prefere ouvir as músicas de seu conterrâneo lá de Exu de Pernambuco! Mas esse Lula, também como Ogum e Yansan, gosta de combate, foi assim nas greves do ABC, está sendo assim encarcerado. Ele também tem um jeito de Oxalá velho, anda devagar e tranquilo, ciente da sua própria história, não precisa impor a sua antiguidade. 

É respeitado pelo mundo inteiro. Esse Lula tem um pouco de Xangô, fez justiça para a própria justiça! Mas a balança da justiça, como sabemos, às vezes pende para o lado errado. Mas o Lula é um Exu, ele é o próprio movimento e atemporal! Ele está encarcerado e ao mesmo tempo não está! Está nos muros, nos cartazes e na boca do povo que acende uma fogueira num acampamento. 

Como um ebó, está assentado num tijolo das muitas universidades que mandou construir ou num caderno de uma criança que mandou para escola. Esse Exu barbudo que é o Lula está esperando baixar nesse imenso terreiro vermelho que vai se transformando o Brasil. Talvez por isso alguns estão amarelos de medo, medo da entidade Lula, medo do Exu Lula. Saravá velho caboclo, saravá Lula.

TEXTO DO OGAN FLÁVIO DE IYÉMÓNJÁ

Observação: Quando este texto foi escrito, Lula ainda estava preso politicamente na Polícia Federal de Curitiba, mas o texto não perdeu a essência e merece ser compartilhado. Lula continua mostrando, dia após dia, quem ele é, uma entidade, um Exu guerreiro, um encantado, um pássaro que todos se calam para ouví-lo e vê-lo voar, uma luz que enche a vida do povo de esperança. 

https://jornalggn.com.br/cronica/lula-o-encantado-por-ogan-flavio-de-iyemonja/

Agora vejam até que ponto chega a imbecilidade das vulgo mais inteligentes cabeças do Brasil enfronhadas no sistema mais importante que um país pode ter, o sistema jurídico, zelador da moral e que julga os crimes para erradicá-los. Em tempo, é bom lembrar que "Lava Jato" é o nome de uma operação da Polícia Federal inventada para erradicar a corrupção no meio político brasileiro, e que hoje se mostra como sendo o pior caso de corrupção do planeta, fonte de estudos internacionais por muitas décadas no porvir.

Lava Jato Investiga Se Lula Roubou Cristo, vídeo de 11:08 minutos do canal Meteoro:

https://www.youtube.com/watch?v=KMFQKYhUZhI

Discurso antológico de Lula após poder tornar-se candidato de novo à presidência da república, se não forem inventadas outras estratégias políticas para tentar-se detê-lo como se tem conseguido com apoio de corruptores internacionais, 

Veja os melhores momentos do discurso do ex-presidente Lula em vídeo com 20:24 minutos pelo Brasil de Fato:

https://www.youtube.com/watch?v=JcLFNYO_kQ4

Ou veja o discurso de Lula completo em vídeo de 2:40:48 horas:

https://www.youtube.com/watch?v=S7mBgWMdBI0

O que o mundo está falando:

https://www.brasil247.com/midia/guardian-new-york-times-financial-times-imprensa-internacional-repercute-anulacao-dos-processos-contra-lula Guardian, New York Times, Financial Times, imprensa internacional repercute anulação dos processos contra Lula

https://www.brasil247.com/midia/the-economist-destaca-lula-pode-concorrer-novamente-em-2022-rhtbkky8 The Economist destaca Lula pode concorrer novamente em 2022

https://www.brasil247.com/tanostrends/personalidades-reagem-a-entrevista-de-lula-faz-discurso-de-estadista-e-de-candidato-que-vai-dar-trabalho Personalidades reagem a entrevista de Lula que faz discurso de estadista e de candidato que vai dar trabalho

https://www.theguardian.com/world/2021/mar/08/lula-convictions-annulled-by-brazil-judge-bolsonaro-election-2022 Brasil: Lula tem condenações anuladas, o que o deixa livre para desafiar Bolsonaro

https://www.nytimes.com/2021/03/08/world/americas/brazil-lula-supreme-court.html O ex-presidente Lula do Brasil pode concorrer a um cargo novamente uma vez que seus processos judiciais são arquivados

https://www.ft.com/content/84648ae0-9e19-442d-9c61-1a40f5067670 Lula da Silva’s return poses challenge to Bolsonaro in Brazil

https://www.ft.com/content/2b57edb8-1e4a-4a0a-b4e6-6b3ecfe0669b Brazil’s Lula da Silva returns to political fray with Bolsonaro attack

https://www.ft.com/content/90556eda-a658-4849-be51-fff7c0a99a23 The unhappy consequences of Lula’s return


The Guardian, Inglaterra
O ex-presidente trucida a resposta ‘cretina’ de Bolsonaro à Covid em sua primeira aparição na ‘volta’

Le Monde, França
Lula fustiga as "decisões tolas" tomadas por Jair Bolsonaro na Covid-19 

El País, Espanha
Lula volta à cena política contra Bolsonaro

Público, Portugal
"A verdade prevaleceu”, diz Lula sobre a anulação das suas condenações. | bit.ly/2N6hqgX | bit.ly/3rEDiiu

Diário de Notícias, Portugal
Lula da Silva. "Vou dedicar o resto da minha vida a este país"| bit.ly/3t9j14Z

Alexandre Bandeira, entrevista (RFI, França)
“Sergio Moro foi o principal derrotado com anulação da condenação de Lula” | bit.ly/3crThua

Le Monde, editorial (Le Monde, França)
“Os novos desafios de Lula no Brasil” | bit.ly/3qCZ8BV

Il Messaggero, Itália
Brasil, Lula agradece ao Papa Francisco pelo apoio: "por enquanto, não penso em candidatar-me" | bit.ly/3eGBmTh

Expresso, Portugal
“Não tenham medo de mim”: Lula falou ao Brasil | bit.ly/3qCZ8Sr

El Diário, Espanha
Lula volta com política nas veias e na mente nas eleições de 2022 | bit.ly/3l5BNaI

El Diário, Espanha
Lula: “Sei que fui vítima da maior mentira jurídica dos últimos 500 anos” bit.ly/3rEvvkH

El Diário, Espanha
Lula evita manifestar-se sobre suas aspirações presidenciais | bit.ly/3l4rnYM

La Vanguardia, Espanha
Lula entra em campanha sem confirmar se aparecerá nas eleições presidenciais | bit.ly/3esYSTr

Deutsche Welle-en, Alemanha
Lula do Brasil detona as políticas 'imbecis' de Bolsonaro para a Covid-19 | bit.ly/3qBWmN2

Euronews, Portugal
Lula não se compromete com 2022 | bit.ly/2OpSLod

Zeitonline, Alemanha
Supremo tribunal anula sentenças contra ex-chefe de Estado brasileiro | bit.ly/30xuWNR

The Independent, Inglaterra
Brasil 'Lula' critica duramente Bolsonaro, evita comentar sobre nova corrida presidencial | bit.ly/3bDH8TH

Morning Star, Reino Unido
O regime de direita do Brasil teme popularidade de Lula | bit.ly/3eo8Qpc

