sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Feliz Meio Natal

Almoço de Confraternização de Natal

Nossa equipe ganhou mais um prêmio dentro da empresa cujo presente aos funcionários foi... um jantar pago de fim de ano. Ora, todo ano temos um jantar pago pela empresa, então isso só pode ser uma tremenda e sarcástica piada de mau gosto do diretor, mas pelo tom do email, parecia coisa séria. Minha mulher acaba de me dizer que Kevin Rudd, que um dia já foi primeiro ministro da Austrália e hoje com cargo diplomático no exterior, falou que a Austrália não cresce desde 2008. Mas o Brasil cresceu depois da marolinha, vocês lembram? Ah, claro que não... então por isso nosso almoço anual ficou no lugar do prêmio.

Não foi no restaurante Le Maurice...
Este é mais um post tentando explicar o fosso entre as culturas australiana e brasileira, o qual pouca gente detecta ou reconhece, mas talvez nós, de certa região do Brasil, sejamos mais capazes de identificar porque, aparentemente, existem dois brasis dentro do Brasil, um é pobre outro é rico, mas a diferença que estou me referindo nesse caso é outra. Trata-se de nortistas e sulistas. Os sulistas parecem se adaptar melhor à cultura dos países afluentes de língua inglêsa. Suponho que é porque são mais descendentes de europeus do que os nortistas, estes mais descendentes de índios e africanos. Digamos que os nortistas sabem o que é amizade, família e amor, enquanto os sulistas sabem o que é mentira, traição e inveja.

Sim, a competição é maior no sul, talvez porque ele seja mais rico, ou talvez sejam mais ricos porque possuem aquelas "qualidades", enquanto os nortistas dividem suas riquezas e por isso são mais pobres, além de valorizarem outras coisas além do dinheiro. Vamos esquecer no momento que tem muito político corrupto em Brasília que veio do nordeste, porque afinal ninguém é perfeito nem todo mundo é igual em termos de caráter.

Não foi no Ce La Vie Sky bar...
Os motivos deste post são dois: 1) Suponho que tive um sonho premonitório. 2) O tal almoço que merece um post à parte.

Vamos começar com o almoço num hotel chique que foi recentemente inalgurado na cidade dentro do complexo de negócios em que trabalho. A secretária nos enviou o menu do hotel pois ele era uma das duas opções sugeridas sabe-se lá por quem. A outra opção, segundo um colega descendente de italianos, espalhava vários pratos e poderíamos escolher o que comer à vontade, bem ao gosto e costume do brasileiro, o que é coisa bem rara na Austrália.

Por meio de votação eletrônica, a equipe escolheu o hotel mais perto e mais chique. Para mim tanto fazia, eu vou por obrigação, pois como macaco velho, nada neste país me impressiona mais, nem mesmo as churrascarias brasileiras, meio adaptadas ao sofrível gosto dos australianos (servindo carne doce, por exemplo). Vocês vão saber porque.

Cerca de 30 pessoas distribuídas em 3 mesas do restaurante do hotel. 

Língua ferina tem em todas as culturas...
Eu e minha língua ferina, que mete o pau em tudo o que passa longe do costume de nossa maravilhosa cultura brasileira e nos parece ultrajante, compartilhando com minha mulher quando cheguei em casa, simplesmente porque não admitimos que um país que se diz tão avançado como a Austrália comporte tais tipos de comportamento de um povo que também se diz tão exigente e ultra-educado. A verdade é outra, e bem escamoteada. O australiano aguenta muita coisa que brasileiro não aguentaria. Menos ter um governo corrupto. É tudo muito complicado de entender, mas um dia eu chego lá. Tem a ver com o capitalismo puro daqui que privilegia os negócios e trata os clientes consumidores como lixo descartável, enquanto o capitalismo tupiniquim se dobra à soberania das pessoas humanas, ponto pro Brasil de novo nessa área.

Não canso de repetir que sempre me perguntam porque é que num país onde as pessoas se adoram tanto, tão festivo e com gente tão bonita e tão feliz, pode ter índices de criminalidade e corrupção entre os maiores do mundo? É sempre complicado explicar que existem dois brasis.

Então, primeiro ultraje do almoço: é anunciado que, quem quiser bebida, levante-se e vá pedir no bar, que o pagamento vai pra conta da empresa. Ora, do meu canto não saí e fiquei só com a água que sempre está presente nas mesas, pelo menos, e sempre é de graça, mesmo sendo da torneira, o que nem sempre é saudável ou pura, mas conseguimos sobreviver com sorte, principalmente considerando-se que num hotel tão novo, os testes devem ter sido aplicados para liberar a água para beber. 

O delicioso drink mais saldável do universo... água
Ela é chamada "tap water" (água de torneira). Gelada, pelo menos. Os copos de cada um já estavam cheios, diferente da maioria dos restaurantes. Aprendi com meu filho que só toma água, leite ou suco de frutas e não bebe refrigerantes e muito mal toma uma cerveja pequena ou algum drink esporádico. A certo ponto de nossas vidas as coisas se revertem, e passamos a aprender com os filhos que tanto os ensinamos e tornaram-se melhores do que nós. Bem, isso não é válido pra todo mundo, mas este seria um dos meus desejos fraternais.

Ora, na Austrália é cada um por si, é costume você ir nos bares e restaurantes e ter que levantar-se do seu lugar, deixando sua bolsa pendurada e à mercê de malfeitores (no caso das mulheres enquanto os homens arrumam um jeito de marcarem seus lugares, mesmo que diferente dos cachorros), postar-se numa fila maldita na frente do balcão ou esperar sua vez, se não tem fila, algo que todo mundo sabe fazer educadamente exceto certos "assholes" (apesar da palavra pornográfica, significa cafajestes, o que inclui muita mulher fingida) ou estrangeiros que ainda não se adaptaram ao costume. 

Loura Pura, minha cerveja favorita
Em seguida você pede sua bebida que já deve ter sido escolhida, seja no cartaz sobre as cabeças dos atendentes, nos menus ou simplesmente porque você já sabe a cerveja que toma ou o vinho que deseja dentre aqueles já pre-designados para o almoço. Ou um simples refrigerante. Minha cerveja preferida é Pure Blond (Loura Pura que traduzo como Loura Gelada, pois aqui tem muita loura que não é pura mas é gelada).

Caso a empresa não estivesse pagando, você tinha que pagar, ou seja, se você estivesse num pub (bar), quantas cervejas você quisesse, teria que se levantar, enfrentar fila e pagar. Para mim isso é muito e desse jeito eles jamais terão lucro com o tipo de cliente que sou, ou seja, não existe mais ninguém que finque o pé no chão quanto eu, capaz de se "sacrificar" para beber água só porque não quer pagar e ter o trabalho de "fetch" (pegar) uma bebida no bar do pub ou restaurante. Se pelo menos, em compensação, elas fossem baratas por causa da economia com garçons, mas não são. Se todos fossem iguais a mim, o mundo seria bastante diferente. Provavelmente também seria diferente se todos fossem iguais a você.

Garçons australianos, Waiters on Tap (grupo Garçons Sapateadores)
Mas o mundo é assim, os australianos se adaptam a estas exigências que brasileiros simplesmente se irritariam tanto que o dono do bar teria que atendê-los do jeito que estamos acostumados, com garçons nos circundando, indagando e anotando em suas cadernetas os nossos pedidos, trazendo e nos servindo como patrões que estão pagando os subalternos para serví-los. 

Deve ser esta conotação que não é aceita pelos arrebitados australianos que não admitem estar por baixo de ninguém, mesmo que estejam

Antes de sermos servidos, passamos pelo mesmo mico do hábito arraigado de sempre, o de estourar canudos de Natal. E lá estavam todos estourando tudo sem medo de serem abordados pelos esquadrões anti-bombas do governo. 

Christmas crackers, pega no meu que eu pego no teu, a coisa
explode e sai um prêmio de dentro
Eu não conhecia a "brincadeira" singela no Brasil, então aprendi aqui. Trata-se de um canudo com um "prêmio" dentro e duas extremidades que devem ser puxadas por cada um dos dois colegas escolhidos pra puxarem suas extremidades. O canudo dá um estouro e se a parte grande do meio permanecer com o puxador, ele é o ganhador do "prêmio". A mim, como ganhador duas vezes, coube como prêmios charmosos e sofisticados uma escovinha cor-de-rosa de 5 cm e uma lixa de unhas também cor-de-rosa. As mulheres pouco se importam de insultarem os homens assim na Austrália.