Le Figaro, França
Lula pronto para desafiar Bolsonaro em 2022 | bit.ly/3cl2291

RFI, França
"Não sigam nenhuma decisão imbecil deste presidente: tomem vacina", diz Lula | bit.ly/3t9j1lv

El Periódico, Espanha
Lula: “Sei que fui vítima da maior mentira jurídica dos últimos 500 anos” | bit.ly/3vhoYi4

El Periódico, Espanha
O árduo regresso de 'Lula' | bit.ly/3ldarPZ

Jornal de Notícias, Portugal
Lula da Silva: "A dor que sinto não é nada diante da dor de milhões" com a covid. | bit.ly/3v91ETT

El Mundo, Espanha; ABC, Espanha
Lula da Silva diz ter sido vítima de "mentira jurídica" | bit.ly/3qCZc4D | bit.ly/3bByghp

Financial Times, Inglaterra
Lula da Silva do Brasil retorna à luta política com ataque a Bolsonaro | on.ft.com/3l5FrBg

Les Echos, França
De volta à cena brasileira, Lula joga na polarização contra o Bolsonaro | bit.ly/3eu6VPO

Corriere della Sera, Itália
O retorno de Lula: "vítima de uma grande mentira, agora vamos nos unir contra o Bolsonaro" | bit.ly/3qCZdpd

Le Nouvel Observateur, França
Brasil: Lula faz campanha contra o Bolsonaro, mas ainda não é candidato | bit.ly/30uM1bg

The Times, Inglaterra
Lula, o herói da esquerda brasileira, está de volta para desafiar Bolsonaro | bit.ly/3qCZecL

Le Soir, Bélgica
Brasil: retorno inesperado de Lula à arena política | bit.ly/38uFeCB

The Irish Times, Irlanda
Lula retorna à luta política do Brasil com ataque Bolsonaro | bit.ly/38vx3pG

Tribune de Genève, Suíça
Lula, uma reviravolta sem precedentes e devastadora | bit.ly/2ONICSo

Spiegel International, Alemanha
Ex-presidente Lula chama a política de Bolsonaro contra a pandemia de "insana" | bit.ly/3ryn5eN

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Depois do Cansaço

Minha nossa, o tempo passou e eu não vi, entretido com meu trabalho voluntário aqui no Brasil. Mas não seja por isso, é hora de se divertir. Então, vai aqui os dois vídeos do The Voice Austrália de 2020 que não assistimos. Achei estes vídeos para mostrar para uma amiga que não conhecia o programa versão australiana, a propósito de uma versão portuguêsa que ela havia postado, a qual achei similar à versão brasileira no exagero dos jurados. Falei pra ela que na Austrália os jurados são mais educados, discretos e têm classe, e então fiquei com saudades de lá. Será que é isso mesmo?

Então vamos lá, nos divertir... com classe. Melhores momentos de 2020 das audições às cegas, parte 1 e 2.

The Voice Australia 2020: Best Blind Auditions & Moments | PART 1, 22:09 Min

https://www.youtube.com/watch?v=Tq46EgnCM_o

The Voice Australia 2020: Best Blind Auditions & Moments | PART 2, 28:59 Min 

https://www.youtube.com/watch?v=8duk0TLw5rU

“Quando semeava, uma parte das sementes caiu à beira do caminho... outra entre as pedras... outra parte caiu no meio dos espinhos... outra caiu em terra boa e deu frutos”. Jesus Cristo

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Espiritismo e Reformas Sociais

Desde criança aprendi com meus pais Espíritas que devia respeitar as pessoas, e assim cresci, respeitando também os animais e a natureza, tudo o que era vivo. E ainda as propriedades privadas, os trabalhos artísticos, e a sociedade como um todo, por extensão. Era como se tudo fosse perfeito, mas não era. A parte da sociedade não era.

Nada mais natural para mim do que fazer o bem para todos, e incorporar na minha vida e no meu comportamento tudo o que aprendera com meus pais. Só teve um problema. Meus pais não eram politizados, então eu cresci coxinha. Assimilei todos os valores coxinhas, exceto os valores maus. Amar os Estados Unidos, por exemplo, não parecia mal porque eu não sabia o mal que aquele país havia feito ao Brasil. Passaria muitos anos para descobrir isso, e meus pais jamais descobririam, apesar de toda a inteligência deles. Não posso culpá-los, cada um vive na bolha que criou ou foi criada em volta. Cabe a nós, cada um, procurar aprender mais e descobrir que vivemos numa bolha, a fim de expandirmos nossos horizontes intelectuais.

E foi assim que passei de coxinha a militante de esquerda. Sempre recusei esta palavra, "esquerda", porque ela compartimentaliza, mas sou obrigado a admitir este lado por pressão das outras pessoas, principalmente dos militantes mais antigos. Pois se querem, sou de esquerda, não tem problema. Na realidade prefiro ser de centro que é para abranger os dois lados e suas nuances, mas infelizmente ser de centro no Brasil não ajuda, é o mesmo que ser de direita ou pior, extrema-direita. O centro não existe, ele ora pende para um lado, ora para outro, confome os interesses.

Porém, nunca me afastei dos princípios do Espiritismo que aprendi, embora eu tenha me afastado das instituiçõe espíritas por muitos anos, porque sempre alguma coisa não batia bem. Demorei para descobrir que todos os Espíritas que eu conhecia eram de direita, o que não podia ser. Alguma coisa estava errada. Descobri o que era, e comigo, uma pá de outros dissidentes mais sensatos e coerentes. E estas pessoas se juntaram e começaram a atuar para realmente fazer valer os princípios do Espiritismo, de acordo com os ensinamentos, e principalmente em coerência com tudo o que é ensinado.

Este texto a seguir é mais um dos argumentos que estes novos Espíritas estão tentando divulgar a fim de fazer as pessoas pensarem, principalmente na reconstrução do mundo depois da pandemia do novo virus COVID-19.

Carta de Allan Kardec a Louis Jourdan

Enviado em 22/07/2019

As cartas manuscritas inéditas de Allan Kardec são os rascunhos, escritos de próprio punho, para que, depois de copiadas, fossem enviadas aos destinatários. Recebia a ajuda de secretários e da sua esposa, Amélie Boudet. Ele registrava as cartas recebidas e arquivava com os rascunhos, formando os arquivos do Espiritismo.

Projeto Allan Kardec

Os arquivos foram queimados pelos inimigos, que queriam desviar o Espiritismo de sua proposta original. Todavia, a seleção feita por Kardec para contar a história por fatos escapou dos ataques, e chegou ao Brasil, graças aos esforços do pesquisador Canuto Abreu. Atualmente os manuscritos estão sendo preservados, digitalizados e serão disponibilizados ao público num portal da internet, pela equipe do CDOR (Centro de Documentação e Obras Raras da FEAL – Fundação Espírita André Luiz). O trabalho de tradução está sendo feito por uma equipe internacional de acadêmicos e tradutores profissionais. As cartas disponibilizadas em virtude do livro Autonomia, A História Jamais Contada do Espiritismo, são acompanhadas de transcrição, tradução e comentários originais elaborados por Canuto Abreu, com a finalidade de documentar a obra. Todos esses documentos receberão uma revisão da equipe acadêmica, para que, catalogadas, sejam oportunamente disponibilizadas em definitivo no Projeto Allan Kardec. 

Numa das cartas, Kardec informou que recebia de sete a oito mil cartas por ano. Uma imensa quantidade de correspondência! Ele não conseguia responder a todas, mas, como podemos conhecer na obra Autonomia, A História Jamais Contada do Espiritismo, ele respondia regularmente as pessoas em dificuldade, que pediam o auxílio da Doutrina Espírita, na pessoa de Allan Kardec. Ele respondia especialmente a cada um, levando à reflexão para compreender o verdadeiro sentido da vida segundo o ensinamento dos espíritos superiores.

Como foi apresentado na obra Autonomia, A História Jamais Contada do Espiritismo, Allan Kardec estava atento a todo esforço social em torno das ideias progressistas, promotoras da solidariedade para o surgimento de um mundo novo. Havia uma imprensa francesa francamente dedicada a esse propósito. Um dos expoentes mais aclamados em Paris, nos tempos de Kardec, era o jornalista Louis Jourdan.

Todos os ingredientes do Espiritualismo Racional e ação social defendidos por Jourdan e seus pares estão presentes nessa síntese excelente de Allan Kardec.

Allan Kardec vai receber uma carta de Louis Jourdan em resposta aos seus apelos. Dias depois, outra carta inédita de Kardec dará continuidade à correspondência entre os dois: “Venho um pouco tardiamente, mas sem que houvesse negligência voluntária de minha parte, agradecer-lhe sua gentil e bondosa carta. Eu já conhecia suas simpatias pelos nossos princípios espíritas”. Jourdan expressa algumas dúvidas quanto às comunicações espíritas, e Kardec continua: “o senhor diz que me ficaria grato se lhe desse uma explicação sobre tal assunto. Como isso seria muito extenso para uma carta e, ao demais, serviria apenas para um leitor, preferi dá-la no número da Revista Espírita que o senhor vai receber”. Então completa: “Quanto ao pedido que o senhor me faz de expor na Revista Espírita algumas de suas opiniões pessoais sobre a Doutrina, acedo com boa vontade, porque sei de antemão que suas críticas não serão o fruto de uma hostilidade sistemática, preconcebida e maldosa”.

Confira o restante da análise da carta no livro Autonomia, a história jamais contada do Espiritismo.

https://espirito.org.br/autonomia/carta-kardec-a-jourdan/

Artigo de Vinícius Costa

Allan Kardec acreditava que o Espiritismo auxiliaria na luta por Reformas Sociais efetivas contra os males do liberalismo (o que ele pensaria dos "espíritas brasileiros" conservadores e neoliberais?), por Vinícius Costa, cientista social.

Do site do Repórter Nordeste, na coluna de Cláudia Laurindo

Carta original do Codificador do Espiritismo, divulgada em 01 de setembro de 2020 pela UFJF, revela crítica ao liberalismo material e conexão do Espiritismo com às lutas progressistas do século XIX.

Cartas de Kardec revelam perspectiva de apoio às Reformas Sociais se sustentadas pela revolução moral proposta pelo Espiritismo para além do materialismo.

“Quem quer que a estude no seu princípio e nas suas consequências, nela verá toda uma revolução moral; em vez de tomar o edifício apenas pelo topo, ela o toma pela base e lhe dá sólidos alicerces no coração dos homens, inspirando-lhes a fraternidade efetiva e destruindo-lhes o egoísmo, verme roedor de todas as instituições liberais que repousam apenas na materialidade”(1).

As cartas de Allan Kardec, Codificador do Espiritismo, começaram a ser divulgadas na íntegra em 01 de Setembro de 2020, a partir de um convênio entre a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Fundação Espírita André Luiz (FEAL) – que armazena as cartas encontradas, no século XX, pelo pesquisador espírita Canuto Abreu

As cartas, agora disponíveis na íntegra para o público em geral depois de uma longa batalha para preservação delas, que inclui desde o roubo de documentos por parte dos nazistas durante a ocupação na França até a tentativa de não divulgação das mesmas por parte da Federação Espírita Brasileira (FEB) – por acreditar que os espíritas não estariam prontos para o conteúdos das revelações (2), são um bálsamo para a História da Filosofia e para os estudos da Ciência da Religião, além de ajuda a (re)contar a História do Espiritismo, bem como adentrar na mentalidade do Codificador lionês e suas visões de mundo.

Dentre as cinquenta primeiras cartas divulgadas, destaca-se o “Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863”. Nela, o Codificador Espírita dirige-se ao companheiro de missiva:

“Se suas ocupações lhe permitirem dar uma olhada nela, reconhecerá, sem dificuldade, penso, que esta doutrina conduz inevitavelmente, e por uma via segura, a todas as reformas sociais perseguidas pelos homens de progresso e que ela acarretará forçosamente a ruína dos abusos contra os quais o senhor se insurge com tão notável talento. Sua rápida propagação e o pavor que ela causa no partido clerical são uma prova de que nela se vê algo além de uma efêmera utopia”.(3)

Para se compreender inteiramente o teor dessa carta é preciso conhecer o interlocutor de Kardec, o Monseur Louis Jordan. O Jornalista e Editor francês foi um dos maiores seguidores de Saint Simon na França, além de ter atuado diretamente na luta francesa do século XIX pelo direitos femininos. Não existe, ainda, tradução para português dos livros de Louis Jourdan ou biografia traduzida em nossa língua, mas em língua francesa o trabalho de Jourdan é mais conhecido. Todavia, o público espírita não desconhece a figura de Monseur Jourdan ao todo, já que Kardec cita Louis Jourdan em sua Revista Espírita na edição de Abril de 1861 como alguém por quem ele tinha respeito e com quem se comunicava frequentemente por estar avaliando o Espiritismo insurgente na França. (4).

Aprofundando na figura desse jornalista, percebe-se que Louis Jourdan teve uma vida dedicada às causas sociais. Discípulo das teorias de justiça social de Saint Simon, o jornalista nasceu em Toulon em 7 de janeiro de 1810 e foi editor pela primeira vez de um jornal nesta cidade, chamado o “Eleitor Popular”, dirigido à politização das classes trabalhadoras. Em 1848, fundou o jornal “Espectador Republicano” também dedicado às causas progressistas. Depois de ir para um exílio na Tunísia, ele voltou à Paris em 1852. Em 1856, Louis Jourdan foi o primeiro editor-chefe do Jornal de cunho econômico “Diário dos Acionistas”. Em 1863, ano em que trocou as cartas, reveladas, com Kardec, escreveu sua obra mais importante: “Mulheres em frente ao andaime”. Devido ao viés emancipador de sua obra, em 1870, foi membro do Comitê Executivo Central da Associação para os Direitos da Mulher, algo extremamente inovador para época.