Falei, o que estão querendo dizer com estes prêmios cor-de-rosa para mim? Eu ia desprezá-los por suas cores, mas com certeza seriam úteis pra minha mulher, e dito e feito, ela agradeceu pois tinha uso para os dois. Os prêmios são sempre assim, ridículos, acompanhados de uma piadinha totalmente sem graça e mais uma coroinha colorida pra ser colocada sobre a cabeça, dando um ar idiota muito festivo e sempre o mesmo em todas as festas de confraternização. Hábito bastante saudável, do you reckon?

Bem, uma confraternização em que ninguém se abraça nem deseja Feliz Natal a cada outro, conforme estamos acostumados no Brasil, seja de coração ou por obrigação social. Afinal não custa nada, mas eu me dou muito bem com esse sistema "não-me-toque" daqui, pois se quero abraços, tenho bastante em casa e não preciso ser hipócrita na rua. Porém, quanto mais abraços, melhor. Venha cá... tomou banho?

Então, garçons e garçonetes só para distribuir os pratos porque os robôs ainda não estão tão especializados. E quando chegou esta hora em que eu já tinha devorado o pãozinho italiano com manteiga como entrada, do jeito que estava com fome, os garçons começam a distribuição. Um sim, outro não, e só as mulheres do fim da mesa são servidas. Oh, por quê, o que está acontecendo, o que vocês têm de tão especial? Retrucaram que eram as vegetarianas. Seu prato? Cogumelos assados e cremosos à portobello, polenta e queijo feta ao molho de pimenta malagueta vermelha. Tiveram que engolir sem expelir fogo pela boca.

No menu havia duas opções para cada paladar, vege ou não. Achei que seríamos dados a opção de escolher nosso prato, mas este email não aconteceu. Então pensamos que os dois seriam servidos, um depois do outro, principalmente depois de ter comido a primeira porção... para passarinho. Para passarinho sem comparações com os pesos deles, apenas no tamanho da refeição porque sabe-se que um passarinho come muito mais do que um cavalo, proporcionalmente. Então deveríamos dizer que as porções servidas pareciam para cavalos, mas se eu dissesse isso, seria incompreendido. Então comemos como passarinhos.

Continuamos a esperar por nossos pratos. Os garçons então distribuiram as refeições não veges um sim, outro não. Ora, que raios de distribuição era aquela? Resultado, cada um não servido olhava pra comida do outro com olhos pidões, e tão pidão eu fiquei que minha colega italiana disse, você quer o meu? Sim, se você não se importa, eu quero comer o seu. E assim trocamos as coisas. Ei, psiu, pare de pensar o que está pensando...

O molho de oxicoco (cramberry) era bem mais ralo e escuro, enquanto
que a malha de brotos de feijão verde era tão pouca que ficava
escondida sob as fatias de peru, quantidade bem menor do que este
prato desta ilustração, e não haiva batata, muito menos gratinada. 

Olhar para um prato destes dá desgosto e frustração pois sabe-se 
que vai-se querer mais, sem poder. No céu é assim...
Tratava-se de 4 fatias de peru com um molho em cima estilo doce de ameixa e uma saladinha de brotos de bambu escondida embaixo perdidos no meio da branquidão do prato (peru assado na manteiga com brotos de feijões verdes, batata gratinada e suco de oxicoco). Fiquei pensando que era mais um dos famosos pratos doces deles que abundam em toda parte, o que odiamos pois somos a favor do sal no Brasil, e sentimos muita falta dele, faça mal ou não, tudo o que é demais faz mal, ou seja, comendo-se com parcimônia está tudo certo. Precisamos de sal, temos sal em nosso sangue, fomos feitos de sal, do sal saímos, e para o sal da terra iremos, a não ser que nos cremem, então não vamos para o sal da terra, apenas viramos a terra com sal. Suponho...

Todos achamos que era um dos pratos, e que o segundo viria depois. Esperamos os outros serem servidos, como manda a boa educação, e quando minha colega italiana recebeu o dela... era igual ao meu. Adoro estas surpresas, vocês sabem. Sim, com sarcasmo.

Exemplo de prato minimalista: lagosta
Começamos a comer. Estava gostoso, pelo menos. Não era ameixa, mas ambos os molhos eram azedinhos. E para minha sorte, qualquer dos pratos me satisfariam, e se não me engano, o outro prato seria lombo de carne bovina crocante com batata Dijon assada no alho e salada de espinafre ao vinagrete de morango, que jamais veio. Aquele era o nosso almoço e fim de papo, pois em seguida foram servidas as sobremesas.

Ah, meu filho, ficamos com fome, obviamente. O preço que estava no menu era de quase $75 dólares ($200 reais) por cabeça sem bebida nem entrada nem sobremesa nem embaixo da mesa, pagas por fora, uma barganha de Natal em promoção. Por um preço desses nós pelo menos esperávamos sair satisfeitos em termos de quantidade. Mas qual o quê, é sempre assim, decepção, por isso detesto jantar fora na Austrália, sou sempre roubado. 

Restaurantes chiques têm essa mania de servir pratos minimalistas em que a comida fica dançando no meio do espaço em branco, regadas sempre a um molhinho que se espalha como se fosse uma obra de arte, irregularmente e com uma folhinha verde em cima, e você é supostamente tido como desejando comer aquela coisa. Quem inventou isso só pode ter sido uma mulher anoréxica com psicose de modelo.

Nojinho não gosta de comida com gosto de asbesto
Para se satisfazer, é preciso pedir vários pratos, o que encarece sua conta até perder de vista, mais uma razão para as modelos anoréxicas arrumarem como maridos aqueles que não se importam em pagar. Em raras experiências desse tipo posso dizer que fui ao céu e voltei, tal era o extraordinário gosto maravilhoso daquelas pecinhas de obra de arte de cheffs, mas na maioria das vezes, a gente come e fica com uma cara insossa, de quem comeu e não gostou. Nem fede nem cheira, podia passar sem gastar aquela exorbitância. E às vezes o gosto é tão estranho quando asbestos.

Tenho língua grande que reclama de tudo? Tenho razão? Bem, com razão ou sem razão, acho divertido comparar nossas culturas e, nesse ponto então, o Brasil ainda ganha muito longe em termos de comida e serviços. Vocês que vivem no Brasil deveriam levar as mãos aos céus e agradecerem a Deus o paraíso em que vivem. Mesmo com políticos corruptos.

Olha o prato brasileiro que todo homem repete, feijoada
As más surpresas não acabam aí. De novo começa o ciclo da distribuição das sobremesas. Para nossa decepção, o segundo prato não apareceu e em seu lugar, as "veges" começaram a receber suas sobremesas primeiro. Bonito prato de frutas cobertas com uma bola de creme branco. Era pavlova com frutas frescas da estação ao suco de maracujá e creme de Chantilli, tudo o que eu adoro.

Quando chegou nossa vez, começaram de novo, um sim, outro não. Só que desta vez alguma coisa estava errada, e umas pessoas recebiam uma sobremesa enquanto as seguintes recebiam a mesma ou outra, meio fora de ordem. Ora, que diabos de critério era aquele que estavam usando na distribuição? Que eu soubesse, os garçons não sabiam nossos nomes, embora enquanto procuravam as "veges" no início e se perdiam, procuravam-nas pelos nomes, quem é fulana? E sicrana? Ah, na terceira mesa. Onde, quem? Lá, alí ó, aquela de cabelo cor-de-rosa.

De novo minha amiga italiana recebeu sua sobremesa que tentamos advinhar o que era e só conseguimos quando ela enfiou a colher e caçou um pedaço de alguma coisa enterrada numa espécie de torta coroada com uma bola de sorvete de creme. Era uma torta cozida de mince de maçã quente com sorvete em cima. O colega em frente havia recebido um famoso pudim de Natal coberto com "custard", um creme de leite doce e mole famoso entre as crianças na Austrália, cuja tradução para o Português dá "quindim", mas não é.