Minimamente apresentado, bem como sua luta em prol das reformas sociais, voltemos mais uma vez à carta de Kardec e como ele interage com o Senhor Jourdan:

“Se suas ocupações lhe permitirem dar uma olhada nela, reconhecerá, sem dificuldade, penso, que esta doutrina conduz inevitavelmente, e por uma via segura, a todas as reformas sociais perseguidas pelos homens de progresso e que ela acarretará forçosamente a ruína dos abusos contra os quais o senhor se insurge com tão notável talento.”(6)

O texto é claro e fala por si só. Na visão de Kardec, o Espiritismo colaboraria para as reformas sociais defendidas pelo Monseur Jourdan e auxiliaria no fim dos abusos do liberalismo materialista e do machismo – objetos de estudo crítico do jornalista, contra qual ele lutava com “notável talento”.

A carta de Kardec para Louis Jourdan deixa claro e evidente o viés progressista para sustentação das “reformas sociais” que o Codificador do Espiritismo enxergava na Doutrina Espírita no século XIX. Transformar o Espiritismo em instrumento de manutenção dos interesses egóicos conservadores do poder estabelecido vai contra a visão de Kardec ao codificar sua própria doutrina e acaba por alinhar-se ao clericalismo combatido por Kardec como destacado nos trechos supracitados.

Kardec ainda alerta ao Monseur Jordan que o “homem de progresso” que não percebe o aspecto revolucionário moral do espiritismo, em sua essência do “fora da caridade não há salvação”, ainda não percebe que a justiça social sonhada necessita de uma revolução moral que estimule à autonomia dos seres. Dessa maneira, se as lutas progressistas caminharem para o escárnio do Espiritismo, essas seriam mais “cegas que o clero (8)” e perder-se-ia, inclusive, as oportunidades de progresso social.

Esse é o “bom combate” que Kardec deixa evidente ao Monseur Jordan ao convidá-lo à se juntar ao Espiritismo e que se estende a todos nós que lemos esta carta no século XXI (o texto completo pode ser lido, na íntegra, aqui).

As reformas sociais necessárias à evolução das sociedades se consolidarão a partir de doutrinas moralmente estimuladoras da autonomia dos sujeitos como o Espiritismo de Kardec. Essa é a defesa, por excelência, do Codificador ao pensar o Espiritismo. E esta deve ser a defesa daquele que professa a Doutrina dos Espíritos.

Texto publicado originalmente na página: https://www.vinnycosta.org/post/ah-religi%C3%A3o-3-kardec-acreditava-que-o-espiritismo-auxiliaria-luta-progressista?fbclid=IwAR1RC7BrJ0FOWKKhfGbwYGdc0p3Z8f0ng9mSGjE18eaoNd6wiR2XfWPWvcs

Bibliografia

(1) KARDEC, Allan. [Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863]. Disponível em: http://projetokardec.ufjf.br/items/show/45. Acesso em: 2 Set 2020. Projeto Allan Kardec.

(2) FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Autonomia: A História Jamais Contada do Espíritismo. Feal. São Paulo. 2019.

(3) KARDEC, Allan. [Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863]. Disponível em: http://projetokardec.ufjf.br/items/show/45. Acesso em: 2 Set 2020. Projeto Allan Kardec.

(4) Revista Espírita – Jornal de estudos psicológicos – 1861 > Abril > O Sr. Louis Jourdan e o Livro dos Espíritos. Disponível em: https://www.febnet.org.br/ba/file/Downlivros/revistaespirita/Revista1861.pdf

(5) Em linhas gerais pode ser saber quem foi Louis Jordam aqui em francês: https://fr.m.wikipedia.org/wiki/Louis_Jourdan_(%C3%A9diteur)

(6)KARDEC, Allan. [Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863]. Disponível em: http://projetokardec.ufjf.br/items/show/45. Acesso em: 2 Set 2020. Projeto Allan Kardec.

(7) KARDEC, Allan. [Rascunho de carta para o senhor Louis Jourdan – 02/11/1863]. Disponível em: http://projetokardec.ufjf.br/items/show/45. Acesso em: 2 Set 2020. Projeto Allan Kardec.

https://oespiritualismoocidental.blogspot.com/2020/11/kardec-acreditava-que-o-espiritismo.html

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Ele Não Surgiu do Nada

Como por todo esse tempo não consegui sintetizar a situação brasileira atual com minhas palavras, achei quem conseguiu. Costumo me referir a isso como "a vitória dos incompetentes", e o pior é que eles se alçaram por causa do conceito de "politicamente correto" que justamente execram porque lhes tolheu a liberdade de dizerem o que querem sem reprimendas nem punição. Pois quando começou a aparecer este conceito na sociedade, ele veio junto com a disseminação dos Direitos Humanos que possibilitaram o nascimento e nutrição de diversas políticas de defesa e proteção das minorias discriminadas. 

Com elas, veio os direitos da criança e do adolescentes, e então os pais foram perdendo suas autoridades porque não souberam se adaptar ao conceito de autoridade natural por nível intelectual, educacional e sem violência física. Dalí em diante, os incompetentes acharam correto se sentirem discriminados e serem tratados com o mesmo respeito dos bem dotados intelectualmente, a começar pelas escolas. 

Foi assim que surgiram casos de crianças batendo em professores que passaram a serem vítimas de seus próprios conceitos avançados de convivência em sociedade. Gerou-se uma geração de incompetentes, que sempre existiram, mas com a diferença de que agora eles tinham direitos a impor e reinvidicar. E foi assim que os incompetentes foram alçados ao mesmo nível dos cientistas, não para competirem e aprenderem, para destilar seus venenos contra quem sempre lhes pareceu arrogante e "superior" e destruí-los.

Estas gerações de pessoas não começaram a existir no Brasil, este país apenas copiou o que há de pior lá fora, no exterior ocidental, base de todo seu modelo de civilização independente de crítica. O problema deste texto é que ele explica o que está acontecendo no Brasil hoje para as pessoas sensatas e... competentes. Os vilões deste texto que mais precisariam aprender e resolver seus problemas são justamente aqueles que não irão lê-lo. O que fazer para aplicar uma injeção de bom senso nesta rapaziada e moçada? Aproveitar a vacinação obrigatória mundial para inocular um modificador de gene e DNA a fim de torná-los mais inteligentes? É uma ideia...

O Jair Que Há em Nós

Ivann Lago - Professor e Doutor em Sociologia Política - 28 de fevereiro de 2020

“O Brasil levará décadas para compreender o que aconteceu naquele nebuloso ano de 2018, quando seus eleitores escolheram, para presidir o país, Jair Bolsonaro. Capitão do Exército expulso da corporação por organização de ato terrorista; deputado de sete mandatos conhecido não pelos dois projetos de lei que conseguiu aprovar em 28 anos, mas pelas maquinações do submundo que incluem denúncias de “rachadinha”, contratação de parentes e envolvimento com milícias; ganhador do troféu de campeão nacional da escatologia, da falta de educação e das ofensas de todos os matizes de preconceito que se pode listar.

Embora seu discurso seja de negação da “velha política”, Bolsonaro, na verdade, representa não sua negação, mas o que há de pior nela. Ele é a materialização do lado mais nefasto, mais autoritário e mais inescrupuloso do sistema político brasileiro. Mas – e esse é o ponto que quero discutir hoje – ele está longe de ser algo surgido do nada ou brotado do chão pisoteado pela negação da política, alimentada nos anos que antecederam as eleições.

Pelo contrário, como pesquisador das relações entre cultura e comportamento político, estou cada vez mais convencido de que Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país.

Quando me refiro ao “brasileiro médio”, obviamente não estou tratando da imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e “malandro”. Refiro-me à sua versão mais obscura e, infelizmente, mais realista segundo o que minhas pesquisas e minha experiência têm demonstrado.

No “mundo real” o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência... em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.

Os avanços civilizatórios que o mundo viveu, especialmente a partir da segunda metade do século XX, inevitavelmente chegaram ao país. Se materializaram em legislações, em políticas públicas (de inclusão, de combate ao racismo e ao machismo, de criminalização do preconceito), em diretrizes educacionais para escolas e universidades. Mas, quando se trata de valores arraigados, é preciso muito mais para mudar padrões culturais de comportamento.

O machismo foi tornado crime, o que lhe reduz as manifestações públicas e abertas. Mas ele sobrevive no imaginário da população, no cotidiano da vida privada, nas relações afetivas e nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de whatsapp, nas piadas diárias, nos comentários entre os amigos “de confiança”, nos pequenos grupos onde há certa garantia de que ninguém irá denunciá-lo.

O mesmo ocorre com o racismo, com o preconceito em relação aos pobres, aos nordestinos, aos homossexuais. Proibido de se manifestar, ele sobrevive internalizado, reprimido não por convicção decorrente de mudança cultural, mas por medo do flagrante que pode levar a punição. É por isso que o politicamente correto, por aqui, nunca foi expressão de conscientização, mas algo mal visto por “tolher a naturalidade do cotidiano”.

Se houve avanços – e eles são, sim, reais – nas relações de gênero, na inclusão de negros e homossexuais, foi menos por superação cultural do preconceito do que pela pressão exercida pelos instrumentos jurídicos e policiais.

Mas, como sempre ocorre quando um sentimento humano é reprimido, ele é armazenado de algum modo. Ele se acumula, infla e, um dia, encontrará um modo de extravasar. (...)

Foi algo parecido que aconteceu com o “brasileiro médio”, com todos os seus preconceitos reprimidos e, a duras penas, escondidos, que viu em um candidato a Presidência da República essa possibilidade de extravasamento. Eis que ele tinha a possibilidade de escolher, como seu representante e líder máximo do país, alguém que podia ser e dizer tudo o que ele também pensa, mas que não pode expressar por ser um “cidadão comum”.

Agora esse “cidadão comum” tem voz. Ele de fato se sente representado pelo Presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. Ele se sente importante quando seu “mito” enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que sua própria ignorância não permite compreender.

Esse cidadão se vê empoderado quando as lideranças políticas que ele elegeu negam os problemas ambientais, pois eles são anunciados por cientistas que ele próprio vê como inúteis e contrários às suas crenças religiosas. Sente um prazer profundo quando seu governante maior faz acusações moralistas contra desafetos, e quando prega a morte de “bandidos” e a destruição de todos os opositores.

Ao assistir o show de horrores diário produzido pelo “mito”, esse cidadão não é tocado pela aversão, pela vergonha alheia ou pela rejeição do que vê. Ao contrário, ele sente aflorar em si mesmo o Jair que vive dentro de cada um, que fala exatamente aquilo que ele próprio gostaria de dizer, que extravasa sua versão reprimida e escondida no submundo do seu eu mais profundo e mais verdadeiro.

O “brasileiro médio” não entende patavinas do sistema democrático e de como ele funciona, da independência e autonomia entre os poderes, da necessidade de isonomia do judiciário, da importância dos partidos políticos e do debate de ideias e projetos que é responsabilidade do Congresso Nacional. É essa ignorância política que lhe faz ter orgasmos quando o Presidente incentiva ataques ao Parlamento e ao STF, instâncias vistas pelo “cidadão comum” como lentas, burocráticas, corrompidas e desnecessárias. Destruí-las, portanto, em sua visão, não é ameaçar todo o sistema democrático, mas condição necessária para fazê-lo funcionar.

Esse brasileiro não vai pra rua para defender um governante lunático e medíocre; ele vai gritar para que sua própria mediocridade seja reconhecida e valorizada, e para sentir-se acolhido por outros lunáticos e medíocres que formam um exército de fantoches cuja força dá sustentação ao governo que o representa.

O “brasileiro médio” gosta de hierarquia, ama a autoridade e a família patriarcal, condena a homossexualidade, vê mulheres, negros e índios como inferiores e menos capazes, tem nojo de pobre, embora seja incapaz de perceber que é tão pobre quanto os que condena. Vê a pobreza e o desemprego dos outros como falta de fibra moral, mas percebe a própria miséria e falta de dinheiro como culpa dos outros e falta de oportunidade. Exige do governo benefícios de toda ordem que a lei lhe assegura, mas acha absurdo quando outros, principalmente mais pobres, têm o mesmo benefício. 

Poucas vezes na nossa história o povo brasileiro esteve tão bem representado por seus governantes. Por isso não basta perguntar como é possível que um Presidente da República consiga ser tão indigno do cargo e ainda assim manter o apoio incondicional de um terço da população. 

A questão a ser respondida é como milhões de brasileiros mantêm vivos padrões tão altos de mediocridade, intolerância, preconceito e falta de senso crítico ao ponto de sentirem-se representados por tal governo?”

https://ivannlago.blogspot.com/2020/02/o-jair-que-ha-em-nos.html

Ivann Carlos Lago é sociólogo, mestre e doutor em Sociologia Política. É professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Cerro Largo (RS). Atua nas áreas de Teoria Política, Instituições Políticas e Regimes de Governo, Cultura e Comportamento Político, Partidos e Eleições. É professor permanente do Mestrado em Desenvolvimento e Políticas Públicas da UFFS. Possui experiência em Marketing Político e Eleitoral, Planejamento Governamental, Políticas Públicas e Desenvolvimento, tendo atuado com consultorias a diversos órgãos governamentais, partidos políticos e candidatos.

sábado, 21 de novembro de 2020

Por um Novo Movimento Espírita

Eu tinha certeza que algo estava errado quando retornei à Federação Espírita no ano passado. Não podia ser, era inacreditável que todos alí fossem a favor de um supremacista branco, fascista, antidemocrático, machista, racista, misógino, antiambientalista e negacionista, defensor da ditadura, da tortura e contra a ciência, a educação, a saúde pública, e contra o que tirou 40 milhões de pessoas da miséria e projetou o Brasil como a maior potência emergente mundial, e isso incluia minha família e quase todas as famílias brasileiras que conheço. O que aconteceu no Brasil nestas duas décadas em que passei fora? Meu Deus, uma hecatombe! Um novo tipo de guerra que enganou a todos sem eles sequer desconfiarem.

Depois de muito procurar acabei encontrando espíritas como eu, graças a Deus, não é? Mas deu trabalho. Tais espíritas dissidentes representam seus pensametos do seguinte modo.

Espíritas Progressistas

"Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil."