Tradicional pudim de Natal com custard. O pudim servido era bem
menor do que esse, perdido na imensidão branca do prato, com um
custard tão ralo que esparramava-se todo como batatinha quando

nasce.
Quando chegou a minha vez, recebi o tal tradicional pudim que de pudim como conhecemos no Brasil não tem nada, trata-se mais de uma fatia de bolo de noiva, ou bolo de casamento, que na realidade gosto porque tem frutas cristalizadas dentro. Mas não meu prato predileto, então fiquei olhando com cara de cachorro magro e imaginando porque não tive opção de escolher? O garçon então disse, "isso foi o que foi designado, se você quer mudar, eu vejo o que posso fazer", mas respondi que não precisava, que provavelmente havia sido falha da secretária que resolveu decidir por todo mundo, algo bem típico porque ela é uma típica australiana, apesar de ser britânica, autoritária, arrogante e displicente, apesar de eficiente no seu trabalho. Não havia sido a primeira que ela aprontara, mas tudo é tido como "normal" pelos australianos que aguentam tudo de suas mulheres. A secretária cujo cargo tem um nome mais pomposo pois não existem secretárias na nossa equipe embora claramente ela seja uma das duas, é resultado da revolução feminista das mulheres na Austrália que vai longe em tratar os homens mal na sua vingança milenar...

Torta de mince de maçã com sorvete. O prato servido não era tão
bagunçado como este pois a tortinha estava dentro de uma
canequinha de papel e no meio do imenso prato branco. Isso só

pode ter conotação afrodisíaca para as mulheres australianas...
vai ver que pratos brancos lembram lençóis brancos para depois'
da refeição...
Fiquei meia hora olhando pro tal pudim (figura de linguagem), então meu colega do outro lado ofereceu trocar sua torta por meu bolinho. Tem certeza, perguntei classicamente como cidadão australiano que sou. Sim, não faço questão. Ah, obrigado porque não sou muito afim de bolo. E então eu comi sua torta e ele comeu meu bolinho. Parem...

A torta também estava gostosa, incrivelmente mais doce do que o normal da Austrália que também tem paranóia com açúcar, e o contraste do gratinado quente com o sorvete gelado é algo que sempre me agrada. Na falta de coisa melhor, pode-se dizer que gosto de torta de maçã.

E este foi nosso grande almoço de Natal da empresa na Austrália para o ano de 2016. Pelo menos a conversa foi animada e os italianos do meu lado direito reclamaram de um monte de coisas, parecendo mais brasileiros do que eu, enquanto o australiano da esquerda juntou-se às reclamações e destilou seu veneno, sempre com um sorriso singelo nos lábios como que se desculpando por falar maldades, mas falando. Enquanto isso, as quatro "veges" ao longo da mesa entraram na conversa que tratava sobre as diferenças culturais, que é uma dominante na sociedade australiana. As quatro eram indianas, porém cada uma falava uma língua diferente por serem de estados diferentes da Índia. O resto da mesa não deu pra ouvir porque estávamos muito entretidos com nossas conversas.

Mapa da Itália dentro do Brasil
Enquanto a italiana dizia que era de Roma, mas o marido de Veneza, portanto com pronúncias e dialetos diferentes, aumentando para que a Itália de norte a sul fala-se línguas quase tão diferentes quanto é o Espanhól para os italianos, mais uma vez eu me orgulhava de dizer que no Brasil, com mais de 3000 quilômetros de extensão longitudinal e transversal, todos falávamos a mesma língua, inclusive os índios. Exceto que os índios brasileiros possuem milhares de suas línguas próprias que influenciam tanto os nomes das localidades quanto os aborígines australianos influenciam na Austrália.

O Brasil parece uma terra interessante, dizia um. Sim, pois sim, meu caro. Estou com vontade de visitá-lo, a Amazônia, não é? Bem, eu admito que vocês, que não conhecem o Brasil, só pensem em ir para a Amazônia, mas eu mesmo jamais iria. O quê, que absurdo é esse? Ora, você não tem a menor noção do que é uma "jungle" (selva), dos perigos que existem lá, então sonham em se meterem naquelas matas como se fosse o paraíso. Ói, os perigos são tantos que isso foi algo que jamais desejei. Bem, sou urbano, não gosto de fazendas no mato. Mas a maioria das pessoas parece sonhar com viver no mato, principalmente os estrangeiros cujos matos não são nunca como os matos das nossas matas tão garridas.

Não, nossa experiência de mato nunca foi boa, somos todos urbanos na família, com algumas excessões. Eu fui exposto a alguma vida no mato por causa da fazenda do meu avô, mas o que me assustava mais era o tamanho das aranhas carangejeiras que caiam do telhado na nossa cama de noite e era um bafafá para resolver o problema cada vez que isso acontecia.

Medo de aranhas da celebridade Shane Warn, ex jogador de cricket
australiano
Verdade que não tenho medo de aranha quanto certas australianas (e australianos como Shane Warne, celebridade do mundo do cricket, que não é grilo, é um jogo tipo basebol), mas mesmo assim, devido a tanta gente ter pavor, tenho cá meus receios. Quando era pequeno eu costumava brincar com aranhas pequenas. Hoje não me atrevo sequer a pegar nelas, porque a Austrália é famosa por suas aranhas venenosas, de modo que esta é outra diferença cultural bastante apavorante, nós não conhecemos os perigos naturais de um país quando nos mudamos para ele, diferente do Brasil onde eu geralmente sabia de tudo sobre nossos animais e insetos, onde encontrá-los, como evitá-los e o que fazer em caso de ataque. Aqui, para nós, qualquer mato é perigo. As cobras são mais venenosas e famosas por isso. Devem ter influenciado a população feminina do país... portanto, a Amazônia é ainda mais perigosa para estrangeiros que nunca viram uma mata decente.

Representação do bioma (todos os seres vivos de uma
determinada região) brasileiro dentro da bacia amazônica cujos
60% pertencem ao Brasil
De modo que você vá conhecer a Amazônia, mas eu jamais irei com você. A não ser que seja com guias locais que conhecem muito bem por onde andam. Ora, tem índios intocados lá, não é? Sim, tem aldeias que nunca viram a civilização, mas se elas nunca viram, você também não vai vê-las, he, he. Sim, he, he, he. Sabe-se que tem porque uma ou outra foi descoberta ultimamente por helicópteros.

Mas que brasileiro sou eu que despreza a Amazônia? Sim, sou realista e coerente com minhas raízes, não sou do mato e no mato não desejo me meter. Deixa o paraíso lá, intocado, do jeito que sempre foi, que faz muito bem à saúde da humanidade. Vamos poluir as cidades...

Bem, mas voltando à vaca fria, depois de tanta conversa, chega a hora de nos despedirmos. A grande maioria já tinha dado-no-pé, e para meu prazer, na Austrália quase ninguém se confraterniza como no Brasil, nada de abraços ou beijinhos, e muito mal um tchau qualquer. Vai-se embora como se chegou, sem falar com ninguém em particular, um oi de longe é o bastante, caso os olhares se cruzem, o que a maioria faz que não vê. É que, não se esqueçam, os australianos têm outra paranóia além do açúcar e do sal, que é aquela do "não me toque". Este é um problema muito sério que brasileiro também não tem, se bem que tais abraços são odiados por pessoas que acham que eles significam interesse e propinas. Não tenho estas paranóias, sei lidar muito bem com isso, como bom brasileiro.

Toalet unisex (não, este não era o sinal, mas é só o que
poderíamos pensar)
Eu e meu colega do lado decidimos ir ao banheiro antes de irmos embora e descobrimos que o novo e moderno toalete do hotel era... unisex. Figurinhas de homem e mulher juntas e mais cadeira de deficiente escrito, "Unisex", "Bi", "Não Importa", "Qualquer Coisa" ou algo parecida (não tirei nenhuma fotografia). Que raios de banheiro era esse, confidenciamos um ao outro? Disse eu, seriam todos juntos? Risadas. 