(Mateus, 5, 25 e 26.)

Uma grande instituição do movimento espírita brasileiro anunciou mais uma de suas palestras sobre temas comportamentais, temas que ocupam a maior parte do seu calendário proposto para as atividades chamadas "doutrinárias". O tema em questão era uma abordagem sobre o distanciamento geracional e recomendações genéricas sobre o comportamento esperado de pais e filhos espíritas.

Primeiramente, apenas para contextualização, o distanciamento geracional é imanente aos grupos sociais desde que o homem se entendeu como tal. E isso é um dos motores que fazem as comunidades transformarem-se. É óbvio que esse aspecto social e evolutivo não foi tratado na palestra citada, porque o objetivo das exposições nas grandes instituições do movimento espírita não é levar seus assistentes à reflexão de seu papel social, mas à pura emoção temporária e à comoção evangélica de pouco resultado transformador.

Palestras, congressos e eventos que abordam apenas o aspecto comportamental do indivíduo são de pouca efetividade, porque não são capazes de mexer com o cerne do problema das relações sociais, que se traduz no imenso abismo existente entre os dramas e necessidades daqueles que são capazes de pagar por um caro evento federativo e aqueles que representam a maioria absoluta do povo que é pauperizada e incapaz sequer de alcançar as propostas daquelas falas impolutas, arrogantes e alienadas da realidade social brasileira.

Ao se falar do perdão, por exemplo, a essa minoria social que frequenta as grandes casas espíritas, em vez de se falar da briga miúda com o vizinho ou da última confusão com o familiar próximo, deve-se ressaltar que o maior problema para se solicitar o perdão por essa parcela diferenciada da sociedade é o privilégio econômico e social. Enquanto essa gente come e dorme nas melhores condições, muita gente passa fome e não tem um abrigo minimamente decente para repousar seu corpo cansado, e a culpa é justamente do sistema econômico perverso que explora o trabalhador e impede seu acesso a melhores condições de vida, mantido a partir dos privilégios da classe economicamente mais abastada. E é importante destacar essa relação para que não se argumente a falta de vínculos entre essas situações.

Isso quer dizer que a culpa pela indignidade nas condições da vida do outro é exatamente o privilégio da minoria. Ao se contratar, por exemplo, um trabalhador doméstico e recusar-lhe direitos e dignidade, está-se cometendo não apenas uma infração legal, mas uma injustiça social e moral que exige não apenas o perdão, mas a reparação. Ao se lutar por uma reforma trabalhista, em nome do lucro e do aumento do faturamento, que expõe o trabalhador a toda sorte de inseguranças, incertezas e problemas sociais, assume-se o lado perverso do indivíduo que precisa ser mais bem trabalhado nos espaços do movimento espírita. Ao se apoiar uma reforma previdenciária, vendo-se nela um mero balanço atuarial e econômico, que joga o velho e o incapaz na miséria social, mostra-se toda a crueldade de pessoas que não trazem em si nenhuma humanidade ou empatia com o outro.

E esses problemas, muito maiores, infinitamente maiores em escala e em conteúdo, merecem um foco comparativamente muito maior nas discussões tratadas nas casas espíritas, porque enquanto essa classe distinta que frequenta as instituições espíritas achar que o perdão, por exemplo, refere-se apenas à última discussão na reunião do condomínio, o espiritismo não estará cumprindo seu papel transformador e revolucionário.

Também é por conta desse tipo de discurso anódino e insosso, sem alcance transformador e que encolhe o tamanho das propostas espíritas, que o movimento espírita não consegue expandir-se e adentrar as classes economicamente mais vulneráveis; e qualquer análise estatística dos dados demográficos nacionais mostra essa triste realidade: os espíritas são privilegiados econômica e socialmente.

O movimento espírita precisa levar o discurso potente e transformador do espiritismo aos mais necessitados. Seu foco precisa ser mudado urgentemente dos problemas superficiais e quase pueris dos abastados para a indigência material e social dos desvalidos. O movimento espírita precisa conversar com os pobres, dialogar com os deserdados, ouvir e falar com os abandonados pela sociedade, e não apenas dar-lhes um pão eventual que apenas sacia a fome de sentido de vida dos exploradores. O espiritismo precisa tornar-se popular, falar a linguagem do povo, para que não continue a ser essa tolice diletante que hoje cheira a naftalina nas casas e instituições espíritas sem um real objetivo transformador.

Um novo movimento espírita, reinventado, repensado a partir daquilo que hoje é apenas latente dentro das obras espíritas, precisa ser libertado das amarras que intentam conservá-lo impotente dentro duma ortodoxia sem frutos, seca, para que alcance seu propósito precípuo: a transformação do homem e da sociedade em que se vive, porque, afinal, o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização.

Afinal, "os sãos não precisam de médicos"...

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1058329021228088

O Que Fazer?

Ou uma proposta inicial para encaminhamentos dos “problemas candentes do nosso movimento”[1].

“Ninguém coloca remendo novo em roupa velha; porque o remendo força o tecido da roupa e o rasgo aumenta. Nem se põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, os odres rebentarão, o vinho derramará e os odres se estragarão. Mas, põe-se vinho novo em odres novos, e assim ambos ficam conservados.”

Jesus, em Mateus, 9, 16-17.

Em editorial recente da página “Espíritas à esquerda”, publicado no último dia 4 de julho, foi lançada a provocação da necessidade de se constituir um novo movimento espírita. E seu título traduz bem a ideia central proposta: “Por um novo movimento espírita”.

Abaixo, o endereço do texto:

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1058329021228088

No texto citado, foi dito que o “espiritismo precisa tornar-se popular, falar a linguagem do povo, para que não continue a ser essa tolice diletante que hoje cheira a naftalina nas casas e instituições espíritas sem um real objetivo transformador.” Concluindo-se, então, da seguinte forma:

“Um novo movimento espírita, reinventado, repensado a partir daquilo que hoje é apenas latente dentro das obras espíritas, precisa ser libertado das amarras que intentam conservá-lo impotente dentro duma ortodoxia sem frutos, seca, para que alcance seu propósito precípuo: a transformação do homem e da sociedade em que se vive, porque, afinal, o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização.”

Dando continuidade ao tema, e agora focando no aspecto pragmático da práxis espírita progressista, pretende-se, a partir desse novo editorial, propor alguns caminhos à ação.

Primeiramente, deixar claro que essa proposição de novos caminhos ao movimento espírita tem como orientação precípua, como dito acima, o entendimento que “o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização”. Não se pretende propor apenas reformar o movimento espírita, arejando-o com ideias sociais e interpretações políticas, mantendo sua estrutura burguesa e suas instituições carunchosas, pois isso seria apenas remendar a roupa velha. Mas, a partir da compreensão espiritual e material das relações humanas contida nas obras espíritas, transformar a sociedade, as relações de classes e a exploração do trabalho e do homem.

É preciso um novo movimento espírita que se apresente firme e claramente à luta contra todo tipo de exploração, contra todo tipo de discriminação e contra a precarização das condições materiais de vida. Isso significa que novas instituições, com novas práticas, precisam assumir esse papel essencial para a consecução daquilo que foi proposto como transformação da realidade por Jesus e pelos espíritos que auxiliaram Kardec, porque não será possível fazer isso a partir das instituições que hoje, infelizmente, representam esse movimento espírita inócuo e sem serventia.