Entramos como num novo mundo de Alice no país das maravilhas, dentro de um enorme hall preto completamente vazio, com uma pia branca lá no fundo e o que parecia uma carreira de portas à direita e à esquerda, todas fechadas. Ora, qual escolher? Meu colega escolheu logo a primeira do lado esquerdo, empurrou e entrou. As outras todas pareciam ter a plaquinha no vermeho de ocupadas, ou "meio-ocupadas", então fiquei sem saber o que fazer. Resolvi escolher uma que parecia estar menos "meio-ocupada" só para descobrir que aquele toalete era para pessoas deficientes. Ora, já estou aqui, vai assim mesmo. Um toalete enorme e cheio de mordomias para os privilegiados deficientes, pensei eu com ironia antes de reconhecer que eles devem mais é ser premiados pelas suas sinas.

Toalete da moda constrangedora para todos os gêneros
Toalete com encosto e corrimãos e sua pia própria. Geralmente toaletes não tem pias nem nas casas na Austrália, o que sempre me faz pensar que as pessoas pegam nas maçanetas com as mãos sujas de... só para lavarem depois que saíram, quando lavam. É famosa a falta de higiene do australiano, e aparentemente do inglês também, de acordo com seriados realidade que passam na TV.

Saímos dos toaletes para o hall onde meu colega foi lavar as mãos, enquanto eu já havia lavado as minhas no toalete enorme e privilegiado, e uma mulher sequer não vimos, he, he. Estariam elas de acordo com tais medidas modernas da agenda gay mundial? Minha mulher me disse que não, que provavemente muitas estariam "upset" (aborrecidas) ao ponto de se "segurarem" como estão acostumadas a fazer até chegarem em casa, onde se aliviam com descontração e alívio. 

A glória...
Vitória dos 10% de gays no mundo, doidos para enxergarem o que os não-gays mais tentam proteger deles, mas deixa pra lá que essa opinião parece mais homofóbica e nazista, apesar da ascenção das direitas no mundo... foram mexer no diabo com vara curta, o racismo está em alta, e agora José?

O que nossa colega falou sobre a Itália é muito parecido com o Brasil. Guardarei comentários para um eventual próximo post. Sei que existem pelo menos 3 Itálias, a do norte que inclui duas das cidades mais avançadas do mundo, Turim e Milão, a Itália do meio onde fica Roma, e a Itália do sul, paraíso dos mafiosos na Sicília. Não é à toa que eles falam quase línguas diferentes, eles também são muito diferentes num país do tamanho de um estado médio brasileiro como o Maranhão (331.937 km contra 301.336 km). 

Pilatos lavando as mani pulite dele, e a história se repete
Mani Pulite Lava Jati

O que me trás à memória a íntima ligação do nosso atual herói brasileiro chamado Moro e sua inspiração na operação Mani Pulite ("Mãos Limpas") que gerou um Berlusconi na presidência, um dos políticos bilionários mais corruptos do mundo, que não foi preso justamente por fechar a Lava-Jato de lá. O povo italiano daquela época estava tão confuso quando o povo brasileiro hoje, mesmo sem mídia social. Muito bem bolado, paga-se pela própria ignorância, a coisa certa levando à coisa errada.

Segundo a Wikipedia, "A Operação Mãos Limpas (em italiano: Mani pulite), inicialmente chamada Caso Tangentopoli (em português, 'cidade do suborno' ou 'cidade da propina', termo cunhado por Piero Colaprico, cronista do jornal la Repubblica, referindo-se à cidade de Milão), foi uma investigação judicial de grande envergadura realizada na Itália. A operação teve início em Milão e visava esclarecer casos de corrupção durante a década de 1990 (no período de 1992 a 1996) na sequência do escândalo do Banco Ambrosiano, revelado em 1982, que implicava a Máfia, o Banco do Vaticano e a loja maçônica P2.

A Operação Mãos Limpas, coordenada pelo Procurador da República Antonio Di Pietro e pelo juiz Giovanni Falcone, morto em atentado pelo crime organizado em 1992, levou ao fim da chamada Primeira República Italiana (1948 – 1994) e a profundas mudanças no quadro partidário, com o desaparecimento de vários partidos políticos. Muitos políticos e industriais cometeram suicídio quando os seus crimes foram descobertos, enquanto outros se tornaram foragidos, dentro e fora do país.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Operação_Mãos_Limpas

Meia árvore de Natal da Treny Tree,
Mississipi
Vocês já viram esse filme?