Portanto, a primeira proposta colocada a partir dessas reflexões é a organização de novos grupos e instituições que se pautem por uma visão transformadora. Mas não aquela transformação puramente individual, que ignora as relações humanas dialéticas, e sim a visão que compreenda que toda transformação humana passa necessariamente pela mudança radical nas relações sociais, porque, afinal, ninguém é capaz de se autotransformar ignorando as condições do contexto em que se insere.

Esses novos grupos e instituições devem ter como objetivo primacial a construção da estratégia de sua inserção na luta pela superação da cruel realidade social existente. Suas reuniões, estudos, conferências e ação social devem ter esse maior propósito colocado como horizonte, como meta à sua atuação, exemplificando o poder revolucionário da filosofia espírita. Afinal, de que adianta decorar perguntas e respostas de livros e não ser capaz de usar esse tipo de conhecimento para transformar a realidade ao seu redor? E transformar não é apenas dar o pão no momento de fome extrema, que também é importante, mas construir uma sociedade em que mulheres e homens não tenham mais que sentir fome.

Muito se ouve e se lê de espíritas progressistas sobre a necessidade de se ocupar espaços espíritas existentes, numa luta inglória e ineficaz para levar seu discurso aos ouvintes de determinada instituição. Entende-se que essa estratégia não traz os resultados necessários por dois motivos principais: a) o público dessas casas espíritas não interessa ao movimento espírita progressista, pois seu foco deve ser o povo, a classe trabalhadora que precisa, além de justas condições materiais de vida, de consciência social e política e de educação; b) as instituições espíritas conservadoras —pois intentam conservar o status quo da realidade— são como roupas velhas, carcomidas, nas quais um remendo qualquer só será capaz de fazê-las rasgar, sem entretanto se as fazer transformar. Seus odres estão velhos e o vinho novo ofertado não terá o condão de os melhorar.

E, indo um pouco além, deve-se abandonar definitivamente tolos escrúpulos e cuidados com as propostas de união ou unificação do movimento espírita. Não interessa a nenhum espírita progressista unificar-se ou unir-se a ninguém para uma luta inconsequente e que não tenha como objetivo claro a transformação da realidade social. Pois se não houver explícito interesse nessa transformação, a omissão pusilânime atuará como resistência a essa proposição, ou seja, “aquele que não está comigo está contra mim; e aquele que comigo não ajunta, espalha”[2].

Afinal, não interessa e não basta aos espíritas progressistas apenas compreender a realidade, incluindo-se a condição da imortalidade, mas ser capaz de agir coletivamente para a transformação dessa mesma realidade[3].

Notas:

[1] O título e o subtítulo trazem a clara referência à brochura leninista publicada em 1902 intitulada “Que fazer?: problemas candentes do nosso movimento”, cuja leitura é fortemente recomendada.

[2] Jesus, em Mateus, 12, 30.

[3] Paráfrase da décima-primeira tese sobre Feuerbach, de Karl Marx.

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1073049716422685

E o Espiritismo Se Faz Povo

"E percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo."

Mateus, 4, 23.

Em sequência aos textos propositivos duma nova realidade de ação-reflexão do movimento espírita, discutem-se algumas formas para sua atuação.

Destaca-se que esse é o terceiro texto com reflexões e aprofundamentos sobre essa proposta. Os outros dois podem ser lidos nos endereços abaixo:

"Por um Novo Movimento Espírita"

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1058329021228088

"O Que Fazer? Ou uma proposta inicial para encaminhamentos dos 'problemas candentes do nosso movimento'"

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1073049716422685

Pretende-se aqui esmiuçar um pouco as propostas rascunhadas no segundo texto, em que se afirma:

"Esses novos grupos e instituições devem ter como objetivo primacial a construção da estratégia de sua inserção na luta pela superação da cruel realidade social existente. Suas reuniões, estudos, conferências e ação social devem ter esse maior propósito colocado como horizonte, como meta à sua atuação, exemplificando o poder revolucionário da filosofia espírita. Afinal, de que adianta decorar perguntas e respostas de livros e não ser capaz de usar esse tipo de conhecimento para transformar a realidade ao seu redor? E transformar não é apenas dar o pão no momento de fome extrema, que também é importante, mas construir uma sociedade em que mulheres e homens não tenham mais que sentir fome."

A partir do claro entendimento do objetivo transformador das propostas espíritas, não no sentido individual, mas coletivo, porque não é possível transformar-se sem a transformação de toda a sociedade, o que se propõe é a mudança da atuação do movimento espírita no sentido de se tornar instrumento na busca das mudanças da sociedade desigual e injusta em que se vive.

E isso é radical e revolucionário, pois não se parte da proposta de evangelização, no sentido clássico, apartada do contexto vivido por todos, que pretende apenas formar prosélitos de classe média e experienciar a prática da caridade como simples entrega de fardos e itens aos pobres, como se esses fizessem parte duma outra realidade, dum outro mundo.

Os ensinos de Jesus e dos espíritos que auxiliaram Kardec são recursos valiosos que podem, e devem, compor um mosaico de ações que promovam a construção da autoconsciência transformadora do povo, pois um povo alheio à sua realidade social, econômica e ambiental e à sua identidade jamais conseguirá dar passos no sentido da superação de suas mazelas e dificuldades. Portanto, se se pretende verdadeiramente promover a transformação proposta nos ensinos evangélicos e espíritas, é preciso antes de tudo atuar no sentido de possibilitar ao povo a elaboração de sua autoconsciência, ou seja, o foco do novo movimento espírita dever ser o trabalho de conscientização.

E aqui não há nenhuma pretensão de protagonismo nessa tarefa, pois a conscientização é uma conquista de determinado grupo ou de toda a sociedade. Ela não é algo dado por um terceiro, mas construída a partir da própria realidade em que se vive, pois só quem a vive é capaz de dela tomar consciência. Caberá, portanto, ao novo movimento espírita entender seu papel de ferramenta, de meio, de instrumento, de mero auxiliar que facilita a conquista dessa consciência social.

Os núcleos espíritas desse novo movimento devem, preferencialmente, estar vinculados a comunidades populares, de trabalhadores, para, junto com eles --e jamais para eles--, promover atividades e reflexões, com o apoio indispensável dos ensinos evangélicos e espíritas, que contribuam para a construção da consciência crítica de todos os envolvidos.

Portanto, não haveria espaço nessa nova proposta de ação-reflexão para palestras evangélicas alienantes ou reuniões de estudos de caráter dogmático e ortodoxo. Isso porque não há uma doutrina a ser ensinada, não há um fiel a ser conquistado, mas uma tarefa de construção de consciência coletiva a ser feita por meio das transformadoras propostas espíritas, já que o que se objetiva não é um profitente espírita, mas um homem liberto e consciente.