Enquanto você infantilmente pensa que estão caçando os corruptos, na realidade se trata de briga entre fações para açambarcarem a porção do outro. Tá difícil? Uma elite contra a outra a fim de tomar o que é da perdedora! Já ouviram falar na série de filmes Game of Thrones (Jogo dos Tronos)? Mudou alguma coisa de lá pra cá? Não, mas apesar disso você vive melhor do que naquela época fictícia porém similar à Idade Média e todas as outras idades conforme o contexto, uma prova que Deus existe e consegue fazer a humanidade evoluir, embaixo de paus, pedras e cruzes. Graças a você outro, assim não tão infantil.

Feliz Meio-Natal e Meio-Ano Novo!

De modo que desejo-lhes um meio Feliz Natal do jeito que foi nosso meio almoço pratrocinado por umas das mais prestigiadas corporações do mundo nessa época de recessão. Melhor do que não ter nenhum. Além disso, como as perspectivas se apresentam no Brasil, nem meio próspero ano novo ninguém terá. Que todos tenham um Natal e Ano Novo meio assim.

Premonição ou Pre-munição?

O segundo motivo deste post é que tive um sonho premonitório, e está aqui apenas como curiosidade, dada a minha vontade de ser médium sem conseguir. 

No sonho, eu vinha de uma mesa onde estavam meus colegas e andava muito, junto com outros, até esta mesa onde estava um ex-chefe na cabeça de cima. Eu lhe falava qualquer coisa e retornava para nossa mesa pensando que, quando eu chegasse, ia demorar tanto que as comidas já teriam sido servidas e pouco deveria sobrar para mim, como já havia acontecido em uns dois ou três outros sonhos anteriores, mas eu não me importava, apesar da fome.

Acontece que no nosso almoço, o ex-chefe estava na mesma posição, quado cheguei, com uma porção de gente, circundei a mesa e perguntei se o lugar ao seu lado estava vazio, quando um outro funcionário estranho que estava em pé virou-se e disse que o lugar era dele, então continuei circundando quando a secretária pegou o último lugar, o que me enxotou para a última mesa onde estava parte dos meus colegas, pulando uma mesa com outros colegas asiáticos e indianos não muito chegados.

Quando cheguei na mesa ainda conversei bastante antes da comida ser servida, mas acabei passando fome como decretado no meu sonho. Seria esta uma prova de que não existe tempo nem espaço, e como os espíritos falecidos podem enxergar o futuro, embora dependa do nosso livre arbítrio que pode alterá-lo?

Sonhos famintos desse tipo têm povoado minha existência a cerca de um ano ou dois atrás até hoje. Minha conclusão é de que deve ser um treinamento para a morte, para que, quando eu chegar lá, já chegue com pre-munição para não ter que me recuperar do vício de comer, pois lá não há jantar nem temos que alimentar nossos corpos fluídicos. Será que temos? Imagina que nem tenho este vício de comer, mas conheço muita gente obesa que tem, então repasso esta noção.

Filosofia Silver Fox
Então fico sonhando que jamais irei aplacar a minha fome, então é melhor não ter fome. Outro motivo dos sonhos é que tento perder peso e não consigo porque continuo comendo sempre a mesma quantidade de carbo-hidratos. Então os sonhos são avisos para eu emagrecer e diminuir os riscos de ataques cardíacos. Estou apenas 20 quilos mais pesado do que deveria. Mas este aviso tá difícil de atender. Se eu fosse comer tanto quanto desejo, estaria com mais de 100 quilos como tanta gente que conheço. Afinal este é um dos últimos prazeres que restam aos idosos (com baixa testosterona) antes que eles sejam obrigados a manterem uma dieta rigorosa, regada a remédios...

Também pode ser que eu tenha sonhado porque "sonhava" com aquele almoço. Isso é meio difícil, sonhar com almoços na Austrália das comidas insossas, não faz o menor sentido, mas quem sabe, pode ter sido.

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