Reuniões, estudos, eventos devem então se pautar pelo diálogo e pela participação intensiva de todos. E qualquer reflexão de caráter espiritual e evangélico deve partir da realidade concreta em que vive a comunidade que se insere o núcleo espírita. Muitas reflexões, diálogos e estudos espíritas podem ser feitos a partir das condições concretas da vida do povo, como as dificuldades das relações de trabalho, as condições objetivas do bairro em que se vive, a moradia, as dificuldades enfrentadas pelas famílias trabalhadoras no acesso à educação e à saúde, os problemas enfrentados por negros, mulheres e LGBTs da comunidade, a violência urbana, as drogas etc. E, a partir da análise desse contexto socioeconômico e da reflexão dos textos espíritas, será possível encontrar não só o consolo proposto por esses textos, mas a força para transformar a situação concreta, que é o valor maior dos ensinos evangélicos.

Esses novos núcleos espíritas devem também promover incansavelmente a auto-organização em todos os sentidos. Primeiro, a auto-organização do trabalho, motivando o trabalhador a participar de cooperativas, movimentos sociais, organizações de bairro e sindicatos profissionais, mostrando que é por meio da luta coletiva que se conseguirá transformar a realidade, jogando por terra o discurso hegemônico e falacioso da meritocracia individual. Segundo, é preciso também fazer com que o próprio núcleo espírita seja auto-organizado, que a própria comunidade dirija e decida os rumos desse novo movimento espírita. A classe média, maioria dentro do carunchoso movimento espírita retrógrado e conservador, precisa abdicar de seu protagonismo e ser mero instrumento da promoção da participação popular na organização desses novos núcleos.

Por fim, as atividades de caridade material, necessárias dentro das comunidades pobres onde vive o povo trabalhador, devem-se nortear pela reflexão e decisão conjuntas e pelo auxílio mútuo. Ou seja, é a leitura da realidade concreta, feita com a participação de todos, que deverá pautar as ações a serem tomadas por todos, incluindo obrigatoriamente a própria comunidade. Não há simplesmente doação de cestas básicas, roupas ou que tais sem que toda a comunidade participe da definição de suas necessidades e também da própria atividade de auxílio mútuo. Portanto, não é apenas um doar alienante, mas uma ação que constrói relações coletivas e promove a consciência libertadora.

As propostas espíritas trazem consigo esse poder transformador revolucionário. O que se precisa é colocá-lo em ação. Essas propostas foram trazidas há mais de cento e sessenta anos por uma miríade de espíritos como ferramenta de auxílio nesse processo que, como se sabe pela lei de evolução, ocorrerá de qualquer forma, "conosco, sem nós ou contra nós"[1]. E o que aqui, pois, propõe-se é que se coloque o movimento espírita a favor desse processo, mudando o triste rumo em que hoje se encontra.

Nota:

[1] Frei Inocêncio Engelke, em carta pastoral à pequenina cidade mineira de Campanha, em 1950, mostrando sua preocupação sobre a ausência da Igreja Católica no processo de libertação do povo camponês.

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1107200249674298

Os Espíritas e o "Reino"

"A filosofia espírita só estará definitivamente arraigada no mundo no dia em que se dedicar à consideração filosófica, social e religiosa da chamada luta de classes. O problema desta luta absorve quase toda a atenção do homem contemporâneo. Seria um erro não reconhecer que todo pensamento espiritualista dos novos tempos só avançará se souber enfrentar esse tremendo conflito, que se desenvolve entre as classes sociais. Não olvidemos que todo progresso da cultura só é possível no plano da consideração histórico-social. A filosofia espírita, se não tomar uma orientação desse caráter, realmente definida, tal como se deduz do kardecismo, ver-se-á diminuída e reduzida em sua ação, frente ao problema transcendental das questões sociais."

Assim, o argentino Humberto Mariotti, em sua conhecida obra "Parapsicología y materialismo histórico", de 1963, indica o caminho necessário à condução das propostas espíritas pelo movimento espírita.

A ideia de levar as propostas espíritas de transformação social e individual, num enlace dialético contínuo, que se tem defendido nesse espaço, não é original, pois já foi levantada, e convenientemente esquecida e relegada à mera curiosidade histórica, por grandes nomes do movimento espírita nacional e internacional.

Como explicita Mariotti no fragmento acima, não orientar as discussões espíritas ao necessário debate sobre as desigualdades econômicas, a injustiça social, as discriminações humanas, enfim, a luta de classes, é diminuir o alcance revolucionário das propostas espíritas, pois não é possível pensar em espiritismo sem suas óbvias consequências sociais e seu chamamento à ação transformadora.

O que faz o espiritismo, nos textos trazidos pelos espíritos que auxiliaram Kardec, e que apenas ecoam as propostas de Jesus, é delinear os fundamentos do "Reino" anunciado por Jesus, descrito nos textos neotestamentários. Esse "Reino", que traz como fundamentos a justiça, o amor, a fraternidade e a igualdade, só será alcançado quando os homens estiverem conscientes de sua condição de explorados e expropriados em seus direitos e dignidade.

A opção de Jesus pelos pobres, deserdados, explorados, humilhados, oprimidos e desgraçados nessa transformação é muito clara e não permite compreensão distinta. Aos exploradores e detentores de privilégios sociais e econômicos, Jesus apenas os convida a participar, propondo o abandono de sua situação moral aviltante de opressor como "conditio sine qua non". Como não lembrar das passagens em que o jovem rico é instado a doar seus bens para segui-lo, ou quando diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha do que um rico alcançar o "Reino"?

A proposta de Jesus, portanto, é clara: só será possível um "Reino" quando não existirem diferenças sociais que permita haver alguns privilegiados e muitos miseráveis.

Cabe aos espíritas, que se dizem seguidores de Jesus, levar adiante tal proposta de viabilização e fundação do "Reino". E o "Reino" nada mais seria do que essa sociedade de homens, nas condições material e espiritual, em que a justiça social seja o norte e orientada por propostas de libertação e conscientização do povo. Porque só um povo livre e consciente será capaz de manter uma sociedade fundada nos valores do amor e da fraternidade propostos há mais de dois mil anos.

Um espiritismo insosso e inócuo, que se propõe apenas a discutir temas fúteis e comportamentais, não tem valor para a transformação em direção ao "Reino", como indicado por Jesus. A construção desse "Reino" demanda verdadeiros espíritas que se proponham à ação-reflexão no sentido de promover a autolibertação e a autoconscientização do povo oprimido, conforme a clara escolha de Jesus. E isso só será possível com um novo movimento espírita transformado e construído a partir das reflexões já trazidas por muitos, como indicado no texto citado de Mariotti.

Há muito a fazer. Há um novo movimento espírita justo e fraterno a ser construído. À ação, espíritas!

https://www.facebook.com/espiritasaesquerda/posts/1125002864560703

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

E Se Fosse Assim?

Estes cards sumarizam a natureza da coisa que afeta os brasileiros neste momento. Em face das eleições municipais no fim deste ano de 2020, é preciso saber votar para que se possa voltar ao normal de forma democrática. Aqui está, em linguagem de meme, uma síntese do problema e da solução. Se você ainda está dormindo, está na hora de acordar, gente do céu! Se votar 50, também serve...